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Correio Braziliense

Linn da Quebrada mostra as garras e o vigor, no documentário Bixa Travesty

O filme é atração do último dia da mostra competitiva do 51º Festival de Cinema


postado em 22/09/2018 06:30 / atualizado em 22/09/2018 15:33

Bixa Travesty: documentário mesclado à ficção embala narrativa do filme de Claudia Priscilla e Kiko Goifman (foto: Nube Abe/Divulgação)
Bixa Travesty: documentário mesclado à ficção embala narrativa do filme de Claudia Priscilla e Kiko Goifman (foto: Nube Abe/Divulgação)
Munida de transgressões estéticas e sociais, a cantora e atriz Linn da Quebrada nunca se desprende da imagem de agitadora política. Acessível ao extremo — e coautora do roteiro do longa Bixa Travesty —, ela compartilha bem mais do que a intimidade no documentário que é o concorrente da noite no Festival de Brasília.

“O discurso da Linn trata de uma política do cotidiano, de uma forte discussão sobre o corpo como ferramenta e da transgeneridade. Os próprios shows possuem grandes doses de sarcasmo e sensualidade; ela faz uma convocação de participação política do público, num jogo de interação. Antes de tudo, trazemos um filme contra o machismo vigente e contra o conservadorismo que assola o Brasil e o mundo inteiro. É uma porrada nos caretas”, adianta Claudia Priscilla, codiretora do filme.

Depois de encontros com a performer, desde 2015, e laços estreitados, o olhar de Claudia afunilou para a arte particular de Linn. A protagonista do documentário integrava coletivo que apostava em ousadia e provocações destinadas a parar as ruas paulistanas. A força dos discursos nas redes sociais também pesou no processo de aproximação. “Num show, fui com Kiko Goifman (codiretor do filme), e percebemos a força de uma artista contemporânea, que carrega atualidade e originalidade na música. Ficamos arrebatados e veio a necessidade do filme”, explica.

Kiko Goifman, codiretor de Bixa Travesty (foto: Cia de Foto/Divulgação)
Kiko Goifman, codiretor de Bixa Travesty (foto: Cia de Foto/Divulgação)


“Não faria esse filme sozinho. A feminilidade é um ponto de contato extremo entre Linn e Claudia”, conta Kiko. Ele assume que, inicialmente, Linn tinha “um pé atrás” com ele. “Hoje posso falar isso com humor, mas de algum modo tenho certas características que Linn desconfia: sou homem, branco, classe média, cis gênero. Mas, logo já estávamos todos dentro do que consideramos que tenha sido uma relação afetiva. Acho que nos respeitamos muito”, considera.

Trajetória

Companheiros há 20 anos, Claudia e Kiko trabalham sistematicamente juntos. Quase não percebem limites entre trabalho e lazer. “Prazer e dever estão de mãos dadas”, simplifica o cineasta. Ambos têm no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro um marco na trajetória. Há 10 anos, viram premiado  FilmeFobia, dirigido por Kiko, que teve Claudia como assistente de direção. Vestido de Laerte (codirigido por Claudia) também obteve prêmios e responderam por um filme produzido por Kiko, A destruição de Bernardet (fora de competição).

“Não existe melhor lugar para estrear Bixa Travesty do que em Brasília. No festival, o público se manifesta com veemência”, observa o cineasta. Extrapolando o âmbito do canto corajoso de Linn, Kiko avalia: “A luta está no próprio corpo: Linn não quer disfarçar seu corpo, fingir ser mulher — ela se assume trans”.

Quebrando tudo

Padrões de gênero e classe prometem ser abolidos na narrativa do documentário orçado em cerca de R$ 500 mil e com filmagens estendidas por quatro meses. Para além da amizade, uma amiga da protagonista, Nu Abe, entregou fartas imagens de um passado recente, na composição do filme.

“Há forte presença de material de arquivo. É muito interessante você, hoje em dia, fazer um filme com uma pessoa de 27 anos. Linn teve sua vida inteiramente filmada, inclusive momentos delicados de doença”, sublinha o cineasta. A luta por um cinema reflexivo e pontuado por indagações segue fundamentando a carreira de Kiko e Claudia, em Bixa Travesty. A fita toca em temas considerados tabus e aqueles “abordados, muitas vezes, somente de forma sensacionalista — o que detestamos”, pontua o codiretor.

“Existem no filme várias cenas que podem até chocar alguém, mas isso nunca foi o nosso intuito. Temos ouvido em debates que o filme possui uma delicadeza de tratamento mesmo nas situações extremas de corpo livre, que envolvem a nudez, em conjunto ou solitária, brincadeiras com o próprio corpo etc. Chocar nunca foi nossa intenção, ao contrário, a dimensão política do filme se completa exatamente na dimensão humana”, revela Kiko Goifman.
 
Entrevista // Claudia Priscilla 
 
 
Há sete anos, você tratou da exposição de um personagem trans, em Olhe pra mim de novo. A sociedade amadureceu para encarar o tema?
Tenho um longo trabalho relacionado à questão LGBT. Fiz o curta Sexo e claustro (2006), a respeito de uma ex-freira lésbica mexicana. Dirigi, com o Kiko Goifman, Olhe pra mim de novo, sobre um homem trans. Ambos os filmes estiveram no Festival de Berlim, que preserva forte interesse político. Houve mudanças, ao longo do tempo, com transformações que alternam avanços e retrocessos. Existem mais pessoas trans com uma visibilidade positiva, principalmente na área artística. Fala-se mais sobre o assunto. Por outro lado, problemas se agravaram. O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. A expectativa de vida dessas pessoas é de 35 anos. Depois desses dados fica difícil entender que o Brasil lidera o ranking de procura por pornografia trans no Redtube. Outro dado estarrecedor é que 90% das pessoas trans recorrerem à prostituição, em algum momento da vida. Isso demonstra que a inclusão de pessoas trans e travestis no mercado de trabalho ainda é um desafio para as empresas. Falar desse tema hoje é urgente. A transfobia está fortíssima.

A Linn da Quebrada teve voz de edição no filme? Que veredito deu da obra?
Ela teve uma voz significativa no processo inteiro de realização do filme. O ponto principal é que não se trata de um filme sobre a Linn da Quebrada, mas um filme feito com ela, que coassina o roteiro. Linn sugeriu locações, personagens, temas. Isso é fundamental no filme, ela participou ativamente de todo o processo. A ideia sempre foi trazer a personagem para o processo criativo.

De que linguagem beberam? Há hibridismo?
Não acredito que exista uma fronteira rígida que separe documentário e ficção. Essa linguagem híbrida me instiga hoje a fazer cinema. Esse jogo do que é “real” e ficcional acompanha todo o filme.

O que pesa mais na vida da Linn: discriminação por ser negra ou por ser trans?
Não poderia responder, cabe a Linn falar por ela, mas ela sofre os dois tipos de preconceito. E ainda podemos acrescentar outros aspectos que são problemáticos. No próprio nome “Linn da Quebrada”. A palavra quebrada significa muitas coisas para ela e um destes conceitos importantes é o da periferia, de ser uma artista que aponta para a importância dos saberes que não necessariamente estão nos centros poderosos. Ser da periferia é sofrer preconceito. Linn também vem de uma família extremamente pobre, aponta que passou fome em sua adolescência. Ou seja, a junção de aspectos que podem levar a preconceitos é gigantesca. A parceira de trabalho dela, Jup do Bairro, que é fundamental também no filme, sofre todos esses preconceitos e ainda mais um: é gorda. Tem um corpo que foge dos padrões.

De quem foi a ideia do título? Não chegaria a ser condenável?
A ideia do nome do filme é da Linn, que se autodenomina Bixa Travesty, com essa grafia. Adoramos, quando ela sugeriu. É o nome de uma música dela. É um título provocativo, sem dúvidas, mas diz muito sobre a Linn e também contempla inúmeras outras pessoas que não estão dentro do padrão social normativo. 
 
 

Mostra competitiva

Cine Brasília (EQS 106/107). Hoje, às 18h, com os curtas Reforma (15 min, PE, 16 anos) de Fábio Leal e BR3 (23 min, RJ, 14 anos) de Bruno Ribeiro e o longa Bixa Travesty (documentário, 75 min, SP, 14 anos), de Claudia Priscilla e Kiko Goifman. Ingressos, R$ 12.



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