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Correio Braziliense

Novo livro de Ignácio de Loyola Brandão apresenta um Brasil apocalíptico

No Brasil distópico de Ignácio de Loyola Brandão há muito da realidade de hoje. Novo romance do autor, 'Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela' traz visão apocalíptica do país


postado em 23/09/2018 06:30

Ignácio Loyola Brandão: 'A política brasileira não está demonizada. Está corrompida, deteriorada, podre, é uma gosma'(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Ignácio Loyola Brandão: 'A política brasileira não está demonizada. Está corrompida, deteriorada, podre, é uma gosma' (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)


No cenário distópico criado por Ignácio de Loyola Brandão, o Brasil tem 1080 partidos, já passou por 113 impeachments e os políticos diminuem de tamanho à medida que recebem propina. São chamados de astutos esses seres que já quase não aparecem em público e chegam a medir 22cm. Nesse Brasil, em uma medida oportunamente democrática, o governo desistiu da educação porque acredita que cada um tem o direito de se educar como quiser e os celulares vêm implantados, em forma de chip, sob a pele dos habitantes. A capital mudou de local tantas vezes que ninguém mais sabe onde fica e, para ter uma vida sossegada, os juízes do que seria o Supremo Tribunal Federal vivem isolados em um bunker. Ninguém conhece seus rostos.

Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela é uma catarse. Nas palavras de Loyola Brandão, uma terapia, uma clínica de reabilitação, um confessionário, uma faca no intestino de todo mundo, um vômito sobre o Planalto. “Nunca escrevi livro mais louco. E mais real”, garante. “Não sendo terrorista, nem sniper, nem pela violência, nem pelas armas ou pelo revólver na mão, escrevi, porque o que sei é escrever, desmascarando e desmoralizando o inimigo, porque os governos têm sido nossos inimigos.”

Ignácio de Loyola Brandão gosta de reler Os sertões, de Euclides da Cunha. Sempre encontra ali algo que poderia ter sido escrito hoje.  

Um delírio que também pode ser lido como um desabafo, Desta terra nada vai sobrar... acompanha alguns personagens em um Brasil abandonado. O país virou terra de ninguém, embora ainda haja um fértil e bem montado esquema de corrupção. Se não há política nem governo, há negociação, porque impostos continuam a ser pagos. Logo, há dinheiro e, dessa vez, ele circula em dutos e não mais em cuecas. No meio de tudo, um pouco de afeto, ainda que despedaçado, no casal Clara e Felipe.

Eles rompem no início do romance, mas são um bom contraponto para a perua Dagmar e seu astuto corrupto. Neles, o autor deposita uma dezena de nomes da cena atual. “Um livro é produto de vários tempos, época, momentos, assim como um personagem é um conjunto de detalhes de um, outro, outra, aquele lá, etc. Olhe e leia o noticiário, dá para definir vinte personagens desprezíveis, fúteis, grosseiras como Dagmar”, avisa.

Trilogia


Há 12 anos Loyola Brandão não publicava um novo romance. E desde Não verás país nenhum não escreve sobre um Brasil apocalítpico. Desta terra nada vai sobrar, ele se deu conta, faz parte de uma trilogia iniciada com Zero (1975), uma autópsia da Ditadura Militar, e Não verás país nenhum (1981).

“Depois de ter escrito aqueles dois, só poderia ter escrito este, demolidor. Pensar que fiquei quase 12 anos sem publicar um romance e quando vi, ele estava entalado na garganta. Não estou crente nem descrente. Pior, estou apático, como os brasileiros estão. Todos apáticos, paralisados, como se um gás tivesse descido sobre nós, apagando vontades, reações”, conta.

No romance, o gás existe de fato e é uma forma de o governo prostrar a população. Para o autor, a realidade é tão absurda que há nela material de sobra para fábulas, metáforas e humor negro. Mesmo assim, ele sonha e cultiva utopias diferentes da distopia que chega às livrarias. “Eu gostaria que este livro sacudisse as pessoas”, diz Ignácio de Loyola Brandão.


Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela
De Ignácio de Loyola Brandão. Global Editora, 378 páginas. R$ 59,90


A política brasileira está demonizada? Ninguém acredita mais nela? 

A política brasileira não está demonizada. Está corrompida, deteriorada, podre, é uma gosma. Tornou-se máfia, só que a omertá, a lei do silêncio, não existe mais — veja o tanto de delações. Estivesse demonizada, chamaríamos o padre Damien Karras para fazer um exorcismo. O juiz Marcelo Bretas, do Rio de Janeiro definiu muito bem a política de alguns (talvez maioria) ao condenar Sérgio Cabral. Ele disse: “O senhor mercantilizou de forma repugnante as funções públicas que lhe foram outorgadas por meio de uma quantidade expressiva de votos pelos eleitores cariocas, que foram traídos e abandonados à própria sorte em um Estado em que a corrupção se espraiou por todos os órgãos da administração estadual.” Basta mudarmos a palavra estadual para federal e temos o quadro bem delineado...


O descrédito na política fez o fechamento de parlamentos parecer normal em países da América Latina. Na sua opinião, podemos chegar a esse ponto? 

Pode, pode sim acontecer. Com o desencanto, com a decepção, com as frustrações, com o balcão de negócios que nosso Congresso se tornou, ele é hoje uma capitania hereditária, pais passam o bastão ao filhos, com o descaramento. Bem pode acontecer do povo querer que se feche o Parlamento. Claro que seria antidemocrático. Quem fecharia o Congresso, se não estamos em uma ditadura? Mas esse Parlamento acaso parlamenta? Que leis ele fez, faz, fará para o país? Um Tiririca passou anos lá, sua votação levou não sei quantos para a legenda. Todos inúteis como ele, que jamais fez um projeto, um discurso, um aparte. Me diga um só projeto do Congresso que tenha beneficiado os brasileiros e não as confrarias que habitam as câmaras. Não sei de que país estamos falando, estou igual ao Felipe, meu personagem, perdi a memória, as crenças, os sonhos, as ilusões, as fronteiras. Mas ainda me debato para me salvar, nos salvarmos.



Como a personagem Dagmar, que “não era uma mulher inculta”, representa uma parte da sociedade brasileira?

Me diga, quantas Dagmar você conhece? Milhares. Elas estão na revista Caras, na Glamurama, nos eventos sociais. Em Trancoso, Brasília, nas mansões à beira dos lagos, Barra da Tijuca, Aldeota e, principalmente, em Miami, exílio de ouro, comprando quadros do Romero Brito. Poderia ser a mulher daquele marqueteiro (cujo nome me escapa) que seguiu para a prisão com ar arrogante, mascando chiclete e afirmando: “em 24 horas estaremos soltos”. Modelos, temos aos monte nas colunas sociais, nas revistas que publicam perfis de gente vazia. Na frase “não era uma mulher inculta” reside imensa ironia, gargalhada, a frase é fake news, muito do livro é fake news, o país retratado é fake. Um livro é produto de vários tempos, época, momentos, assim como um personagem é um conjunto de detalhes de um, outro, outra, aquele lá, etc. Olhe e leia o noticiário, dá para definir vinte personagens desprezíveis, fúteis, grosseiras como Dagmar.


A política sobressai, mas são vários os temas tratados no romance, todos voltados para a maneira como vivemos. Hackers, WhatsApp, nuvem, blogueiras, chips inseridos em paredes, celulares embutidos nos corpos… Há no livro uma desilusão enorme sobre a maneira como vivemos hoje? 

Desilusão? Não? Desiludir-me com o que nunca me iludiu? O escritor é o que procura ver. Olho e aciono o clique da câmera. O livro é todo narrado por câmeras. Observo e transmito. Não julgo. O leitor lê e entende do jeito que quiser. Mas que este Brasil está vivendo um momento triste, primitivo, bárbaro, pré-histórico, está. O escritor é o que joga o olhar sobre o panorama. Vivemos uma época de individualismos, ganâncias, futilidades, vazios, vivemos num país polarizado, com grupos se gladiando, espancando e escarrando uns nos outros. Este romance é um conjunto de crônicas, uma sequência de instagrans sobre a vida hoje. O romancista (eu) transmite seu (meu) tempo para o futuro. O historiador vai se basear também no que escrevemos, pinçamos da realidade. O que somos hoje está aí em Desta terra nada vai sobrar... 

No livro, o governo desiste de manter o sistema educacional. Já chegamos a esse ponto?

Há muitos anos, quem quer aprender, está aprendendo por si. Existem restaurantes self-service, existem escolas self-service. Veja quantos projetos inúteis para o ensino. Veja como nossos alfabetizados são alfabetizados funcionais que leem, mas não entendem o que lêem. Alunos da oitava série não conseguem fazer contas elementares de matemática. Dia desses, depositei dois cheques de R$ 120 no banco, a caixa apanhou a calculadora e fez a transação. Disse a ela: dá 240. E ela: E se não der, eu é que pago o pato. As bolsas de pesquisas vêm sendo canceladas. Ninguém se preocupa com o ensino fundamental, a base de tudo, daí a ruína das universidades, a maioria hoje em mãos de particulares. Sem esquecer o dinheiro que sai da saúde, da educação, da cultura e vai comprar deputado. Bom, e se formos falar de incêndios em museu, estaremos perdidos, nunca há água nos hidrantes nem nos museus, nem no Nordeste, nem nas represas que alimentam as cidades...


113 impeachments, 1080 presidentes: como teve essa ideia? Estamos a caminho?

No dia em que impicharam a Dilma e quando o Temer começou a patinar, li um e outro artigo de juristas respeitáveis anunciando a possibilidade de novo impeachment, ou o Brasil sairia dos trilhos. Ora, o escritor é aquele que não teme o absurdo, ele se mete em todos caminhos prováveis. Me veio, então, a ideia de contínuos impeachments, movidos pela ganância e pela ambição dos políticos. Daí, que bastou passar Lubrax e deixar a imaginação fluir, fluir, assim como o dinheiro das propinas fluía em condutos gigantescos
 
 
 
 

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