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Correio Braziliense

Último filme do Festival une a América Latina pela violência

Alice Lanari e Pedro Asbeg defendem 'América armada' em exibição fora da mostra competitiva. Noite anunciará os vencedores do Candango


postado em 23/09/2018 06:50

Alice Lanari(foto: Art House/Divulgação)
Alice Lanari (foto: Art House/Divulgação)
 
 
A violência talvez seja o traço mais comum entre os países da América Latina. Alice Lanari e Pedro Asbeg chegaram a essa conclusão enquanto tentavam desenvolver o projeto de um filme que unisse Brasil e México. América armada nasceu da constatação de que os dois países compartilham um histórico de violência crescente. Ao analisar a situação na Colômbia, a dupla de diretores achou que seria interessante acrescentar o país.

Com sessão hors concours hoje no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o documentário acompanha três personagens cujas lutas estão ligadas à violência que chacoalha diariamente seus países. “Infelizmente, entendemos que o que unia os dois países era a violência e que, um fenômeno comum aos dois, era o nascimento de grupos armados de civis”, conta Pedro. “No Brasil, as milícias e, no México, os grupos de autodefesa. Mas a gente entendeu que o assunto do filme não precisava necessariamente tratar só disso e que a gente podia identificar um outro país tão afetado pela violência quanto esses dois. Então, entrou a Colômbia.”

Alice e Pedro optaram por um documentário no qual acompanham os personagens. Não há sessões de entrevista nem “talking heads” com histórias narradas do início ao fim. O acaso é fundamental para o longa. “Escolhemos esse tipo de documentário, sem entrevistas ou personagens falando, porque acreditamos que ninguém melhor do que as próprias pessoas vivendo suas vidas, sua realidade, para impactar e trazer para o espectador essa força, essa coisa do impacto”, explica Alice.

Para ela, o documentário tem a capacidade de convidar o espectador a pensar sobre o próprio papel diante das situações. “A gente sentia que, se fizesse um documentário mais frio, com especialistas falando sobre segurança pública, tentando cruzar a América Latina, talvez não fosse tão forte quanto passar um tempo vivendo a vida daquelas pessoas”, acredita a diretora.

Sequestros


Na Colômbia, América armada acompanha Teresita Gavíria, moradora de Medellín e responsável pela ONG Madres de candelária, grupo de mães que procuram esclarecer desaparecimentos, sequestros e mortes de familiares, mas que também tem como bandeira construir um discurso de paz e reconciliação. Os diretores entendem que cada um dos países escolhidos para o filme está em determinado estágio da violência. Para eles, a Colômbia teria ultrapassado o ápice, o momento mais crítico. “Exemplo disso é a Teresita”, diz Pedro.

“O grupo dela tenta que as pessoas se perdoem, que exista paz na Colômbia, que as pessoas minimamente aceitem os acordos propostos, porque são décadas de muito conflito, muita morte, todo mundo afetado num ciclo de vingança e morte. A Colômbia, felizmente, está saindo disso e a tendência é que a violência por lá diminua.”

O México tem a situação mais extrema dos três. Por lá, Pedro e Alice seguiram os passos de Heriberto Paredes, jornalista independente comprometido em documentar e divulgar o processo de formação dos grupos de autodefesa. Em regiões como Michoacano, agricultores nativos criaram grupos de civis armados para se defender do narcotráfico e de um Estado considerado criminoso.

“Heriberto nos levou a lugares impressionantes onde, basicamente, ou você tem situações de autonomia total, em que tanto cartéis quanto o Estado formal foram expulsos da cidade, ou você tem áreas com rondas de pessoas armadas que não são nenhum grupo militar, nem policial”, conta Pedro.

No Brasil, é Raull Santiago, do coletivo Papo Reto, grupo de ativistas do Complexo do Alemão (Rio de Janeiro), quem conduz os diretores pelo interior da favela para mostrar como as milícias atuam livremente e interferem na liberdade e na propriedade dos moradores. Para Pedro, o maior desafio do filme foi depender do acaso. Filmado em quatro semanas, mas planejado nos mínimos detalhes, o longa também precisava dar espaço para os acontecimentos. “Fazer um filme da maneira como a gente quis fazer, dependendo muito do acaso e das coisas que fossem acontecer na nossa frente, é um grande complicador”, admite.

Alice explica que é preciso estar muito atento para não deixar escapar detalhes. “A gente estava muito preparado, mas o documentário tem uma característica, você tem que saber o que está encontrando para poder encontrar o inesperado. Porque é justamente o inesperado a coisa mais sublime do documentário. Só que, quando você não sabe nem o que esperar, muitas vezes esse inesperado te cruza e você nem percebe”, diz. Para fazer América armada, Pedro e Alice contaram com R$ 70 mil do edital Riofilmes e captaram R$ 300 mil junto à Globo Filmes por meio de Lei de Incentivo. Houve também patrocínio do Canal Brasil e da Klabin, mas o longa foi feito com metade do orçamento original calculado pelos diretores
 
 

Três perguntas / Alice Lanari

 
Pedro Asbeg(foto: Art House/Divulgação)
Pedro Asbeg (foto: Art House/Divulgação)

Qual a importância de América armada sendo exibido neste momento?

A gente não esperava que o filme fosse nascer dentro de um momento tão importante para essa discussão. Somos rigorosamente contra alguma proposta de discussão do Estatuto do Desarmamento. Pra gente, está muito claro que não é a arma que vai resolver e o filme deixa isso muito claro. Arma gera mais violência, mais morte. Mas tenho esperança. A gente fez o filme muito antes disso acontecer (campanha política), mas aí, de repente, o inesperado vem e as coisas se cruzam. O filme é absolutamente contra o uso da arma. A Colômbia entra no filme para mostrar um caminho pelo qual a gente não quer ir. Nem o México nem o Brasil chegaram no lugar ao qual a Colômbia chegou e do qual está saindo. Foi uma situação de guerra civil e, hoje, o importante, para eles, é o perdão e a reconciliação. A questão da desigualdade social é tão grave, tão arraigada, tão de berço que isso tudo é só um resultado. Não é botando arma nas mãos das pessoas que essa desigualdade vai ser solucionada.

Você acha que o filme é capaz de mudar uma opinião?

Acredito no poder do cinema. Não do ponto de vista de chegar a mudar uma situação. A gente não fez América Armada pra mudar uma realidade, mas a gente fez o filme sabendo que se, em cada exibição, uma, duas, três, poucas pessoas possam parar e pensar “qual o meu lugar nessa história?”, “qual minha forma de lutar contra isso?”, a gente já entende que há uma transformação. A gente se transformou muito, foi uma equipe miúda, reduzida, nossa visão de mundo se transformou.

O que vocês concluíram de mais importante ao fazer o documentário?

Entendemos que é uma região na qual alguém ganha com a guerra e que não somos nós nem a população em geral. Existe gente que está lucrando muito com isso. E essa, talvez, seja a constatação do filme: o capitalismo mudou e existe, hoje, um capitalismo criminoso no qual a violência gera lucro. Tem gente que não só ganha com isso, como precisa que se mantenha dessa forma pra continuar ganhando. E essa gente é muito poderosa, a gente sabe quem é, onde está. Não temos a pretensão de transformar uma realidade, porque estamos falando de algo gigantesco, mas ficamos felizes de pensar que alguns filmes sobre a violência no México, na Colômbia e no Brasil já foram feitos, mas um documentário que costure essas histórias e essa região e possa fazer essas perguntas juntas, não. 
 

Três perguntas/ Pedro Asbeg 

 

Você diz que a situação extrema vivenciada pela equipe do filme foi a do México, com os grupos de autodefesa que expulsam bandidos e estado. A gente caminha pra isso?

Não tenho dúvida. Seja porque a entrada de armas no Brasil segue aumentando e a gente segue acreditando que se combate violência com mais violência, seja porque há grupos que ganham dinheiro com a violência, então isso não vai parar. Tem a questão do pensamento (sobre armas) e questão econômica e as duas estão caminhando juntas, principalmente porque boa parte da população está comprando uma ideia que, a meu ver, não só é falsa, como vai alimentar mais (a violência). Acredito que a tendência para o Brasil é que isso não só se mantenha, mas que aumente.

 

O filme tem um ponto de vista político?

O filme é todo contado pelos nossos personagens. A gente tentou participar o mínimo possível da construção e colocar nosso próprio pensamento. Está tudo na boca, nos gestos e nos pensamentos dos personagens. Agora, é inevitável fazer um filme que trata da violência na América Latina e não acreditar que está falando também da política, seja da política interna de cada país, seja da política externa de como todos esses países e outros da América Latina são afetados pelos Estados Unidos. O filme pode ser visto como um filme político, mas não foi uma coisa específica de a gente pensar “vamos fazer um filme político”. A gente quer fazer um filme aguerrido, um filme que levante todas essas questões.

 

O fato de ser exibido nesse momento que estamos vivendo torna o filme mais político ainda? 

A gente está vivendo um tempo tão turbulento que não sei se o América armada ser exibido agora ou no ano passado ou no ano tem tanta diferença. Estamos vivendo uma época muito mais longa que essa nossa turbulência enquanto país, enquanto região latino-americana. Agora, claro que ter a chance de levantar esses assuntos em Brasília, em um festival naturalmente político, que promove o debate, e tão próximo das eleições é um presente. Mas acho que, infelizmente, estamos em um caos de mais tempo. 

 
 
 
 
 

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