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Correio Braziliense

Produtores de cinema encaram boa fase, com exposição até no exterior

Pouco compreendida pelo público, a função de produtor de cinema segue em expansão. Brasília exporta talentos que integram filmes de projeção nacional, capitaneados por talentos de peso internacional


postado em 06/10/2018 07:45 / atualizado em 05/10/2018 16:35

Rodrigo Teixeira teve 46 longas produzidos, em 10 anos de atividade(foto: Barbara Cabral / D.A. Press)
Rodrigo Teixeira teve 46 longas produzidos, em 10 anos de atividade (foto: Barbara Cabral / D.A. Press)

Uma leva de futuros projetos de cinema chegará às telas, sob a produção de Rodrigo Teixeira, que esteve recentemente em Brasília, cidade que o conecta a dois longas (Alemão e O gorila) assinados pelo diretor local José Eduardo Belmonte. Ao lado do filme O cheiro do ralo, Alemão foi dos poucos projetos nacionais a renderem dinheiro ao produtor — que carrega invejável carga de 46 filmes, em apenas 10 anos de profissão. “No Brasil, nós, produtores, trabalhamos mais por amor: fui remunerado em poucos filmes. Aqui, banco meus títulos, enquanto nos Estados Unidos financio ou faço acordo com estúdio”, explica Teixeira, em torno da engenhosa atividade de produção.
 
Para exercício da profissão, Rodrigo Teixeira segue uma norma: se assume completamente cinéfilo. “A primeira regra para um produtor é ele gostar do que faz. Minimamente, deve assistir a filmes e cultivar um campo de referências. Estudar e ler muito — casar cinema com conhecimento de literatura”, explica o produtor. Organizar set, tecer estratégias de lançamento de filmes e se envolver com histórias narradas são requisitos mínimos a serem cumpridos. “Produtor deve saber liderar um time: ouvir e administrar pessoas. Eu, por exemplo, faço um cinema de produtor que dialoga com o cinema de diretor: não faço filmes em que seja mero contratado”, comenta o produtor, associado a filmes como o badalado Me chame pelo seu nome.
 
Uma cartela de filmes estrangeiros, em curso, atestam a boa fase da carreira do produtor. Com a intenção de filmar Alemão 2 (em que contará novamente com o brasiliense Belmonte), Teixeira adianta que Ad Astra, um filme sobre astronauta, assinado por James Gray e estrelado por Brad Pitt, está em finalização, bem como o novo filme de Karim Aïnouz, Vida invisível, estrelado por Fernanda Montenegro. Nova parceria com o diretor Robert Eggers (de A bruxa) foi firmada, com o longa O farol gravado em abril passado. Uma trinca de diretoras também assina filmes com a grife de Rodrigo Teixeira: Crystal Moselle (Skate kitchen) e a chilena Domingas Sotomayor Castillo (Tarde para morrer jovem) apresentarão filmes na 42ª Mostra de SP, enquanto Mia Hansen-Love filma Bergman Island para 2019.
 
A carreira de Rodrigo Teixeira foi escalonada, até ele pavimentar o êxito atual de produzir ao lado do papa do cinema Martin Scorsese. Com o famoso diretor de Touro indomável, decide elementos de um dos futuros longas: Port authority, assinado pela estreante Danielle Lessovitz. “Tenho contato direto com Scorsese. A gente tem, em conjunto, uma joint venture (aliança entre empresas). Conheço e vou nos sets dele — Scorsese opina na montagem de alguns filmes meus. Não posso dizer que sou amigo dele, mas fazemos parte de um grupo, numa relação muito boa”, explica.

Primeiros passos

Noutra ponta de produtividade, se comparada ao experiente Teixeira, ainda iniciante, a estudante de publicidade da UnB Evelyn Santos, 20 anos, vem apostando em projetos bem independentes, caso do curta Sinucando, selecionado para a recente Mostra Brasília. Dirigido pelo colega Rafael Stadniki, Evelyn, por exemplo, vendeu dindim na Universidade de Brasília, para arrecadar os R$ 120 gastos em gasolina
e na comida dos universitários. Em Sinucando, calouros encaram rito de passagem na universidade. 
 
Com leveza e atenção, Evelyn parece encarar quesitos burocráticos e administrativos demandados pela produção. “O produtor tira o roteiro do papel e traz um projeto de cinema para a realidade. Ele trabalha com locais para as cenas, com orçamentos, com a produção de objetos e uso de equipamentos, além de obter autorizações para filmagens”, explica a estudante, interessada em campos diversos entre os quais, criar produções publicitárias. Já no sexto semestre do curso de comunicação, Evelyn tem no currículo feitos importantes no audiovisual. Em junho de 2018, ela esteve representando o Brasil, com a websérie Arena, trabalho que rendeu passagem pelo Festival de Melbourne (Austrália).
 
Larissa Rolim: nome em alta, na produção de filmes do DF(foto: Arquivo pessoal / Divulgação)
Larissa Rolim: nome em alta, na produção de filmes do DF (foto: Arquivo pessoal / Divulgação)
 

Muita produtividade

Depois de 16 anos encampando a produção de inúmeros filmes locais, Larissa Rolim viu não apenas vários produtos audiovisuais emplacarem no recente Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, entre os quais Marés, Casa de praia e Riscados pela memória, mas, durante o evento, Larissa encabeçou a oficina formativa sobre produção executiva. Diretora de produção de filmes premiados como New Life S.A. (produzido por Alisson Machado), Larissa conta de parte da rotina, à frente da produtora Gancho de Nuvem. “Coordeno todos os departamentos com a produção executiva para que o roteiro seja realizado, tomo parte de detalhamento da verba e da prestação de contas. Grosso modo, aplicamos da melhor maneira possível as verbas. Os diretores querem que o orçamento chegue no roteiro. Mas é o roteiro que tem que chegar no orçamento”, opina Larissa, que é formada em publicidade pelo Iesb.
 
Uma das ênfases da profissional está em entender da máquina do audiovisual, desprezando a postura de “mera resolvedora de problemas no set”. Na recente leva de filmes que ajudou a capitanear, quase R$ 2,8 milhões de orçamento foram geridos. “A gente é uma ferramenta que fomenta a cultura local. Temos incentivo público para estimular o cinema: não é um dinheiro nosso”, enfatiza Larissa Rolim. Entre os projetos vindouros de Larissa está a coprodução com a Globo Filmes de um especial de Natal, sob direção de Gui Campos (do curta Rosinha) e o longa Capitão Astúcia, criação de Érico Cazarré, com farta intervenção de efeitos especiais.
 
Marcus Ligocki recorreu a estudos fora da cidade(foto: Arquivo pessoal/ Divulgação)
Marcus Ligocki recorreu a estudos fora da cidade (foto: Arquivo pessoal/ Divulgação)
 
 
Aprendizado sólido

O planejamento do lançamento de uma obra de cinema e o entendimento de saber por onde vai trilhar, em termos de público, são atribuições de um bom produtor, na opinião de Marcus Ligocki. Em 2003, ele deixou a cidade, rumo ao aprendizado na FGV, na busca de melhor formação executiva voltada ao cinema e à tevê. “Busquei conhecimento da legislação estabelecida e modelos de distribuição, tendo, entre os professores, executivos. Almejo, numa carreira escalonada, chegar a um filme de ficção, com entretenimento para o mercado internacional. É uma construção: financiamento e distribuição de um filme, na minha percepção, passa pelo grupo de talentos escolhido”, observa Marcus Ligocki, diretor da comédia Uma loucura de mulher.
 
Diversificar tem sido uma constante no empenho dele, como produtor. Percepção de potencial e planejamento, porém, nunca deixam de ser palavra de ordem. Caso de sucesso veio com o documentário Rock Brasília — Era de ouro. “Foi um projeto com o nome nacionalmente forte de Renato Russo (retratado) e ainda teve o Vladimir Carvalho dirigindo, ele que é um grande nome do cinema. Foi oportunidade ímpar ter ícones de Brasília compondo um filme. Articulamos uma trilha sonora paralela, e diferenciada, a fim de expandir o impacto da obra nos cinemas”, enfatiza. 


Boa maré

“O bom produtor viabiliza a produção, mantendo a saúde financeira do projeto. Busco proximidade com o diretor, que é quem carrega a disposição criativa do projeto. O produtor tem que dar segurança ao diretor”, explica o produtor João Paulo Procópio, que assinou também a direção de projetos como o longa Marés. Na estruturação do audiovisual da cidade, ele alerta para o poder das parcerias e para a boa fase das criações locais, “dada a política pública e as leis da tevê a cabo que abriram o mercado para a produção independente”. Nisso vê a produção como uma profissão bem promissora.
 
“Comecei a produzir, por necessidade. É difícil encontrar a mão de obra, em Brasília. A agenda das filmagens, geralmente, é apertada. Com produção, se vive bem, pela possibilidade de se fazer o que se gosta. O DF está muito claramente privilegiado, pela secretaria de cultura estruturada com olhar diferenciado para a produção local”, comenta Procópio. Morando provisoriamente em Maceió (Alagoas), ele seguiu para potencializar coproduções (via Fundo Setorial), com arranjos regionais para cinema, para otimizar a “produção urgente” visualizada por lá. Preparado para minimizar imprevistos e dar condições de aprimoramento nos improvisos de diretores, Procópio, desde já, conta 
que pretende voltar para Brasília.

Abrindo caminhos

“O produtor viabiliza ideias do roteirista e do diretor de um filme, convocando e criando uma rede coletiva de talentos. Na plataforma financeira, o produtor capta recurso e estuda remunerações, além de concatenar as partes criativas envolvidas”, observa Santiago Dellape, cineasta atuante há 15 anos em Brasília. No modo de produção vigente, há oito anos, quando criou o curta Ratão (vencedor de Kikito, pelo júri popular, em Gramado), era difícil não se envolver nos bastidores, dado caráteres de baixo orçamento e de filme independente atrelados.
 
“Mais por necessidade do que por anseio, me autointitulei produtor. Era uma área muito subvalorizada. Recentemente, com meu longa (A repartição do tempo), talvez tenha sido até mais feliz na produção: ter feito uma ficção científica, na cidade, é uma insanidade. Com o filme, tivemos a demonstração da possibilidade de cinema de gênero que parecia intangível para Brasília”, comemora Dellape, formado pela UnB em audiovisual e jornalismo. 
 

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