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Correio Braziliense

Conheça o livro 'O mestre e Margarida', de Mikhail Bulgákov

O mestre e a Margarida, obra-prima do russo Mikhail Bulgákov, é um sátira demolidora à degradação dos intelectuais russos sob o regime autoritário


postado em 06/10/2018 07:19

Bulgákov: história de um homem que luta para levar adiante a arte literária (foto: IMDB/Reprodução)
Bulgákov: história de um homem que luta para levar adiante a arte literária (foto: IMDB/Reprodução)

 

Considerado uma sátira devastadora da situação — de indigência material e de sofrimento ou aviltamento moral — em que viviam os artistas e intelectuais russos nos primeiros decênios após a revolução comunista de 1917, O mestre e a Margarida, de Mikhail Bulgákov (1891-1940), é muito mais que isso. É também uma belíssima história de amor entre um homem que luta num ambiente adverso para levar adiante sua arte literária e uma mulher que o ampara decididamente.

 

Esses dois são o mestre e Margarida, do título. Mas o romance traz ainda uma novela sobre o último dia de Cristo, em quatro capítulos magníficos, sendo que o primeiro é centrado nas indagações éticas e espirituais do quinto procurador da Judeia, o cavaleiro Pôncio Pilatos. Quem narra esse capítulo? Ninguém menos que Satanás.

 

Encarnado na figura do Professor Woland, mestre em magia negra, o Diabo é dos principais personagens (se não o principal, a depender das inclinações do leitor), pois ao final reunirá os amantes e recuperará o livro queimado pelo escritor num momento de desespero.

 

Diz, em certa passagem, o mestre: “Tirei da gaveta da mesa os pesados manuscritos do romance e cadernos de rascunho e comecei a queimá-los. Isso é terrivelmente difícil de fazer, pois o papel escrito arde a contragosto”.

 

Protagonistas de diálogos desconcertantes, quase sempre hilários, os secretários do Coisa Ruim são três: o falastrão Korôviev, o sanguinário gato Behemot e Azazello, o ruivo baixinho que tem um canino que se projeta para fora de sua boca.

 

Milagres

 

Uma das cenas centrais é aquela em Woland toma o palco do Teatro de Variedades de Moscou e realiza meia dúzia de milagres, alguns dos quais embaraçosos para a época e para o País. Há uma chuva de cédulas de dez rublos sobre a platéia — que, embora composta por um tipo de homem nunca visto, mais ético, solidário e altruísta, o homo sovieticus — enlouquece diante do vil metal.

 

Igualmente constrangedor é o momento em que as senhoras da platéia se deixam vencer por uma espécie de shopping — com vestidos belíssimos, sapatos elegantes, bolsas caras e perfumes famosos — montado no palco e se despem de seus modestos trajes e adereços. Satã parece querer demonstrar ali que a revolução proletária não havia extirpado, como se imaginava, a cupidez e a futilidade burguesas.

 

A diabólica exibição do artista infernal, em uma casa de espetáculos no centro de Moscou, movimenta as engrenagens do aparato policial. É preciso entender e punir aquela desvairada sequência de aparentes milagres. Os principais suspeitos, claro, são os burocratas que comandam o teatro.

 

Os investigadores, porém, nada conseguem descobrir com eles, já que estão abilolados depois de terem sido visitados pelo Demo e seus capangas ou sumiram do mapa. Um desses burocratas é transportado em fração de segundos para Ialta, cidade a mais de mil quilômetros de Moscou, na mesma Crimeia encampada na mão grande, em 2014, pelo Czar Vladimir I.

 

Apesar de sua inexcedível capacidade de descobrir e punir toda e qualquer maquinação contra o poder soviético, graças ao emprego de técnicas eficientes (como o jamais aposentado uso do envenenamento), a polícia do Estado terá de construir uma narrativa aceitável para fatos assombrosos. Ou, como diz o narrador, “inventar explicações ordinárias para fatos extra-ordinários”.

 

As situações que antecedem e sucedem a satânica sessão teatral são delirantes. Aliás, o ritmo do livro — de 400 páginas exatas, talvez 150 mil palavras - é frenético, alucinante. Só há uma pausa, uma narrativa mais lenta, que é a descrição de um feérico baile promovido pelo Capeta. Aliás, diz-se que Bulgákov teria se inspirado em uma faustosa recepção na embaixada americana em Moscou, nos anos 1930, para criá-lo.

 

Os dados biográficos do mestre coincidem com os de Mikahil Afanássiévitch Bulgákov em incontáveis aspectos. Inclusive na tendência à piromania. Uma das mais marcantes coincidências é que ambos desejavam desesperadamente — em uma cidade em que as acomodações eram conseguidas mediante favores dos prepostos do Estado ou por mera delação de colegas — um lugarzinho para escrever. Para alguns críticos, o centro do livro seria essa busca desesperada por um teto, maior pesadelo dos russos durante décadas de penúria. Mas obviamente faz mais sentido pensar na hipótese de uma gozação mais ampla sobre o mundo literário/poético/dramatúrgico moscovita.

 

Os burocratas do Teatro de Variedades foram construídos sobre figuras de carne e osso, sujeitos que, por anos a fio, censuraram as peças de Bulgákov, eliminando personagens, suprimindo as referências mais sarcásticas ou sugerindo emendas para que seus textos corrosivos se adequassem ao “realismo socialista”, a fantástica categoria estética estabelecida pela insurreição que viera para varrer do mundo o capitalismo.

 

O mais censurado

Bulgákov foi o mais famoso dramaturgo dos anos pós-revolução, e o mais censurado também. Algumas de suas peças obtiveram sucessos estrondosos, antes do banimento. Banimento determinado não tanto pela censura do Estado, mas principalmente pela campanha de jornalistas e críticos que policiavam os que não se submetiam às exigências do cânone artístico comunista. “A lamacenta cloaca jornalística exclusivamente soviética”, como a definiu o escritor, jamais perdoou um homem que havia lutado, em Kiev, sua cidade de origem, ao lado dos Brancos contra o Exército Vermelho.

 

Pela sua formação intelectual, pela sua fina ironia, pela sua vasta erudição, pela sua natureza avessa ao servilismo, em suma, por sua incapacidade de bajular, o autor de O mestre e a Margarida foi massacrado pela mídia permitida na época, tachado de neoburguês e de inimigo do povo. Amargou ostracismo e miséria.

 

Ao lado de Vida e destino, de Vassili Grosmann, O mestre a Margarida é um dos maiores romances produzidos na era soviética. Esses dois livros — que no Brasil tiveram excelente tradução de Irineu Franco Perpétuo — foram publicados após a morte de seus autores. A primeira edição russa, sem cortes, de O mestre e a Margarida só ocorreu em 1973.

 

Mikahil Bulgákov faleceu aos 48 anos em decorrência da mesma doença renal crônica que vitimara seu pai. Foi um dos poucos grandes autores de sua geração que não morreu a tiros diante de um pelotão de fuzilamento ou de fome num campo de concentração siberiano. Nunca foi preso nem torturado. O máximo que enfrentou foi a apreensão em sua casa de um original.

 

Bulgákov conhecia muito bem o meio teatral de Moscou porque o frequentou por mais de uma década. Criou alguns dos maiores sucessos dramatúrgicos pós-revolucionários. Um deles foi Os dias dos Turbin, peça sobre os últimos dias do Exército Branco, que o próprio Stalin teria assistido inúmeras vezes.

 
Negociações com o ditador

 

Há um episódio curioso entre Bulgákov e o Guia Genial dos Povos. Desesperado por não conseguir levar ao palco suas peças, o escritor enviou uma carta ao ditador, na qual pedia para ser liberado a fim de viajar ao exterior, já que, ficando na Rússia, sem trabalho, morreria de fome. Caso lhe fosse negado o visto, solicitava um bico em um teatro do Estado. Acabou levando o empreguinho. Seria porque Stalin gostava de Os dias dos Turbin? Talvez. Mas há quem diga que Stálin lhe arranjou a mamata porque estaria preocupado com o suicídio, dias antes, daquele que ele nomearia o Poeta Oficial da Revolução, Vladímir Vladimiróvitch Maiákovski.

 

Apesar do trampo oficial, Bulgákov continuou enfrentado dificuldades para encenar seus espetáculos. Não tinha um passado de indigência que lhe permitisse apresentar-se como filho do povo. Nascera em uma família de alta classe média, com pai professor e mãe culta. Alegre, brincalhão, como descreviam os amigos, para ele era impossível não satirizar o ridículo — que se erguia por trás do horror — do seu tempo.

 

Há uma cena descrita no livro O diabo solto em Moscou, publicado em 2002 pela Edusp, que bem demonstra a incapacidade bulgakoviana de adaptar-se às exigências estéticas do socialismo.

 

Em uma reunião literária, um crítico generoso e bem-intencionado lia obras de jovens autores de cidades do interior da Rússia. De repente, Bulgákov pega um desses volumes. Pouco depois, pede para ler um trecho. Lê então a história de dois jovens operários — um rapaz e uma moça — que estão deitados, abraçados, escondidos em uma moita. Fazendo o quê? Cochichavam sobre... a Revolução Mundial. De repente, a moca começa a cantar. Um hino de amor? Não. Ela cantarola a Internacional. As pessoas da sala caem na risada.

 

Sabendo-se de casos como esse, realmente fica difícil compreender por que Bulgákov nunca foi convidado a passar um tempinho na Sibéria.

 

 

O mestre e Margarida

De Mikhail Bulgákov (ed. 34). 400 páginas/ tradução de Irineu Franco Perpetuo

  

 

 

 

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