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Correio Braziliense

Cineastas e produtoras de Brasília falam sobre os efeitos do #MeToo

Mulheres que trabalham com cinema notam que a luta contra p machismo teve muitos avanços na profissão


postado em 06/10/2018 07:10

Ashley Judd, na festa do Oscar no começo de 2018. Atriz foi uma das primeiras a irem a público denunciar comportamento ofensivo de Weinstein, em outubro do ano passado(foto: Christopher Polk/Getty Images/AFP)
Ashley Judd, na festa do Oscar no começo de 2018. Atriz foi uma das primeiras a irem a público denunciar comportamento ofensivo de Weinstein, em outubro do ano passado (foto: Christopher Polk/Getty Images/AFP)

 

Em 2017, mais especificamente em 5 de outubro, o jornal norte-americano The New York Times levou a público a acusação de assédio contra uma das maiores figuras da indústria audiovisual dos Estados Unidos. O produtor Harvey Weinstein, de acordo com testemunhos das atrizes Rose McGowan e Ashley Judd, era apontado com um “predador” e, como resultado, durou pouco tempo à frente da companhia que levava o nome da família. 

 

Após Weinstein, outros nomes de peso também foram apontados e perderam cargos, levando a uma pergunta incontornável: afinal, quais foram as principais consequências dessa “onda” antiassédio levantada por Hollywood?

 

O movimento #MeToo não é algo novo. Apesar da repercussão ter sido maior no ano passado, a ativista feminista Tarana Burke usava o termo para o empoderamento de jovens negras em 1996. 


Debate como arma

 

Cibele Amaral é uma das diretoras da Aprocine (Associação de Produtores e Realizadores de Filmes de Longa Metragem de Brasília) e recentemente ajudou a estruturar o coletivo Cora DF. O grupo envolve mulheres que trabalham na realização audiovisual da capital e, de acordo com a cineasta, o #MeToo apresentou um novo panorama para as mulheres do meio. “Eu percebo essa mudança em mim mesma, eu me organizo melhor como mulher, fico ligada ao assunto. A gente tem ficado mais atenta. Coisas que a gente deixava para lá, uma naturalização do machismo, não é mais natural, agora olhamos para o machismo como uma porta para diversos problemas como feminicídio, desigualdade”, argumenta Cibele.

 

De acordo com Adriana Vasconcelos, cineasta e produtora da capital, as consequências do movimento #MeToo ainda são difíceis de se enxergar, mas existem como uma porta aberta a menor ameaça à vida das mulheres: “É difícil apontar os efeitos de fato, mas eu posso dizer que desperta um efeito de olhar muito importante. Só de discutir o tema, falar sobre ele, perceber, já é um resultado, um efeito salutar. Ainda é muito precoce para procurar resultados empíricos. Agora, só o fato de colocar isso em pauta é muito importante, o que aconteceu foi uma evidenciação, colocou-se na luz o tema. Agora existe um olhar maior, os homens já estão mais atentos, tanto os que poderiam assediar; quanto os que não tenham essa postura”.

 

Categórica, Vasconcelos, ao ser questionada sobre a validade do movimento fora de Hollywood, ainda faz questão de lembrar o quanto a luta contra o assédio não se resume ao contexto norte-americano, e tem fundamental papel de importância também no Brasil: “Acho que o movimento se expandiu para fora dos Estados Unidos, até porque o cinema de la é muito forte aqui, o movimento acabou despertando uma conversa em vários países. A grande dificuldade que eu achei no cinema é ser mulher, é difícil ver a mulher como realizadora de ficção, de longa-metragem, é até difícil pensar em nomes para te falar. O universo da ficção é muito restrito aos homens, e importante lembrar que não teve reflexos só no Brasil, foi no mundo inteiro. Acho que as mulheres estão se sentido mais protegidas sabendo do assunto”.


Denúncias

 

Tânia Montero, professora do Departamento de Audiovisual da Universidade de Brasília (UnB), e outra participante do Cora DF, pondera sobre o caráter do movimento. Segundo Tânia, é fundamental manter em mente o viés de denúncia que fez fama ao #MeToo, assim como celebrar os avanços. “A gente vem lutando para que o audiovisual tenha maior penetração de mulheres, e inegável que isso vem surtindo efeito. Já tivemos coletivos de mulheres, as realizadoras já estão trabalhando com o tema. Apesar de ser um movimento denuncista, o que pode ser perigoso, é preciso tomar cuidado, pois podem afetar biografias, e eu, como acadêmica, faço questão de que isso fique bem claro. Mas, apesar do denuncismo, acho que o movimento serve como alerta para que os homens não ajam dessa forma, e que as mulheres não deem todo esse poder ao masculino”, avalia.

 

Entretanto, por mais poderoso que seja, é importante ponderar que o movimento #MeToo ainda não acabou com o assédio em Hollywood. No começo de agosto deste ano, Leslie Moonves, um dos diretores do canal CBS, foi acusado de assédio por seis mulheres. Diferente das acusações contra Weinstein ou Bill Cosby, e longe do último outubro, Moonves continua intocado no comando da emissora. “A presença da mulher é uma luta constante. Precisa ser buscada todo dia. Mudar completamente não é fácil, é um processo longo”, aponta Cibele Amaral.

 

* Estagiário sob a supervisão de Vinicius Nader

 

 

 

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