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Correio Braziliense

Poder dos fãs faz o presidente da Disney criar novos produtos de Star Wars

Graças à existência de uma imensa literatura em um universo expandido é curioso notar como os fãs têm a possibilidade de emular a rebelião e escolher as próprias versões para o destino dos personagens


postado em 07/10/2018 07:00

Luke Skywalker, vivido por Mark Hamill, ainda é o DNA da saga(foto: Reprodução/Internet)
Luke Skywalker, vivido por Mark Hamill, ainda é o DNA da saga (foto: Reprodução/Internet)


Recentemente, o presidente da Disney, Bob Iger, surpreendeu ao anunciar que o lançamento de novos produtos da marca Star wars estava sendo repensado. É fato que a controvérsia causada pelo Episódio VIII — Os Últimos Jedi foi grande e, especula-se, que afetou na fraca recepção ao filme Han Solo: Uma história Star Wars, focado na juventude de um dos personagens mais queridos da franquia. JJ Abrams, diretor de O despertar da força, está de volta para o Episódio IX e trará personagens clássicos como Lando Calrissian (Billy Dee Williams) e a Princesa Leia, aproveitando material inédito com Carrie Fisher, que faleceu em 2016.

George Lucas criou Star wars como uma mitologia moderna focando no destino dos Skywalker e as repercussões de eventos intimistas em eventos “cósmicos”. Para contar essa história, criou um vasto universo e personagens explorados em várias mídias, ainda que o pilar sempre tenha sido os personagens clássicos e, claro, a família Skywalker.

Se a primeira empreitada da Disney com o selo Star wars — O despertar da Força funcionou como um afinado filme-tributo revigorando a franquia, os Últimos jedi estabeleceu um abismo entre crítica e público, o que foi realçado por fãs que cresceram com a saga e se sentem cocriadores deste universo.

Um êxito de o Despertar da Força em 2015 foi investir em nostalgia — mostrando o destino de personagens clássicos e, ao mesmo tempo, apresentando novos. Ao longo do filme, Luke Skywalker foi citado por mais de 30 vezes e surgiu em um catártico epílogo — um dos maiores ganchos do cinema. As especulações do que teria acontecido com ele seguiram por dois anos — estaria o mítico personagem em exílio em busca de conhecimento para decifrar as raízes de sua família ou para entender os segredos do lado sombrio? Teria ele se afastado para evitar que sua presença promovesse uma escalada do conflito?

Nenhum destes temas foi respondido por Rian Johnson, diretor e roteirista do Episódio VIII e o desencanto de muitos fãs reverberou. Se o Despertar da Força abraçou o futuro, sem descaracterizar o personagens que estiveram no imaginário de gerações, os Últimos Jedi relativizou aspectos clássicos que definiram a saga. Enquanto parte da crítica celebrou o tom independente do Episodio VIII, para alguns o filme funcionou, mas como uma versão alternativa, motivando em casos extremos até abaixo-assinados para que a produção não faça parte do canon (cronologia oficial) da saga.

É verdade que os personagens da nova trilogia continuaram uma tradição positiva de abraçar a diversidade e ganharam protagonismo no Episodio VIII. Porém, sem a mesma gravidade. Poe Dameron (Oscar Isaac), apesar de ser um personagem promissor, não é decisivo e inspirador. O vilão maior —  Snoke, que criara expectativa e ensaiava trazer uma nova forma de ameaça — virou um personagem descartável. Já Rey (Daisy Ridley), que encarnava o despertar do título no Episodio VII, sendo uma bem-vinda encarnação contemporânea de heroína, não ostenta o carisma do filme anterior, além de ter momentos controversos que abalaram sua reputação junto aos fãs.


Luke Skywalker


O grande mérito e paradoxalmente o ponto mais crítico do Episodio VIII é o retorno de Luke Skywalker, vivido por Mark Hamill, ator no auge de sua forma e em grande interpretação, mas que tem que dar a vida a uma versão controversa daquele que é o herói máximo da saga e um dos personagens mais queridos da cultura pop. Ao final, para muitos fãs prevaleceu uma sensação amarga e, conquanto goze do status de lenda, a trajetória do herói foi vista como utilitarista. O alento é que a despedida do personagem acontece nos seus termos.

Por mais que exista valor em romper com pressupostos narrativos, uma das marcas de Star Wars sempre foi a capacidade de ser uma história “familiar” que propositalmente é capaz de catalisar e repetir temáticas universais em uma espiral narrativa que se inspira em contos antigos e diferentes culturas. A questão tácita no Episodio VIII é que para substituir um mito é preciso cuidado e usar experimentalismos em arquétipos cristalizados nem sempre funciona.

Alivia saber que, assim como em narrativas mitológicas, não há apenas um caminho para Star wars. Graças à existência de uma imensa literatura em um universo expandido é curioso notar como os fãs têm a possibilidade de emular a rebelião e escolher as próprias versões para o destino dos personagens.
 
 
 

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