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Correio Braziliense

Diretor de 'O outro lado da memória' conversa com o Correio sobre cinema

No cinema, André Luiz busca uma reparação e dá dose de satisfação a demandas da cultura negra no Brasil


postado em 07/10/2018 06:40

"Venho de uma classe média para alta da Bahia: negros e brancos eram separados. O país todo é racista. A verdade é que eu, branco, sempre me senti do outro lado" (foto: Oswaldo Reis/Esp. CB/D.A Press - 13/10/14 )


Aos 70 anos, o diretor de cinema e músico André Luiz Oliveira não mente: anda fraquejado pela “preguiça baiana” de investir tempo nas filmagens. “Histórias, eu tenho; se pudesse, pedia era para o Caetano (Veloso, velho amigo dele) dirigir”, brinca. Ainda que relute em engrossar o exército de “marionetes que batalham, uma vida, no mercado de trabalho”, volta e meia, André Luiz deixa o relativo isolamento no Núcleo Rural Córrego do Urubu, e se aventura em capitanear um filme. Derivado do projeto abortado de adaptar para o cinema Viva o povo brasileiro (de João Ubaldo Ribeiro), o mais recente filme dele (O outro lado da memória), no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, foi coroado com quatro prêmios na Mostra Brasília, além de outros dois prêmios alternativos.

Pavimentando a vontade de se tornar “um velho bacana”, André enfrentou o “turbilhão de burocracia” criado pela produção de um filme para dar vazão a um longa “oportuno”. “Na saída do cinema, escutei coisas como ‘Cara, saí com outro Brasil dentro de mim!’”, celebra ele que, na narrativa de O outro lado da memória, aponta para fatores do racismo, além de deixar emergir traços “religiosos e da contracultura” que o aproximam de pares como o amigo Gilberto Gil.

No cinema, André Luiz busca uma reparação e dá dose de satisfação a demandas da cultura negra no Brasil. Na toada de filmes, como Sagrado segredo, de Louco por cinema e do irreverente Meteorango Kid, O outro lado da memória contesta mero crescimento econômico imposto ao Brasil e ao resto do mundo, coisa que tanto incomoda o artista. “Nações crescem e vão para o buraco! A essência está em se conhecer e se ter reconhecimento de identidade”, alerta.


Há enganos na visão de quem sejam os brasileiros?
Muito antes dos anos 1980, quando eu nem idealizava o filme, o João Ubaldo Ribeiro, numa leva de outros pensadores, já havia se debruçado sobre isso: desconfiam da nossa formação de brasileiro enquanto população. João Ubaldo trouxe o tema de forma mais criativa e aprofundada, ampliando o que havia sido inscrito com o Casa-Grande & Senzala (de Gilberto Freyre). Ele olhou a nossa formação, a partir do ponto de vista da senzala. Fomos iludidos, na forma de assimilar a história de formação do nosso povo. Ubaldo, apesar de ser da classe alta, tinha o sentimento popular de conviver com as pessoas, andava de alpercata e tal. O Glauber Rocha foi dos outros que também externou essa leitura de Brasil.


Por que a motivação de tentar adaptar a obra para cinema? 
Fiquei impactado com a visão de riqueza do povo negro que formou o Brasil. Não prevalecia a visão de fora: tipo A moreninha (de Joaquim Manuel de Macedo) ou de pai-joão e demais estereótipos que ensinaram para a gente, via escola e tevê. O tema do longa O outro lado da memória está atualizado, por existir dentro de nós. Queria com o projeto do filme que as pessoas vissem o que elas sentem: há elementos da nossa cultura que não estão estabelecidos por causa de um véu — há o verniz do que seja o brasileiro —, com isso, o país segue patinando. Vai disso a falta de unidade, a falta de identificação com o povo. O Brasil é feito de três raças, sem contar a constituição periférica dos imigrantes do pós-guerra: somos índios, somos negros africanos e brancos portugueses.


Há reparações necessárias quando se analisa a conjuntura?
A gente tem que compreender que a cultura africana é fundamental. Temos que assumir e buscar os meios para reparações. O sistema de cotas é uma forma de inclusão. Há, sim, uma negação de cultura e que está implantada no país. Temos que entender quem somos: não somos inteiramente brancos e europeus como a elite social brasileira acha. Não faço apologia da democracia racial — queria que as pessoas se vissem enquanto cidadãos. Somos mestiços e negroides — esta é a preponderância do povo brasileiro. Somos assim. No inglês, o livro do João chama Invencível memória. Nossa memória deveria ser muito maior do que pensamos como povo. A gente teve uma semente de cultura, nos porões dos navios negreiros e nos indígenas, que nos foi negada. O Brasil é riquíssimo, e arrastamos o complexo de vira-lata, de inferioridade, pela visão eurocêntrica: fomos puxados para a cultura de shopping, de América do Norte — uma coisa imbecil que nos foi implantada no DNA.


Você tem um histórico de ser multicultural e múltiplo nas expressões das artes. Como pretende expandir isso?
Ainda vou tratar, no cinema, da nossa inclinação cultural e espiritual com a influência indiana, trazida dos portugueses que vieram da Índia. É um projeto que veio pelos meus estudos de música indiana. Chamará Índia-Brasil — Um sonho distante, uma presença sutil. Toda a colonização brasileira teve uma pré-produção feita em Goa e Kerala (na Índia). Com a leitura de Os navegantes e o sonho,  Victor Leonardi levantou muitos dados. Como o brasileiro pode se conhecer na sua totalidade sem saber que quem trouxe o boi, as frutas como banana e abacaxi que vieram da Índia?! Uma língua falada em Goa, antigamente, era ouvida nas ladeiras de Salvador! Tinham quatro hindus na esquadra de Cabral — não existia um negro. Aqui não existia cana-de-açúcar, que revolucionou todo um ciclo da nossa história. 


O personagem Lula, do clássico Meteorango Kid: Herói intergaláctico, ainda reverbera nos dias de hoje?
O filme é polêmico, é devastador. Passo maus bocados, quando lembro de elementos do filme. Tive muitas horas de divã, para suportar o peso deste filme, criado quando eu tinha 21 anos. Até hoje é obra que reverbera. 


Que momento vivemos no país? As perspectivas podem não ser das melhores, não?
É assustador. Vejo como a maioria das pessoas conscientes no Brasil: estou assistindo a um filme de horror. Acordamos e dormimos aflitos com o que virá. O abismo pode estar se aproximando e é assustador. Estamos no imprevisível: e coisas ruins podem vir. A professora Eneida Leal Cunha, num trecho do meu filme diz: ‘Este é o Brasil que a gente não quer ver, ainda que ele (o país da elite) sempre estivesse aqui, desde a Colônia’. 


O Brasil cultiva o racismo? E como nota que o cinema refuta isso?
Venho de uma classe média para alta da Bahia: negros e brancos eram separados. O país todo é racista. A verdade é que eu, branco, sempre me senti do outro lado. Tenho muito orgulho do meu avô ter me contado que minha bisavó era mulatona. O cinema estava explodindo: a galera tá chegando com uma força tremenda. É preciso uma visão de que qualquer tipo de revanchismo acaba criando maiores dificuldades de integração. A galera tem que assumir espaços. Nisso vem a questão das mulheres. Mulheres negras e negros são o Brasil. Quero incluir a cultura negra no cinema, sem acirramento. No Brasil, há quem esteja numa prisão.


Me dói muito ver a discriminação. Você está mais maduro, aos 70 anos (risos)? Na arte e na vida, o que prioriza?
Não tenho muita cultura cinematográfica. Conheço o que me impacta emocionalmente. Eu só faço filmes, de dentro para fora. As coisas mexem comigo, começo a rabiscar — fiquei 30 anos musicando Fernando Pessoa. É um absurdo (risos). Tento me livrar e começo a conectar com todos os cantos da minha vida. Vivo a dualidade, com o êxtase de estar vivo — sobrevivi a muitas coisas: estive em coma, tomei tudo que foi droga que se possa imaginar, na década de 1970. Eu estar vivo é maravilhoso. Mas, às vezes, entro em conflitos de adolescente. Como vou me posicionar diante da velhice? Me perturba chegar a uma idade física distante da minha mental que, muitas vezes, é bem jovem. A música me aproxima de gente jovem. No próprio Festival de Cinema de Brasília, constato que o jovem sofre muito bullying. Mas, com a expansão da consciência, quero mesmo é ver se aprendo a morrer bem.
 
 
 

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