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Correio Braziliense

Virginia de Medeiros lança catálogo de Studio Butterfly e outras fábulas

Os pilares da exposição são sexualidade, gênero e religião, com obras que apresentam um novo modo de ler a realidade


postado em 10/10/2018 06:28 / atualizado em 10/10/2018 06:19

(foto: Virginia de Medeiros/Divulgação)
(foto: Virginia de Medeiros/Divulgação)


“A gente se constrói a partir da diferença, não só com o que nos é semelhante.” É com essa afirmação que a artista visual Virginia de Medeiros chega hoje com o catálogo da exposição Studio Butterfly e outras fábulas, na Galeria Fayga Ostrower, em Brasília. Além da distribuição gratuita da publicação, a artista conversará com o público sobre o seu trabalho e realizará uma visita guiada.

O catálogo de 32 páginas reúne textos do curador Moacir dos Anjos, elaborados especialmente para a exposição, e fotos sobre as quatro obras apresentadas na mostra. O evento apresenta, ainda, instalações, vídeos e fotografias que lançam um olhar sobre histórias de pessoas reais.

Com temas sensíveis e urgentes, a exposição reunirá quatro obras de Virgínia : Studio Butterfly, Cais do corpo, Manilas Bar — Casa da Marinalva e Sergio e Simone # 2. A artista baiana converge estratégias documentais para ir além do testemunho e mostrar a vivência durante a aproximação das pessoas presentes nas obras e construção da narrativa.“A linguagem do vídeo me permite transpor de uma forma mais intensa a experiência vivida, até porque para mim o mais incrível é o processo, então a ferramenta dá conta dessa transposição”, pontua Virgínia.

Os pilares da exposição são sexualidade, gênero e religião, com obras que apresentam um novo modo de ler a realidade. Ela mergulha, se envolve e participa das vidas das pessoas com quem conviveu durante o processo de criação. “Eu mostro a pluralidade da existência, não tem mais como definir ou resumir ninguém a nada, e nós temos que abraçar essa realidade”, explica a artista.

Minorias

A obra Studio Butterfly, que dá nome à exposição, foi fruto de uma amizade que Virginia teve há mais de 10 anos com Rosana, dona de uma pensão em Salvador que abrigava travestis. “Naquela época, era muito mais obscuro sobre a vida dessas pessoas e fiquei muito próxima delas e quis trazer esse universo intimo, com uma representação não estereotipada, trazer o que eu tinha desfrutado dessa amizade”, revela.

A videoinstalação apresenta o registro de testemunhos dados por várias das travestis em visita ao estúdio fotográfico montado por Virginia para acolhê-las. São depoimentos permeados por lembranças das fronteiras entre o masculino e o feminino. “Quis mostrar a família dessas pessoas, os casos amorosos. Quis explorar o que tinha de semelhança, e não a questão do gênero”, explica Vírginia. A artista ainda conta que Rosana era soropositiva e morreu antes de ver o resultado da obra. “Ele é muito significativo para mim, eu dedico esse trabalho a ela”, conta.

Já em Sergio e Simone # 2, Virginia mostra depoimentos de duas personagens que são, ao final, uma só: Simone, uma travesti de religião de matriz africana, cuidava de uma fonte na Ladeira da Montanha, em Salvador, e, após sofrer uma overdose de crack, decidiu voltar para a casa dos pais e reassumir seu nome de batismo, Sérgio. A partir daí, se tornou pastor evangélico. “Um dia, eu fui à Ladeira e não a encontrei mais. Fui ate a casa dos pais dela e eles me contaram o que tinha acontecido. Eu achava até que ele não ia me dar autorização, mas, na verdade, ele me convidou a fazer as filmagens da sua nova fase” relata Vírginia.

Virgínia, que tem uma relação pessoal com Sérgio até hoje, conta que ele é uma pessoa que tinha muito mais conflitos de religião e sexualidade que Simone. “Sérgio teve algumas recaídas, ele vai e volta. Eu busco não trabalhar o julgamento, independentemente de questões religiosas e diferenças, quero mostrar com outro viés”, conclui Virgínia.

Formada por um vídeo e quatro fotografias, Manilas Bar — Casa da Marinalva é um trabalho comissionado pelo Museu de Arte do Rio (MAR). A obra retrata o bordel de Marinalva, o fechamento e o desaparecimento das pessoas que frequentavam o local. “É um bordel que existia desde 1960, a gente entrava e parecia de outra época. Conheci Marinalva e me encantei pela história dela, as mulheres que trabalham lá a chamavam de mãe. Ela não deixava entrar drogas na casa e todos eram tratados com muito respeito”, relembra.

A quarta e mais recente obra apresentada é Cais do Porto, feita a partir de imagens e falas de prostitutas que vivem e trabalham no entorno da Praça Mauá, zona portuária do Rio de Janeiro. Nos depoimentos, essas mulheres denunciam os mecanismos explícitos e velados de expulsão de um território. Virginia frequentou o espaço durante quase dois anos, e a partir da convivência com essas mulheres, começou a filmar e coletar o material. “Depois de tudo filmado, eu fiz o roteiro. O sentido da obra foi construído na sala de edição. Eu tenho muita responsabilidade em como vou expor essas imagens, já que essas pessoas são tratadas com tanto preconceito, então eu não posso definir nada sem ver tudo com muito cuidado”, conclui.

Lançamento do catálogo Studio Butterfly e outras fábulas
Na Galeria Fayga Ostrower (Complexo Cultural Funarte Brasília). Hoje, às 19h. Visitações até 14 de outubro das 10h às 21h. Entrada franca. Não recomendado para menores de 18 anos.
 
 

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