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Correio Braziliense

Joseph Frank lança obra compacta sobre a vida de Dostoiévski

'Dostoiévski: Um escritor em seu tempo' é uma versão compacta da obra original


postado em 13/10/2018 07:00

(foto: Companhia das Letras/Reprodução)
(foto: Companhia das Letras/Reprodução)

Ler Dostoiévski é uma experiência de adrenalina filosófica, psicológica e espiritual. Dostoiévski teve uma vida dramática, ficou preso oito anos na Sibéria, perdeu muito dinheiro no jogo e escreveu romances contra o calendário para pagar a conta do aluguel. Daria uma bela biografia. E deu: Dostoiévski, um escritor em seu tempo, de Joseph Frank, já nasceu clássica. A edição original tinha 2.500 páginas e foi publicada em cinco volumes pela Edusp. Mas, agora, chega uma versão compacta de 1.100 páginas preparada pelo próprio Frank, em lançamento da Cia das Letras.

O possesso escritor russo foi brindado com uma série de biografias. No entanto, a originalidade de Frank reside na ênfase que conferiu à análise do entrelaçamento entre a vida individual e as ideologias na obra de Dostoiévski: “Os envolvimentos pessoais dos personagens dos romances, embora representados com intensidade, muitas vezes, melodramática, não podem ser realmente compreendidos, a menos que entendamos como suas ações estão interligadas com motivações ideológicas”, comenta Frank: “Na verdade, uma forma de definir a originalidade de Dostoiévski é ver nela essa capacidade de integrar o pessoal com o ideológico”.

Não se trata apenas das intermináveis discussões ideológicas dos personagens dostoievskianos. Mas da maneira como os personagens se impregnam das ideias e as levam até as últimas consequências em suas vidas: “Sua genialidade incomparável de romancista ideológico estava nessa capacidade de inventar ações e situações em que as ideias dominam o comportamento sem que ele se torne alegórico”.

A dramaticidade dos personagens emana dos problemas psicológicos e sentimentais, mas também do debate sobre as doutrinas ideológicas do seu tempo: “Não é o fato de seus personagens se envolverem em disputas teóricas. É antes o fato de que suas ideias se tornam parte de suas personalidades, a tal ponto que uma não existe sem as outras. Sua genialidade incomparável de romancista ideológica estava nessa capacidade de inventar ações e situações em que as ideias dominam o comportamento sem que este se torne alegórico”.

Um dos aspectos mais brilhantes do livro é a análise que Frank empreende de cada obra em conexão com ideologias dominantes no tempo. A contradição entre os valores da fé cristã ortodoxa e o ateísmo são explorados em Os irmãos Karamázov: “Como poderia um Deus supostamente amoroso ter criado um mundo em que o mal existe?”

Em O homem do subterrâneo, Dostoiévski polemiza com o que Nicolai Tchernichévski chamava de “egoismo racional”. O homem subterrâneo afirma que, algumas vezes, “dois e dois é igual a cinco” é algo muito interessante. Ou seja: em certas circunstâncias, nós agimos movidos por forças inconscientes que solapam completamente o razoável, o lógico e o sensato. Era um embate contra o chamado “socialismo científico”, que levara Dostoiévski até o inferno da prisão na Sibéria.

Crime e castigo discute as ideias do pensador radical, Dimítri Píssarieve, que concebeu uma clara distinção entre as massas anestesiadas e os cidadãos supostamente superiores, como é o caso do personagem Raskólnikov. Mas é em Os demônios que Dostoiévski radicaliza a reflexão sobre as consequências do comportamento dos personagens niilistas.

Crime e castigo foi uma resposta às ideias de outro pensador radical, Dimítri Píssarieve, que estabeleceu distinção nítida entre as massas adormecidas e os indivíduos superiores, como Raskólnikov, que acreditavam ter o direito moral de cometer crimes no interesse da humanidade. O magistral romance Os demônios, que ainda é o melhor escrito sobre uma conspiração revolucionária, se baseia no caso Nietcháiev, o assassinato de um jovem estudante pertencente a um grupo clandestino.

Seria possível criar um outro modelo de cristianismo para as novas gerações em contraposição ao egoismo racional das ideias de socialismo científico? Essa é a tentativa do romance O idiota. O personagem seria uma reencarnação de Cristo. Mas a ideia fracassa e termina em desastre, segundo Frank.

Enquanto velava o corpo de sua primeira mulher, escreveu que “amar ao próximo como a si mesmo, seguindo o mandamento de Cristo, é impossível. A lei da personalidade terrena não o permite. O ego atrapalha. “Era a luta contra esse ego que constituía ‘o bem’ para Dostoiévski”, comentou Frank em entrevista a Aurora Bernardini, na Folha de São Paulo.

Frank alia biografia, crítica literária e história de maneira admirável. Não é uma obra somente para especialistas. Frank escreve muito bem e ilumina a obra de Dostoiévski. É uma obra-prima com todas as letras: “A arte é para o homem uma necessidade tanto quanto comer ou beber”, escreveu Dostoiévski. “A necessidade de beleza e das criações que a concretizam são inseparáveis do homem, e sem ela talvez o homem não tivesse nenhum desejo de viver.”


Dostoiévski: Um escritor em seu tempo
Joseph Frank/Ed. Companhia das Letras1098 páginas
 
 
 
 
 


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