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Correio Braziliense

Matheus Nachtergaele faz monólogo em homenagem à mãe

Ator criou peça a partir de poemas da mãe, morta aos 22 anos


postado em 08/11/2018 06:30 / atualizado em 07/11/2018 19:12

(foto: Leo Aversa/Divulgação)
(foto: Leo Aversa/Divulgação)

 

Matheus Nachtergaele tinha 16 anos quando o pai o chamou para uma conversa reservada. Como o menino era muito antenado, lia muito e já aparentava certa maturidade, o pai achou que era hora de contar sobre o suicídio da mãe. Maria Cecília decidiu morrer aos 22 anos e deixou Matheus, um bebê de três meses, com o pai. Durante a conversa, ele entregou ao filho uma pasta com 30 poemas datilografados. O menino guardou o material, com o qual nunca deixou de ter contato. Aos 20 anos, quando subiu ao palco para fazer o teste oral para ingressar na faculdade de dramaturgia da Universidade de São Paulo, recitou um poema da mãe. E há pouco mais de dois anos, quando recebeu o convite do Festival de teatro de Ouro Preto para encenar um espetáculo que “tivesse na manga”, decidiu montar algo com os poemas.

Processo de conscerto do desejo estreou em 2016 e foi um processo em vários sentidos. Primeiro, trouxe o ator de volta ao palco depois de mais de 50 filmes, séries, minisséries e novelas. “Vou fazer essa peça por muito tempo, é uma peça que nasceu em casa e pode conviver com outros projetos. Viajo só eu e dois músicos, então é possível se deslocar, e nunca mais tirei o pé do teatro”, conta o ator, que apresenta o monólogo de hoje a domingo na Caixa Cultural.

No palco, Nachtergaele mescla sua própria voz com a da mãe impressa nos versos. Não se trata, ele avisa, de um ator na pele de Maria Cecília. “Não é propriamente uma peça de teatro na qual o Matheus se veste de Maria Cecília: sou eu e ela juntos. Em alguns momentos, claro, ela fica mais encarnada; em outros, é o filho falando criticamente um poema”, explica. Entremeadas aos versos, estão canções que a mãe, violonista, gostava e tocava. Para o ator, o título do monólogo carrega algumas das preocupações que o conduziram ao espetáculo.

O tom psicanalítico do título é óbvio quando se trata de um filho que fala poemas de uma mãe suicida que ele não conheceu conscientemente, embora tenho estado com ela. É um processo de encontro. “Eu estive com ela, é um fato, eu sinto, e a única maneira de eu estar de novo foi assim, sendo ator de uma peça escrita por ela. Só isso já me parece bem bonito: finalmente a gente faz alguma coisa junto”, diz.

Mesclar em conscerto duas letras de palavras com sentidos diferentes teve o propósito de fundir os significados. “Consertar é como um processo, ao longo dos anos. E é um concerto porque é um concerto com versos e músicas”, explica Nachtergaele. “É uma sessão de iluminação do que era escuro num processo de consertar com música e versos o meu desejo de viver e o desejo de morte da Cecília, como se eu pudesse contrariar o que ela quis.”

Autoconhecimento

Não foi fácil montar Processo de conscerto do desejo. Anos de análise, de idas e vindas sobre o material, do que o ator chama de deglutição do teatro e da vida foram necessários para subir ao palco e dar voz a Maria Cecília. “Aprendi muito. Já me deprimi muito por causa da mamãe e já tive muitos insights bonitos por causa dela também. E a peça é um ato genuíno positivo de transformar em útil e belo aquilo que parecia uma tragédia, um fracasso. Diferente do que está acontecendo na nossa política”, repara o ator.

A peça é um respiro na rotina atribulada de projetos no cinema e na televisão. E há muitos. Nachtergaele está em duas produções inéditas, ainda sem data para serem lançadas. Na série Cine Holliúdy, ele interpreta o prefeito Olegário, misto do corrupto Orodico Paraguaçú, de O bem-amado (Dias Gomes), com figuras com as quais esbarrou em cidades do interior. No longa Piedade, de Claudio Assis, vive um executivo mau-caráter enviado por uma empresa de petróleo para comprar terras de uma família humilde.

Foi o quinto filme de Nachtergaele com Assis e o primeiro de Cauã com o diretor pernambucano. Uma cena de sexo entre os dois atores já causa alvoroço antes mesmo de o filme estrear. “Entre todas as que a gente fez, foi a mais fácil de fazer, foi super-rápido. A cena é forte, mas não é de sexo explícito, é poética, como sempre é com o Claudio Assis. Tem nudez, obviamente, mas a gente fez só duas vezes. Uma com a lente mais aberta e outra com a lente mais fechada e o Claudio falou ‘tá ótimo’. Foi bem tranquilo, sou muito amigo do Cauã”, conta. “Acho engraçado as pessoas falarem, terem tanta curiosidade porque, dentro do filme como um todo, me parece uma das cenas menos importantes.”

Agora, Nachtergaele quer voltar a fazer novela. E um vilão, de preferência. Ao longo dos 26 anos de carreira, desde os primeiros passos no teatro com Paraíso perdido e O livro de Jó, ele fez pouca novela. Mas sente saudade de sair na rua e ouvir os comentários das pessoas, como era frequente quando fez o Miguezim em Cordel encantado. Mas ainda vai demorar um pouco. Por enquanto, o ator se prepara para começar a gravar Cabras da peste (de Vitor Brandt) e, em abril de 2019, será a vez da segunda temporada de Filhos da pátria.



Processo de conscerto do desejo
Textos: Maria Cecília Nachtergaele. Direção e Interpretação: Matheus Nachtergaele. De hoje a sábado, às 20h, e domingo, às 19h, na Caixa Cultural. Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)


(foto: Leo Aversa/Divulgação)
(foto: Leo Aversa/Divulgação)
 
 
ENTREVISTA


Sua mãe foi fisicamente ausente, mas parece ter tido uma presença forte na sua vida…
Apesar de a morte dela ter sido um tema tabu, sempre procurei saber coisas dela. Sempre fui muito ligado à figura dela. Todo filho é ligado à figura da mãe de sangue, que também não deixa de ser da mãe de espírito, mesmo se não for místico, que é meu caso. Acredito que você herda não só cromossomos, mas também talentos. Estar com os poemas da minha mãe a partir dos 16 anos e na biblioteca dela, com as músicas e compositores de que ela gostava, me formou muito.


E do que falam os poemas?
São generalidades. Não são sobre o suicídio, mas são temas variados como amor, desamor, maternidade, política. Temas variados nos quais você entende como uma pessoa pode ter se magoado com a vida a ponto de partir. A peça não se presta a procurar explicar o suicídio da Cecília: é uma peça poética, de iluminação daquilo que parecia triste. Quando fiz o teste da escola de arte dramática da USP, falei um poema da mamãe. Ou seja, eu estava engendrando isso. Claro que é um material delicado para mim.


Desejo, qual o lugar dele no Brasil de hoje na sua opinião?
Por algum motivo financeiro, e não tenho dúvida de que é um motivo financeiro, todo o iluminismo e humanismo estão sendo apagados como se tivesse um desejo premente de se esquecer esse caminho para se adotar de uma vez o ultracapitalismo como saída, a competitividade absurda como meio e o dinheiro como religião. Parece que o mundo está optando, para meu espanto e grande tristeza, e o Brasil também, por esquecer todo o processo de conserto do nosso desejo.

É como se quisesse apagar aí mais de 50 anos de história, de caminhada, coroando o capitalismo mais selvagem como melhor caminho. É como se a gente tivesse decidido parar de se esforçar pelo humanismo, parar de se esforçar por aquilo que faz a gente avançar nas coisas mais bonitas, no que diz respeito às convivências com as diferenças, no que diz respeito a proteger quem ainda está para trás na corrida do conhecimento, da cultura, do capitalismo. É como se houvesse, por parte do mundo, uma grossa voz armada dizendo “esquece as lutas humanistas, não deu certo, salve-se quem puder”.


Você está com medo?
Não estou com medo, estou preocupado. A gente vai passar por uma aprendizagem, nós todos, inclusive os eleitos. Eu espero que a gente não se machuque. Nosso coração já está ferido, alguns há muito tempo, outros, mais recentemente. Mas espero que seja um aprendizado bonito para todos nós e não uma coisa violenta fisicamente, porque emocionalmente e filosoficamente já é violento. Uma tentativa de se calar grandes pensadores, de se calar a religião múltipla e mestiça que é a do Brasil. Nós não somos evangélicos, somos católicos, somos do candomblé, somos budistas, judeus, da pajelança. Acho que já existe uma brutalidade quando se escolhe uma temática só como guia, sendo que o Brasil poderia ser aquele país que vai ensinar o novo para o mundo. Tinha esse sonho e continuo tendo. A gente era o país que ia ensinar o novo. Já não tenho certeza agora se há tempo de a gente ser isso.


Você diz que quer voltar a fazer novela e quer fazer um vilão. Por que um vilão?
Fiz poucas novelas na vida, todas com a maior alegria. Da cor do pecado, América e Cordel encantado foram as três novelas que fiz. No restante, foram séries e minisséries, muitas. Porque não fiz ainda um vilão de novela e deve ser um jeito interessante de ficar no ar. Já fui personagens cômicos, algumas vezes com muito sucesso. Mas como não faço muitas novelas por causa desse envolvimento com cinema e teatro, e a novela ocupa muito tempo, fiquei desejando fazer, quem sabe, um vilão.


Você costuma dizer, quando fala de Filhos da pátria, que o brasileiro é corrupto. Como é isso?
Me perguntavam como eu me preparava, eu explicava que basta ler os jornais todos os dias que você fica preparadinho pro set. Sim, tem uma atitude corrupta no povo brasileiro. Acho que tem a ver com o sistema de colonização, sempre um aproveitamento das coisas como se o Brasil não fosse nosso, sempre a sensação de que, apesar de ser brasileiro, você não é daqui. Isso nos acompanha culturalmente. E agora, muito mais porque vejo que toda a intenção é de vender recursos para fora. Estava havendo um movimento bonito nos assentamentos dos sem-terra, na agricultura familiar, no nosso cinema, que se refez, e parece que isso foi contra alguns interesses.
 
 
 
 

 

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