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Correio Braziliense

Universo de Cora Coralina guia longa de Reginaldo Gontijo

Longa destinado ao público infantil mergulha na poesia de Cora Coralina


postado em 22/11/2018 06:30 / atualizado em 22/11/2018 11:18

Cena de O colar de Coralina(foto: Reprodução/Internet)
Cena de O colar de Coralina (foto: Reprodução/Internet)

 

Na visão do cineasta Reginaldo Gontijo “é possível um homem se encaixar na delicadeza” de universo feminino e ele comprova isso à frente da direção do longa infantil O colar de Coralina, que chega hoje aos cinemas. O desenvolvimento da poesia aproximou Gontijo — diretor dos documentários O mar de Mário (2010), que explora feitos do pioneiro Mário Peixoto, e Eudoro e o logos Heráclito (2012), sobre o filósofo Eudoro de Souza — do universo de Cora Coralina, personagem central do novo filme. “É um filme sobre e para nossa poeta maior, Cora Coralina; ele é lúdico, imaginário e sonhador e sempre será um desafio para o espectador. Como Cora sempre dizia: ‘passei a vida quebrando pedras e plantando flores’”, comenta o diretor. O filme incorpora o que o cineasta percebe como “uma obra à parte”, a trilha sonora, feita com exclusividade por Carina Correia e João Ferreira.

Há 40 anos radicado na capital, o diretor mineiro Reginaldo Gontijo explica que o filme é todo em cima do poema O prato azul-pombinho, quase um roteiro pronto. “O filme inclusive usa o poema na íntegra, usando para isto as imagens em animação (computação gráfica) que narram tudo. No mais, o filme tem o ritmo poético da literatura da Cora, o ambiente hostil à educação das mulheres, o papel da mulher na sociedade da época que ela aborda bem em sua obra. E o esforço da menina que sonhava um dia ser poeta”, adianta o diretor. A menina é a pequena Ana (que viria a se tornar Cora), retratada ainda sob o nome de batismo: Ana Lins do Guimarães Peixoto Brêtas.

A carga saudosista é um dos elementos dispostos no enredo detido na infância de Cora Coralina. “A poesia, por si, cria uma atemporalidade, a arte e a poesia em particular podem transcender a tudo, inclusive o agora e o outrora”, como diz Gontijo. Ele completa que percebe a poesia de Cora como algo “atemporal e universal”. O diretor crê que a emoção nos lança num universo que alcança o presente e se desdobra em diversos lugares no mundo, incorporada a um tempo mágico, sem tempo. “Você pode perceber como é tênue e lenta a passagem do tempo no filme. Há até um momento muito sutil, no qual a menina (Rebeca Vasconcelos) passa por uma cena da Cora madura (Maria Coeli), como num presságio”, comenta.

 O diretor Reginaldo Gontijo defende a determinação e a poesia de Cora Coralina(foto: O2 Play/Divulgacao)
O diretor Reginaldo Gontijo defende a determinação e a poesia de Cora Coralina (foto: O2 Play/Divulgacao)


Força

Em cena, O colar de Coralina reúne oito mulheres de várias geraçôes: há bisavó, mãe (feita por Letícia Sabatella), tias e uma empregada (a ex-escrava interpretada por Valdelice Moreno). “Para a época retratada, existia mais dificuldade na impressão de sensibilidade por parte dos homens para questões domésticas. O machismo está presente até hoje em nossa sociedade, mas a gente percebe que grande parte das mulheres do filme também incorpora esse machismo, com questões relacionadas a casamento. Acho que a falta de um homem em cena é mais por questão financeiras mesmo: a mãe (Sabatella) tem que desafiar os coronéis da época para sobreviver e colocar comida na mesa”, reforça o cineasta.

A primeira ficção de Reginaldo Gontijo tem roteiro de Geraldo Lima, trazendo em cena atrizes como Magna Oliveira e Paula Passos. Quanto a atrizes mais jovens, caso de Rebeca Vasconcelos, o cuidado foi grande: “Ficamos um ano treinando as crianças — o mais difícil foi encontrar a protagonista e fazer com que o elenco assentasse ela, porque ela é diferente das outras. O importante, ao dirigir crianças, está em não tratar crianças como adultas. Crianças têm um ritmo próprio”.

Entre os traços marcantes de O colar de Coralina está a derradeira participação do diretor Dizo dal Moro, morto ano passado. “Ele dirigiu a fotografia, fazendo a luz em 18 variações, para se ter uma ideia. Na sala da família, onde quase tudo acontece, criou a noção de manhã, tarde, noite, tarde com chuva, lua cheia, lua minguante, e por aí vai. A fotografia do filme é uma verdadeira obra de arte e ajudou muito na finalização do filme. Foi decisivo”, conclui.
 
 
  

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