Publicidade

Correio Braziliense

Spike Lee aborda preconceitos, numa das dez estreias de cinema

Circuito do Distrito Federal recebe uma dezena de estreias, com destaque para o explosivo filme de Spike Lee


postado em 22/11/2018 11:18

Personagens têm as identidades trocadas, em Infiltrado na Klan(foto: Reprodução/ Internet)
Personagens têm as identidades trocadas, em Infiltrado na Klan (foto: Reprodução/ Internet)
 
 
Desde 1986 integrado à carreira dos maiores prêmios internacionais de cinema, entre os quais Cannes, Berlim e Veneza, Spike Lee traz um predicado que, por si, diz muito de sua engajada produção: até hoje, só viu premiados longas, por tabela ou dentro de segmentos diferenciados, algo à margem. Com a mais recente e vistosa obra, o longa Infiltrado na Klan, a norma foi seguida: com o filme, recebeu em Cannes o Grande Prêmio do Júri. Dotado de expressões infladas de preconceitos — entre as quais o uso de “neguinho” e “de ratos negros” —, Spike Lee reproduz no enredo do longa um discurso abjeto de discriminação, mas nem por isso inventado. Por mais desumano e ilógico que aparentem, muitos dos eventos dispostos em Infiltrado na Klan foram extraídos da realidade.

O compromisso social do longa é tamanho que, mesmo abordando uma trama dos anos de 1970, o diretor inclui recentes episódios de preconceito assumido em Charlottesville (Estados Unidos). Ao ter contato com as imagens do presidente Donald Trump e sua interação com David Duke (no filme, Topher Grace vivendo uma espécie de líder da Ku Klux Klan), o protagonista do filme John Daniel Washington não se conteve, em entrevista ao Los Angeles Times: “Foi como um golpe emocional desferido por Mike Tyson. Não se tratou de um take estudado pelas lentes do cineasta Spike Lee. Esta é a América corrente e verdadeira”.

Saído detrás do balcão do arquivo de uma delegacia policial, o primeiro agente negro da cidade americana de Colorado Springs Ron Stallworth (John Daniel Washington) é o homem que move todo o enredo, parcialmente baseado em experiências do verdadeiro Stallworth. Entre discussões sobre o poder de Angela Davis e sobre o cinema negro icônico defendido por Pam Grier e em longas como Shaft e Super Fly, Ron Stallworth, politizado, consegue o impossível: negro, adere a Klan; mas tudo por meio do colega de ofício Flip Zimmerman (Adam Driver).

Tópicos ligados a acomodação social, num tom inesperadamente cômico, sustentam toda a trama de Infiltrado na Klan. Abomináveis, pelo tipo de personagem, atores como o finlandês Jasper Pääkönen e Alec Baldwin se destacam num elenco em que Corey Hawkins dá expressão engajada ao personagem real Kwame Ture. Enquanto em meio à investigação o personagem Zimmerman se aproxima da noção de ser judeu, Lee aproveita parte do filme para atacar (indiretamente) Trump — fazendo alusão à inesperada eleição dele. Ao jornal britânico The Independent, porém, Lee foi mais objetivo: “Se Trump (ou o “Agente Laranja”, como ele chama) tivesse a chance de repudiar o mal, de dispersar o ódio, de desautorizar a Ku Klux Klan, de frenar o neonazismo — ainda assim —, ele não o faria”.
 
 
 
OUTRAS ESTREIAS
 
Sequestro relâmpago 
• De Tata Amaral. No longa, Marina Ruy Barbosa vive Isabel, vítima de um desarticulado sequestro feito por dois inexperientes contraventores.

A voz do silêncio 
• De André Ristum. Diretor de Meu país, Ristum traz no elenco do filme, entre outros, Marieta Severo e Arlindo Lopes, para discorrer sobre os valores da atualidade e os desejos de anônimos contemporâneos.

Em chamas
• De Lee Chang-Dong. Um entregador que circula em movimentadas ruas recebe a incumbência de uma amiga: deve zelar pela saúde da gata de estimação dela, durante a temporada em que ela estiver fora. Quando retorna, nada será como antes.

Parque do inferno 
• De Gregory Plotkin. Na fita de terror, um grupo de jovens — dentro de um parque de diversões — passa a ser alvo de serial-killer.

A garota na névoa
• De Donato Carrisi. No filme italiano de suspense, detetive interpretado pelo astro Toni Servillo lança mão de métodos nada ortodoxos para solucionar o desaparecimento de uma adolescente.

O quebra-cabeça
• De Marc Turtletaub. Ao lado de um especialista em quebra-cabeças, uma mulher dedicada à família passa a se reinventar, diante da descoberta de sua habilidade com as peças do jogo.

Refém do jogo 
• De Scott Mann. Pierce Brosnan encabeça o filme em que o público de um estádio esportivo se torna refém de grupo de bandidos.

Filme paisagem — Um olhar sobre Roberto Burle Marx
• De João Vargas Penna. Vida e obra do artista plástico e paisagista são descritos na obra do mesmo autor da série de tevê Expedições Burle Marx.

SLAM: Voz de levante
• De Tatiana Lohmann e Roberta Estrela D´Alva. O documentário examina parte da arte da performer Luz Ribeiro, escolada na poesia feita na rua, no calor da hora, com assuntos inflamados.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade