Diversão e Arte

Superação, redenção e fé: tudo cabe no engajado cinema de Cédric Kahn

Diretor de prestígio, Cédric Kahn passa por ótimo momento: dirigiu A prece, em cartaz, e comandará filme com Catherine Deneuve

Ricardo Daehn
postado em 27/11/2018 07:42
Cédric Kahn tem um filme de peso em cartaz na cidade: A prece

Uma comédia dramática chamada Feliz aniversário está entre os próximos desafios do ator e cineasta Cédric Kahn que, numa manobra de peso, reunirá, pela terceira vez na telona, os talentos das reconhecidas atrizes Catherine Deneuve e Emmanuelle Bercot. Deneuve por 14 ocasiões já colheu indicações de melhor atriz na história do prêmio César (o de maior prestígio para o mercado francês), enquanto Bercot foi premiada como atriz no Festival de Cannes, há três anos, além de ter um currículo prestigiado no front de diretora. Pela primeira vez ao lado das musas, Cédric Kahn atuará também no drama de família que, no material de divulgação, tem reclamada a distinção de pertencer a um gênero, ;a exemplo de um filme de gângster;. No filme, ainda inédito, depois de quatro anos, uma filha problema reencontra a mãe numa festa da matriarca.

Aos 52 anos de idade, Cédric Kahn, também ator e diretor, tem um momento de maior visibilidade entre o público brasileiro, dada a repercussão de duas de suas mais recentes incursões: o filme A prece, que dirigiu, ocupa as telas do país, enquanto Guerra Fria (em pré-estreias), no qual atua, apresenta o diretor polonês Pawel Pawlikowski como possível candidato ao Oscar (na categoria de filme estrangeiro). Kahn, astro de filmes como Um amor à altura, não segreda que foi, ao acaso, levado à atuação. ;A direção é a coisa mais importante para mim e a ela dedico toda a minha mente e energia;, comenta, em entrevista ao Correio.

Com o longa A prece, que mostra o processo de limpeza de um dependente químico, o diretor cravou a quarta participação nos festivais de Berlim e de Cannes. A humildade, pelo que conta, porém, segue forte. ;É tanto reconhecimento quanto celebração à possibilidade de mostrar filmes nesses festivais de prestígio, mas, na verdade, tudo é importante para mim: estar com a imprensa, com o público ; eu preciso desses olhares no meu trabalho; não poderia fazer filmes que só interessassem a mim;, comenta.

;Sigo preocupado com os tópicos que abordo nos filmes: não poderia fazer um filme apenas tecnicamente ou porque uma ideia me pareça irresistível. Acredito que a questão do nosso atual vazio vai muito além de elementos da religião. Todos nós buscamos sentido em nossa vida, um ideal, algo que dê direcionamento à jornada. Alguns se voltam para a religião, outros para a política, outros tantos se dedicam à ambição pessoal ou ao amor. Não travo nenhum julgamento: todos lutamos de certa forma pela sobrevivência. A humanidade sempre foi confrontada com a violência e as trevas. Há, entretanto, o instinto de sobrevivência do ser humano, que é mais forte do que qualquer coisa. Daí achar que, mesmo hoje em dia, não há razão para se desesperar;, pontua o diretor.

O ator Anthony Bajon rouba toda a cena de A prece, tendo levado, aos 22 anos, o Urso de Prata de melhor ator no Festival de Berlim. Ora angelical e infantil, ora uma onda de fúria em cena, Bajon agregou muito, nas palavras de Kahn. Em meio a todo grupo de atores selecionados para a fita, o diretor conta que ;procurou, com a convicção de que nosso protagonista estava lá;. ;A emoção, quem carrega é ele, pertence a ele. Fazemos tudo para um ator ; exceto lhe dar magia em cena;, sintetiza.

Autonomia e embate

A França, tanto na vida quanto na arte, segue ofertando bom espaço para o talento de Cédric Kahn, pelo que avalia. ;Acho que ainda temos muita liberdade na escolha dos tópicos e no tratamento das histórias ; ainda podemos seguir a linha do ;faça filmes com heróis problemáticos e objetivos ambíguos;. Eu acredito que a arte deve escapar de todas as camadas de moralidade;, explica.

Para além da reflexão de violência frontal e gratuita no cinema, outro incômodo, numa conversa com Kahn, é comparar seu sucesso Vida selvagem com o similar Capitão Fantástico. ;Assisti ao filme americano, sim. É como uma versão de filme de ;sentir-se bem;: pai e mãe se davam bem e a vida, fora do mundo concreto, era feliz antes de um grande drama. No meu filme Vida selvagem, o ideal político é o pretexto para a guerra entre pai e mãe dispostos ao cuidado e à educação de seus filhos. No fundo, os filmes são muito, muito diferentes;, conclui.
Um caso real estimulou a realização de Vida selvagem

Império dos dissidentes

Sempre inconformado com traços da sociedade, o cineasta Cédric Kahn muitas vezes recorreu ao retrato de tipos desapegados a convenções e movidos por desejos bem particulares. Confira.
O tédio, longa assinado por Kahn

O tédio (1998)
; Adaptação de romance do italiano Alberto Moravia, revela um relacionamento cíclico e sem maiores afetos entre um filósofo e uma musa bem distanciada do padrão idealizado pelo senso comum.
Roberto Succo: serial-killer real inspirou a fita
Roberto Succo (2001)
; Kurt e Léa parecem apaixonados desde o primeiro encontro. Ela mora na montanhosa região de Savoy, local que passa a fazer parte da rotina de Kurt, dono de uma verdadeira coleção de carros. Na trajetória das sistemáticas viagens dele, a polícia está no encalço de um destemido malfeitor. Baseado na história real de um serial-killer italiano, morto em 1988, aos 26 anos de idade.

O avião (2005)
; Um menino vê contrariadas as expectativas de ganhar uma bicicleta de presente de Natal. Mas, antes de morrer, o pai dele lhe entrega um protótipo de avião encantado.

Vida selvagem (2014)
; Há quase 10 anos, o francês Xavier Fortin foi preso, na vida real, diante do rapto dos dois filhos, que teriam, por decisão judicial, a guarda pela mãe. Com a visão dessa história ; em que, por 11 anos, a família foi nômade, desprezou padrões sociais corriqueiros e adotou falsidade ideológica ;, Kahn adapta a trama trazendo Mathieu Kassovitz (O fabuloso destino de Amélie Poulain) como o pai foragido da lei.

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