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Correio Braziliense

Cartunista Rafael Corrêa mostra verve crítica no livro 'Até aqui tudo bem'

'Até aqui tudo bem' reúne trabalhos de 10 anos de carreira de Rafael Corrêa


postado em 01/12/2018 07:00


 
Com traços simples e povoados de ideias, o cartunista Rafael Corrêa tece críticas à sociedade em ilustrações que pouco recorrem à palavras. Ele traduz ideias complexas, cheias de provocações políticas e comportamentais, nos quadrinhos premiados internacionalmente. “Gosto de pegar no contrapé do leitor. Fazê-lo dar risada e depois se dar conta de que ele está rindo dele mesmo, dos absurdos que as pessoas cometem”, observa o gaúcho de 42 anos, cujos trabalhos dos últimos 10 anos foram reunidos no livro Até aqui tudo bem

Uma das ilustrações do livro ganhou recentemente a internet. A frase “poesia, esses canalhas não suportam poesia” tirada do quadrinho de Corrêa circulou em blogs, redes sociais e colunas sem os devidos créditos. “Acontece nas redes sociais de as pessoas verem uma imagem, acharem linda, passarem adiante e esquecem de creditar”, queixa-se. 

Para Corrêa, a internet possibilita aos artistas divulgar os trabalhos que antes ficavam restritos a revistas e jornais.  “Nosso dilema agora é monetizar isso, já que todo mundo recebe conteúdo de graça nas mídias”.

Os trabalhos já renderam a Rafael mais 40 prêmios em concursos e salões de diversas partes do mundo. No horizonte de projetos futuros, está a realização de um sonho de infância: trabalhar com cinema. 

Esclerose 


Em 2010, Rafael Corrêa foi diagnosticado com a doença que compromete o sistema neurológico e atrapalha a comunicação entre cérebro e corpo. Ele precisou se adaptar às complicações que se asseveravam com o tempo para poder continuar a produzir. Canhoto, precisou trocar a mão esquerda pela direita. Teve também de lidar com os espasmos repentinos. Antes, ficava horas na prancheta desenhando.  Hoje, ele pega o lápis apenas quando tem claro na cabeça o que pretende fazer.

Ele destaca o traço atual como ponto positivo pós-adaptações físicas. “Hoje, gosto muito mais do meu traço com a mão direita do que com a mão esquerda. O traço começou a ficar mais leve, mais solto”, conta o artista que sempre prezou pela simplicidade.

“(O diagnóstico) me deu mais gana para produzir. Pensei, ‘não posso parar’. De certa maneira, foi um combustível. Se eu parar de desenhar, não faço mais nada, a cabeça também para. É uma maneira de memanter ativo”, relata o artista, que além da crítica social e o humor cotidiano, passou a abordar nos quadrinhos a própria vida com Memórias de um esclerosado.

Os quadrinhos autobiográficos que já somam mais de 40 páginas na internet recuperam memórias da infância de Rafael e de outros momentos e mescla com sua vida atual. “Percebi que eu tinha história ali para contar. Em 2015, amadureci a ideia de criar uma história bem pessoal, que não foi fácil colocar no papel, a público”, revela.

* Estagiário sob a supervisão de Vinicius Nader



Até aqui tudo bem
Escrito por Rafael Corrêa. Publicação independente. 256 páginas . Preço: R$ 115.


Duas perguntas/  Rafael Corrêa


Quais são suas principais influências?

Tenho bastante influência do cartunista francês, Jean-Jacques Sempé, Jean Bosc, Quino, Laerte. Os temas que trago são mais ou menos os que eles traziam também, ou trazem: uma crítica social, uma crítica de comportamento, mas, não é um humor que serve só para rir, serve também para uma reflexão, uma análise. Gosto de pegar no contrapé do leitor. Fazê-lo dar risada e depois se dar conta de que ele está rindo dele mesmo, dos absurdos que as pessoas cometem. 


Como você faz para não repetir ideias no meio do grande volume de ilustrações que produziu?

Às vezes, me autoplageio (risos). Acho que faz parte do processo criativo, revisitar minhas próprias piadas, transformá-las. Também acontece de eu fazer um desenho e depois me dar conta de que outro cartunista já o fez. Como trabalhamos muito em cima do noticiário, às vezes, faço uma piada que já foi feita. Ou por mim mesmo, ou pelos colegas. Pode até parecer a mesma piadas, mas cada um tem seu olhar, nem que seja para um detalhezinho. Mas, quando é plágio, fica claro que a pessoa copiou sem colocar o próprio filtro.
 
 
 
 

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