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Correio Braziliense

Biografia de Michelle Obama refaz a trajetória da ex-primeira dama dos EUA

Em autobiografia, Michelle Obama se debruça sobre a trajetória dela, do bairro de classe média à Casa Branca


postado em 02/12/2018 07:15

Michelle Obama trabalhou na administração de um hospital(foto: Objetiva/Reprodução)
Michelle Obama trabalhou na administração de um hospital (foto: Objetiva/Reprodução)


Um dos melhores momentos de Minha história, de Michelle Obama, é de uma simplicidade que traduz a imagem da ex-primeira dama ao longo da autobiografia. Logo no início do livro, ela está na varanda de sua antiga casa, a poucos quilômetros da Casa Branca, sozinha. Nem Barack Obama, nem as filhas Sasha e Malia estão em casa. De short e descalça, ela decide preparar um sanduíche gorduroso de queijo cheddar e se sentar na varanda para aproveitar os primeiros momentos da brisa da primavera. Os cães exploravam o quintal e não havia nenhum agente do serviço secreto à vista. É um momento de reflexão, que a autora usa para introduzir o livro.

A cronologia de Minha história é bastante convencional e essa introdução sobre o momento presente, no qual a autora reflete, de maneira muito elegante e simples, sobre seu lugar no mundo depois de oito anos na Casa Branca como primeira-dama dos Estados Unidos, dá o tom de todo o livro. “Na verdade, estava pensando que dali a alguns minutos eu voltaria para dentro de casa, lavaria o prato na pia e iria para a cama, e talvez abrisse a janela para sentir o ar da primavera.(...) Quando eu era primeira-dama, eu chegava ao fim de uma semana movimentada precisando que me lembrassem como ela havia começado. Mas a noção de tempo está começando a ficar diferente.(...) E aqui estou eu, nesse lugar novo, com vontade de falar de muita coisa”, escreve.

A história de Michelle Obama combina muitos elementos de histórias tipicamente americanas. É quase possível traçar um roteiro de filme a partir da autobiografia, mas não é aí que reside seu interesse. A elegância da escrita —  e, sim, o livro foi mesmo inteiramente escrito pela ex-primeira-dama — e o conteúdo —  afinal, não há nada de banal na história de Michelle, que poderia ser quase um conto de fadas não fosse a quantidade de obstáculos pelo caminho —  são tão consistentes quanto a trajetória da autora.


Infância

Dividido em três partes, o livro tem início com A história começa. Da infância em South Shore, bairro de Chicago que passou de uma população mista nos anos 1970 a uma predominância de negros nos anos 1980, aos primeiros passos em um dos maiores escritórios de advocacia da cidade. O capítulo é importante para entender o que deu base à formação da autora. Na casa que a tia dividia com os pais de Michelle, o espaço era pequeno, os dias movimentados (a tia dava aulas de piano) e o afeto, abundante.

É uma Michelle muito determinada, mas também capaz de ironia e bom humor, que se descobre nessa primeira parte. Obstinada desde a infância, ela tenta aprender algo das lições de piano da tia Robbie, mas também é capaz de se zangar com uma professora que não enxerga nela o “perfil” para Princeton (na qual estudaria para, mais tarde, antes de ser, também, aluna de Harvard). Irônica na medida exata, chega a se comparar a uma semente de papoula em um pote de arroz para falar da predominância de brancos na universidade de elite que frequentou. Já é uma trajetória e tanto para a menina de South Shore que mirava, da janela do ônibus, os prédios de escritórios do centro de Chicago e acaba de terninho Armani como associada júnior de um dos maiores escritórios de advocacia da cidade.
 
Dia do casamento de Michelle com Obama(foto: Objetiva/Reprodução)
Dia do casamento de Michelle com Obama (foto: Objetiva/Reprodução)
 

A Michelle séria dos estudos e competidora no mundo profissional é também aquela que decidiu riscar uma grande cruz em sua vida amorosa até se tornar tutora do estagiário de Harvard com origem multiétnica, nascido no Havaí, de nome árabe e pai queniano. Foi um cortejo longo e com muita resistência por parte de Michelle, que finalmente cedeu em uma tarde quente de verão, sentada na calçada, enquanto tomava um sorvete. Percebe-se a mudança de postura na narrativa, que fica mais solta a partir do segundo capítulo, Nossa história. É quando toma a decisão de “parar de pensar e apenas viver” que a escrita fica mais solta e adquire um tom mais pessoal.

Daí pra a frente, é a história do casal que se constrói, mesclada à ascensão política de Barack Obama, ao desenvolvimento da vida profissional de Michelle e ao empenho para construir uma família. O tratamento para engravidar é um dos pontos mais comoventes da narrativa, quando a autora revela um certo ressentimento diante da falta de igualdade entre homens e mulheres. “Meu marido era extremamente amoroso e dedicado, fazia tudo que estava ao seu alcance. (...) mas sua única obrigação concreta era aparecer no consultório do médico e fornecer um pouco de esperma”, escreve. “Não era culpa dele, claro, tampouco era igualitário, e qualquer mulher que vive pelo mantra de que igualdade é importante pode se sentir um pouco confusa.”

A presidência de Obama, conquistada em 2008 para um primeiro mandato, vem na última parte, Uma história maior. Depois de listar algumas primeiras-damas célebres e a maneira como seus feitos foram encarados e rotulados, Michelle constata: “Eu já entendia que seria medida por uma outra régua. Como a única primeira-dama afro-americana a pisar na Casa Branca, eu era ‘de outro tipo’ quase automaticamente”. Depois da experiência durante a campanha eleitoral, ela sabia que precisaria conquistar uma graciosidade que já vinha acoplada naturalmente a suas antecessoras. Teria que ser, ela mesma lista, mais inteligente, mais rápida e mais forte. Também se preocupava com o fato de muitos americanos não se identificarem com ela nem com sua trajetória. Sentia-se vulnerável quanto aos julgamentos e apreensiva em relação aos estereótipos raciais. A sinceridade da narrativa é notável. “Estava honrada para ser primeira-dama, mas nem por um segundo achei que incorporaria um papel glamoroso e fácil. Isso jamais aconteceria a alguém que tivesse as palavras “primeira” e “negra” imputadas a si”, reflete.

SERVIÇO
Minha história
De Michelle Obama. Tradução: Débora Landsberg, Denise Bottmann e Renato Marques. Objetiva, 552 páginas. R$ 59,90



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