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Correio Braziliense

Reinaldo Moraes lança 'Maior que o mundo', primeiro de uma trilogia

O romance é sobre um escritor marginal que sofre de bloqueio literário


postado em 03/12/2018 08:04 / atualizado em 03/12/2018 10:48

Em Maior que o mundo, de Reinaldo Moraes, há dois protagonistas: Kabeto, o escritor com bloqueio criativo, e São Paulo. Os dois estão tão entranhados quanto a memória do escritor, que ele chama de “memória contato”. A vivência de 66 anos na cidade —  Moraes tem 68 anos —  está impregnada na escrita. Não é só cenário, é também a forma. E Kabeto é um pouco Moraes. Não tanto quanto o protagonista de Pornopopeia, o romance meio maldito que conquistou a crítica e uma legião de leitores, com 18 mil livros vendidos, mas de uma forma mais sutil. “Deu para comer umas duas ou três pizzas por ano”, brinca. “Tudo que escrevo, todos os personagens são eu mesmo, ou acordado ou dormindo.”

Kabeto é um escritor ex-junkie à procura de uma primeira frase para dar início a um romance, quase uma desculpa para falar de um universo que os leitores de Pornopopeia conhecem bem: o submundo paulistano, do Baixo Augusta, neste caso, da boca do lixo, das prostitutas, das drogas e do sexo descompromissado. Maior que o mundo nasceu de uma provocação em uma mesa de bar. O cineasta Roberto Marquez pediu a Moraes uma continuação de Pornopopeia em forma de roteiro de cinema. Ele topou, escreveu o material, combinou ceder apenas os direitos para o filme e conservou o domínio editorial porque viu ali a possibilidade de desenvolver um romance.

Na época, Moraes estava estacionado na escrita de uma história sobre um bicheiro cujo rumo adquiriu contornos excessivamente metafísicos. “Pensei que ia desentortar aquele roteiro e em dois, três meses e teria um livro divertido. Mas comecei a fazer e percebi que rubrica não é literatura, nem mesmo diálogo é literatura porque pressupõe o ator. Roteiro não tem dinâmica literária”, conta.

O que, na cabeça do autor, deveria durar uns meses, levou cinco anos para ficar pronto. E ficou enorme. No total, rendeu 1.200 páginas. Muita coisa mudou, novos personagens surgiram e o próprio protagonista passou de junkie cinquentão a ex-maluco, ex-cocainômano. “Um cara maneiro, que vive sozinho”, avisa. Como ficou muito grande, a solução foi transformar a saga de Kabeto em trilogia. O segundo volume está praticamente pronto e será lançado no final de 2019.

Moraes garante que o livro virou outra coisa. Ele ainda não viu o filme, mas gosta de pensar na convivência das duas histórias parecidas, mas diferentes. “O engraçado é que o Beto também não sabe o que resultou do livro. Talvez, seja um dos raros casos em que o livro, o romance, trai o filme, não é o filme que trai o romance. Um tipo de sinergia que espero que seja divertida”, repara.

Marginal

Muitas vezes apontado como um dos melhores autores marginais do Brasil, Moares desconfia um pouco da etiqueta. Afinal, é publicado por uma das maiores editoras do país e seus romances têm repercussão considerável. “Sou o cara marginal mais dentro do sistema que pode haver. O marginal mais da boca de cena que existe”, brinca. “Porque tem umas orgias, umas putarias, aí você acha que é marginal, mas o texto, a fatura mesmo, não tem nada de marginal. No melhor sentido que poderia haver, como escrever como Chico Alvim e Chacal, que gosto muito. Mas isso não é aquilo.”

A literatura marginal, ele gosta de esclarecer, era fruto de um contexto repressivo e opressivo dos tempos da ditadura. “Buscava a linguagem da fresta, não ser explícito, porque tinha uma censura. E tinha uma coisa meio de produção e circulação dos livros que era marginal, tudo feito com mimeógrafo mesmo”, lembra. Agora, com o resultado das eleições, ele até admite um novo cenário. “Fiquei brincando que, quando o Bolsonaro ganhou, voltou o clima de ditadura militar, essa mentalidade retrógrada e completamente totalitária, fascistóide. E vai acabar surgindo de novo a velha contracultura que tava meio aposentada. Os mimeógrafos vão sair do armário pra fazer poesia marginal e vender de mão em mão. E vai ter uma revolução musical do tipo tropicalista, uma resistência cultural. É uma coisa a ver”, especula.


(foto: Editora Alfaguara/Reprodução)
(foto: Editora Alfaguara/Reprodução)

Maior que o mundo
De Reinaldo Moraes. Companhia das Letras, 454 páginas. R$ 74,90


Entrevista/ Reinaldo Moraes

 Reinaldo Moraes escreveu tanto em 'Maior que o mundo' que o livro virou trilogia(foto: Maria do Carmo/Divulgação)
Reinaldo Moraes escreveu tanto em 'Maior que o mundo' que o livro virou trilogia (foto: Maria do Carmo/Divulgação)



O que você acha que vai surgir, em termos de linguagem literária, em tempos de pós-verdade, fake news e virada do mundo à direita?

Isso remete a essa ideia que volta e meia aparece de tentar usar os meios digitais para criar uma linguagem digital. Na literatura, seria você fazer, por exemplo, ficção interativa que o leitor possa influir. Outro dia li sobre o americano que criou o aplicativo para escrever, você dá uns empurrões e ele cria frases interessantes, meio poéticas, meio malucas. Esse campo experimental, essa coisa digital é prato cheio para experimentalismo, mas isso vai saindo fora da literatura. Não sei, talvez tenha uma visão um pouco convencional de literatura com o texto, uma coisa que depende do discurso. É um tipo de visão. De repente, você tem um tipo de literatura que vai contra isso, como o concretismo, que foi um pouco uma rebeldia contra a linhagem discursiva. Mas deu no que deu, virou uma espécie de igrejinha, quase uma peça de museu.


Existem igrejinhas, hoje, na literatura contemporânea brasileira?

Gozado, eu nunca tinha tido o que chamam de uma vida literária, de conviver com escritores e tal. Eu lia, tinha amigos que gostavam de ler, mas não era uma confraria de escritores. Mais ou menos em 2000, 2002, tinha um bar que era o Mercearia, de São Paulo, na Vila Madalena, um reduto boêmio no qual eu ia desde 1984. Fiquei um tempo sem ir, depois voltei e vi que tinha mudado o perfil do público. Começava a aparecer muitos escritores, os da geração 1980, Marcelino Freire, Nelson de Oliveira, Andrea del Fuego, Marcelo Mirisola, que eu levei. E, de repente, sem perceber, estava em mesas de escritores. Qualquer hora que aparecesse lá tinha um sentado. Mas não era no sentido de se criar um linguagem em comum: cada um era muito diferente. Durou uns 4 anos. Não existe mais. Virou um bar de universitários que lota a calçada.


Grandes livrarias fechando as portas, editoras reduzindo seus quadros e catálogos…. Há uma crise do livro no Brasil?

Eu não poderia escolher melhor hora pra lançar um livro, né? Não sei. Por um lado, as pessoas veem isso como exemplo de má gestão. O grupo Cultura comprou um monte de coisas, depois teve que vender, a Saraiva também. Não sei se dá pra atrelar a crise das livrarias à crise da literatura, apesar de ser uma indagação instigante. Temos que tentar ver se, no fundo, é uma crise da literatura, do interesse das pessoas por ficção, sobretudo, apesar de estarmos falando de livros de modo geral. Não tenho esses parâmetros. Às vezes, leio umas coisas dizendo que ficção tá vendendo cada vez menos, incluindo até Harry Potter e Cinquenta tons de cinza. E depois leio o contrário, de que tá auemntando a venda de livros e o interesse. Aí se multiplicam essas Flips regionais pelo Brasil, então é difícil fazer essa leitura. Talvez o negócio tenha mudado de perfil e os caras da Cultura e da Saraiva não tenham sacado.


Você traduziu Mulheres, de Bukowski. Se identifica com ele?

Eu adorava. Quando descobri, foi como descobrir água no deserto, achei a coisa com maior frescor que tinha, engraçado, desesperado, poético, maluco. Propus traduzir Mulheres, que tem uma coisa repetitiva, sempre uma namorada, depois outra, mas cada vez era totalmente diferente. Eu tinha 34 anos, fiquei muito impregnado por aquilo. Quando acabei de traduzir, levei na editora, saí, fui num bar e conheci uma mulher que tinha saído do livro. Uma mulher com uma blusa amarrada na barriga, uma barriguinha proeminente, uma calça apertada na bunda, um chinelo de salto, uma coisa bem bitch. Acabamos tomando uma cerveja, acabou rolando uma maluquice com ela. Incrível, tinha acabado de entregar a tradução, entro num bar e vem essa deliciosa bitch saindo do universo do Bukowski.


Em certo momento, o personagem de Maior que o mundo reclama que, hoje, não pode falar nada hoje porque logo é acusado de machismo. Isso te preocupa enquanto escritor?

Sim, acho que esse negócio foi surgindo nos últimos cinco anos. O cara é cinquentão, a roda de amigos tem metade da idade dele, ele é um pouco um dinossauro moral. Isso começou a colar no personagem. E eu tenho um pouco disso também. Acho que todo homem, da minha idade, sobretudo, e com o mínimo de autocrítica tem que estar, neste exato, momento pensando nisso, na piada que costumava contar que não faz mais sentido, no relacionamento com as mulheres, que era um e não é mais.


“É de graça sonhar com o triunfo do iluminismo sobre o obscurantismo”: não parece que agora vai ser cobrado?

Era das trevas, né? Poxa, não sei. Acho que isso vai conviver. Da mesma forma que o iluminismo surge num momento de terror no século 18, antes da Revolução Francesa, com aquelas figuras autoritárias, uma aristocracia que desprezava completamente o povo. Isso convivia com Diderot, com Voltaire, com as ideias liberais que, na época, podiam ser consideradas marginais. Esse convívio entre luz e trevas vai se manter. Não vejo uma campanha que o cara vai conseguir restituir a censura e começar a prender gente, torturar gente. Neste momento tou batendo na madeira. Mas acho que não vai. Sei lá, vamos virar uma Venezuela de direita, dominar os juízes e tal?




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