Publicidade

Correio Braziliense

Filme sobre bailarino Rudolph Nureyev aborda repressão da antiga URSS

'The white crow', dirigido pelo premiado ator britânico Ralph Fiennes


postado em 03/12/2018 19:10

O filme continuará circulando por festivais antes de estrear nos cinemas, no início de 2019(foto: Hanway Filmes)
O filme continuará circulando por festivais antes de estrear nos cinemas, no início de 2019 (foto: Hanway Filmes)


Maior estrela do balé de sua geração, Rudolph Nureyev (1938-1993) tornou-se símbolo de rebeldia contra a repressão política da antiga União Soviética ao pedir asilo político em um aeroporto de Paris, durante a excursão de sua companhia de dança na França, em 1961. O episódio,  determinante na vida e na carreira do artista russo, é reconstituído em seus pormenores em The white crow, dirigido pelo premiado ator britânico Ralph Fiennes (de O paciente inglês), exibido como atração central da programação do 40º Festival do Cairo, encerrado na última quinta-feira (29/11).

O filme, que recria importantes momentos da infância e da juventude de Nureyev, até a dramática decisão do artista pela deserção, lança um implacável olhar sobre o regime soviético e sua necessidade de controlar liberdades individuais e artísticas. Elementos  que, segundo Fiennes, não desapareceram  totalmente com o fim do comunismo e o desmembramento do bloco soviético. “Naquele instante, no aeroporto, as ideologias do Leste capitalista e do Oeste comunista colidem na forma de um jovem desertor”, explicou o diretor, homenageado no festival egípcio com um prêmio honorário.

“Sempre senti que algo na jornada interior de Nureyev, e que o inspirou a fazer aquela terrível escolha no aeroporto Le Bourget, cercado de agentes da KGB, tinha alguma relação com o mundo no qual ele vivia na época. E que, possivelmente, ainda ressoa nos dias de hoje, quando nos damos conta de que o mundo anda dividido sobre o direito de as pessoas terem liberdade de serem o que são”, comparou Fiennes. “Há uma fala de Nureyev no filme, naquele ponto crucial, em que diz: ‘Quero ser livre!’. Pode parecer muito simples, mas há uma verdade essencial nessas palavras”.

O roteiro de The white crow foi escrito por David Hare (de As horas, 2002), a partir da biografia Rudolf Nureyev: A life, publicado por Julie Kavanagh em 2007, que cobre a trajetória do bailarino, do nascimento no interior de um trem, até sua morte, vítima da Aids. “A própria Julie me enviou os primeiros capítulos do livro, antes mesmo de ser publicado, destacando o início da vida de Nureyev até o momento da deserção. Eu não tinha qualquer interesse por balé, não porque não gostasse, mas não me era um universo familiar. O que ficou na minha cabeça foi a força daquele jovem, sua determinação e força de vontade de reclamar o que considerava seu para si”.

Desde aquela primeira leitura, ficou claro para Fiennes que The white Crow seria um filme sobre as razões que levaram Nureyev a um ato tão drástico – ele só voltaria a União Soviética em 1987, para visitar a mãe no leito de morte. “Não o via como uma biografia, mas uma lente de aumento sobre aquele instante relativamente pequeno de sua trajetória, de deixar para trás a pátria que o nutriu e lhe deu condições de treinar suas habilidades. Mas a mesma terra que sentiu ciúmes da sua curiosidade sobre outras artes e formas de viver”.

Nureyev, que tinha reputação de ser temperamental e egoísta, é interpretado pelo bailarino ucraniano Oleg Ivenko. A narrativa de The white crow divide-se entre três tempos distintos da juventude do artista: a infância modesta no interior do pais, os anos de treinamento na dança, em Leningrado (hoje São Petersburgo), e a passagem do Kirov pela capital francesa, em 1961. Adèle Exarchopoulos, de Azul é a cor mais quente, vive a socialite Clara Saint, de quem o bailarino torna-se amigo íntimo.  Fiennes interpreta Alexander Pushkin,  instrutor de dança de importância decisiva na carreira de Nureyev.  

“Pushkin foi um dos maiores professores de balé da União Soviética. Ele também ensinou Mikhail Baryshnikov, que também fugiu do país dez anos depois de Nureyev”, explicou Fiennes. “Baryshnikov, aliás, foi um grande colaborador nosso, com sua preciosa memória, pois freqüentou a mesma escola de Nureyev em Leningrado. Em uma de suas atitudes mais generosas, nos contou que herdou alguns móveis do apartamento de Pushkin.  Ele nos enviou fotos das peças de mobiliário e nossa equipe de arte correu atrás para encontrar algo semelhante ou construir do zero algumas delas”.

The white crow é a terceira experiência de Fiennes como diretor. As anteriores, igualmente ambiciosas, são Coriolano (2011), partir da obra de William Shakespeare, e O nosso segredo (2013), adaptação da biografia da atriz Ellen Ternan, amante do escritor Charles Dickens. “Desta vez, eu me senti mais seguro na função de diretor. Não passei pela ansiedade que senti à época de Coriolano, quando perdi muito tempo divido com o meu egoísmo, querendo uma nova tomada e mais outra tomada da mesma cena porque queria o melhor de um determinado ator.  O filme continuará circulando por festivais antes de estrear nos cinemas, no início de 2019.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade