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Correio Braziliense

Conheça a força dos versos femininos do Distrito Federal

A poesia produzida por jovens mulheres ganha espaço com publicações independentes e versos inspirados nas próprias vivências


postado em 04/12/2018 07:24

Elas são poetas, publicaram o primeiro livro há pouco, vivem no Distrito Federal e dele extraem as vivências impressas nos versos. A quantidade de poetas mulheres em Brasília e nas cidades ao redor é enorme e há até editoras, como a Padê e a Avá, especializadas na poesia e na prosa produzidas no Centro-Oeste. O Diversão&Arte selecionou alguns nomes que começaram a ganhar destaque com versos nascidos e cultivados no DF.

(foto: Tatiana Nascimento/Divulgação)
(foto: Tatiana Nascimento/Divulgação)


Katy Souto
Escura noite é sobre várias coisas, mas é, principalmente, sobre as vivências de Katy Souto. Estudante de letras na Universidade de Brasília (UnB), a poeta de 21 anos escreve sobre as próprias experiências e topou publicar o primeiro livro depois de receber o convite da Padê editorial para participar de um projeto dedicado a mulheres negras LBT. “Fiquei inspirada e fiz várias poesias sobre vivências, mas alguma ficção também, e tem até alguns poemas eróticos”, avisa. A oralidade da poesia de Katy confere aos versos uma entonação quase de prosa. “É mais parecido com conto na oralidade, mas, na escrita, é poesia”, garante. A postura engajada é frequente na produção da autora, mas não é um objetivo. “Não faço questão, mas se escrevi, achei que ficou bom e é um tom político, não vou deixar de mostrar. A gente tem voz e essa voz foi calada por muito tempo”, diz. A poesia produzida no universo LGBT, ela acredita, tem uma cara. “E não é só uma cara, mas uma identidade. A gente escreve de um jeito que nos autoidentifique”, diz.

“imagine eu & vc 
ouvi falar sobre o paraíso cuíer e imaginei uma floresta cheia de galhos saltitando da casa de barro construída e minha boca se
Adriana Caitano
Como se diz eu te amo? nasceu de um processo de autodescoberta. A jornalista Adriana Caitano sempre escreveu como uma maneira de clarear as ideias, mas também para tentar compreender os próprios sentimentos. Alguns textos, ela publicava em um blog que mantinha meio escondido. “Eu era repórter de política e tinha vergonha, achava que tinha que escrever sobre política. Ficava guardando aquilo”, conta. Quando começou a receber feedback de leitores que se identificavam com os textos, passou a se soltar mais. “Aquilo foi como uma sementinha”, garante. Amor e relacionamentos são os temas de Como se diz eu te amo?, um misto de pequenas crônicas com poesia e prosa poética. O conteúdo virou peça porque a autora queria transformar a escrita em algo mais concreto e criou o espetáculo Como se diz eu te amo?, em cartaz no Museu dos Correios na próxima sexta.

“Quando sua vida está uma
bagunça e você se fecha
para o amor, entenda que
ele não é o prêmio depois
de tudo resolvido.

E pode ser o farol que
vai iluminar um novo
caminho.”



Nanda Fer Pimenta
Baiana de Canavieiras, Nanda Fer Pimenta veio para Brasília aos 3 anos, com a mãe, uma empregada doméstica em busca de melhores condições de vida. A poeta de 26 anos cresceu em São Sebastião, com os sete irmãos. Não tinha livros em casa, mas se encantou pela poesia na escola. Começou, então, a escrever versos e a participar de festivais de Slam. Chegou a ganhar uma edição do A coisa tá preta. Este ano, ela relançou Sangue, um livrinho de 60 páginas com poemas que falam, entre outras coisas, sobre sua própria condição. “Falo sobre transformação, racismo, vivências pessoais, sobre a questão do corpo, relacionando ao meu ativismo como mulher, preta, pobre, filha de doméstica, sem formação acadêmica”, conta. Nanda chegou a começar o curso de Artes Cênicas na Universidade de Brasília (UnB), mas abandonou. A poeta também é performer e sócia da Boom, marca de roupas idealizadas e desenhadas por artistas e designers do DF. “A poesia que a gente está produzindo, esse trabalho nas periferias, nas satélites, é sim um afrontamento”, explica. “Estamos cansados de ficar à margem. Queremos dizer que existimos. Queremos falar. Não somos dados ou porcentagens ou estatísticas. Somos pessoas que precisam falar, temos o poder da fala.”

“50ª
Deitei na minha cama, como há muito tempo não
fazia, deitei em meio a roupas, papeis, plásticos, produtos etc
deitei e me aprofundei me senti engolida envolvida
em tudo que não era nada do que estava lá
deitei senti falta, não sei do que mais senti falta”



Natália Cristina
A Avá foi criada como uma editora, mas também como um coletivo. A ideia é trabalhar pela democratização da literatura e do livro. As publicações são independentes e artesanais e a editora é liderada por três mulheres, entre elas a também poeta Natália Cristina, 32 anos. Autora de Emaranhados, ela encontrou na poesia uma forma de perder a vergonha. Inspirada mais pela música que pelos livros, Natália escreve desde os 14 anos. À frente da Avá, ela notou que as mulheres são mais tímidas para publicar. “Não sei se é uma coisa feminina. Os meninos chegam e publicam mais rápido.Tenho vários livros de poesia de mulheres parados. Acho que mulher se compara muito”, diz. Ela mesma precisou se desprender e trabalhar o medo para conseguir publicar Emaranhados. “Foi um ato de coragem de me colocar como poeta no mundo”, explica. Nos versos, ela fala de amor, mas também de medo e de transformação: “São sobre essa travessia que foi me assumir como poeta”.

“esparramada sobre mim
cutuco ideias
desato nós
curo feridas
gasto solidões
e no meu deserto
rio.”

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