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Correio Braziliense

'Faço filmes para meus contemporâneos', diz o diretor Cacá Diegues

Confira entrevista com o cineasta que dirigiu o longa O grande circo místico, um dos pré-candidatos ao Oscar


postado em 05/12/2018 07:00 / atualizado em 05/12/2018 09:25

Há mais de sete décadas vivendo no Rio de Janeiro, o cineasta alagoano Cacá Diegues — filho de antropólogo e amante não apenas da música, mas da cultura popular disseminada pelo país — segue otimista quando o assunto é o futuro do Brasil que sempre retratou em fitas como Dias melhores virão (1989) e nos filmes em que atuou como produtor, caso de Terra em transe (1967), assinado pelo amigo Glauber Rocha. “Faço filmes para meus contemporâneos, no presente”, diz o diretor, hoje em dia visto, por muitos, como a esperança do Brasil no Oscar 2019, dada a pré-seleção de O Grande Circo Místico para o evento.

Se, na atual obra, fala de pouca pompa e muitas circunstâncias para gerações de artistas de uma família circense; no caso de expectativa com um Oscar para o novo filme, a resposta é amuada — “tanto faz (receber a estatueta)”. Cacá quer mesmo é público, quer diálogo com a modernidade, distanciado do ranço de nostalgia. Parece dar andamento às ideias de reformulação e reajuste vivenciadas por personagens criados em filmes como Joana Francesa (1973) e Chuvas de verão (1977).

Ainda assim, mantém acesso, pelo que expõe a trama de O Grande Circo Místico, o contato com elementos que consagraram sua filmografia. No filme, o ex-estudante do Centro Popular de Cultura pode até não falar de deslocamentos (temas em Bye bye Brasil, de 1979 e Deus é brasileiro, de 2002) — uma vez que o circo da ficção não é itinerante —, mas, com a obra, exprime de hiatos de condições sociais (Cinco vezes favela, 1961, e A grande cidade, de 1966) até o potencial da força de trabalho, sem falar do sublime na libertação de sonhos (exemplares em Xica da Silva, de 1976, e Ganga Zumba, 1963).

(foto: Rafael D'Aló/Divulgação)
(foto: Rafael D'Aló/Divulgação)


Por que o povo brasileiro segue distanciado do papel de incrementar as bilheterias nacionais; não correspondendo ao protagonismo pelo qual cineastas como o senhor lutaram? Nosso imaginário está a perigo?
Essa é uma questão que atormenta o cinema brasileiro há muito tempo. Ela merece longas explicações que sintetizo. Em primeiro lugar, nunca, em minha geração, dissemos que íamos fazer um cinema de fácil acesso popular. Nossos filmes são observações sobre o estado do mundo e do país, nunca simplistas e nem sempre de fácil acesso. Mas hoje, depois de pelo menos algumas décadas, alcançamos um certo sucesso junto ao público nacional, temos sido vítimas de dois constrangimentos que não são criados pelos cineastas: primeiro, a subestimação da classe média em relação a tudo que é brasileiro, que ela rejeita solenemente; segundo, pelo custo do ingresso e ida ao cinema (condução, refrigerante, pipoca, etc.) para a população que gosta de se ver na tela. Esse segundo ponto é sempre confirmado pela audiência de sucesso desses filmes quando vão para a tevê, depois de um fracasso nas salas de cinema.


Qual o filme que o senhor ainda não fez, mas promete fazer nos próximos anos? Que projeto segue como mais pulsante?
Não tenho nenhuma nostalgia do passado, nem quero mandar mensagens pro futuro. Faço filmes para meus contemporâneos, no presente. Por isso mesmo, em geral as ideias surgem pouco antes de começar a produção do filme. É muito raro o filme ser pensado durante muito tempo, como O Grande Circo Místico, ou ainda filmes como Orfeu e Quilombo, projetos que desenvolvi em longa duração.


Como percebe o crepúsculo da arte circense no país? Ela sucumbiu? Que gosto deu injetar gás nessta arte, ainda que na ficção?
Não fiz o filme O Grande Circo para “injetar gás” nessa arte. A rigor, a produção não é nem um filme sobre circo, mas sobre pessoas que vivem nele. Nos interessa muito mais os personagens do que o cenário onde eles se mexem ou a história do backdrop do filme. O circo foi o primeiro espetáculo humano que gerou dramaturgia humanista, porque precisava disso. O teatro, o cinema, a televisão, o youtube são dramaturgias filhas do circo, quase sempre mais pretensiosas em termos de sentido humano. Na verdade, o circo é a manifestação de um desempenho, uma performance sem recados. Como diz um personagem no filme, “o público só vai ao circo porque há sempre a possibilidade do trapezista cair do trapézio”. Quanto a mim, pessoalmente, o circo foi sempre minha principal diversão na infância, em Maceió, onde cresci.


O senhor tende a ser um ilusionista (ou não), se percebe esperança no futuro cenário nacional, e acredita na eterna vocação de malabarista do povo brasileiro?
Não me considero um “ilusionista”. Gosto da fantasia como a expressão de um outro lado da realidade, uma outra forma de falar dela, sem o desejo de esconder qualquer coisa por trás da ilusão. O que também me aproxima dessa família de artistas é minha obsessão pelo barroco. O que sempre identificou a arte brasileira foi seu barroquismo, presente em poetas, compositores, artistas plásticos, etc. A globalização impingiu esse realismo naturalista que encontramos dominante hoje em dia entre nós, para que tivéssemos a ilusão de sermos compreendidos pelo mundo todo. Mas nós sempre nos manifestamos melhor e mais sinceramente através do barroco.


Ser reconhecido em Cannes traz tanta satisfação quanto à possibilidade de ida para o Oscar? Quais as reais chances de o Brasil estar representado e o que significaria uma vitória?
Cannes, o Oscar ou qualquer outro prêmio internacional para um filme brasileiro não poderá ser nunca o juiz supremo da qualidade de nossos filmes. É bom ganhar esses prêmios, porque eles promovem o filme, quem o fez e a cinematografia de onde ele veio. Mas não podemos levar isso muito a sério. No fundo, tanto faz.


Ser imortal mudou o que na rotina de Cacá Diegues?
Por enquanto, não mudou nada. Nem acho que vá mudar muito. Ainda não sou um acadêmico, pois fui eleito, mas ainda não tomei posse. Minha perspectiva em relação à Academia é suceder a Nelson Pereira dos Santos com o cuidado que ele sempre mereceu, como o pai do cinema moderno no Brasil, e também contribuir para que a Academia seja cada vez mais importante na renovação da cultura brasileira, um centro de agitação cultural. Não estou me tornando acadêmico por vaidade, mas para prestar um serviço à cultura desse país em que acredito.


Como o senhor lida com sinais do tempo — feminismo, redes sociais, sexo encomendado, maior dinâmica junto aos espectadores: o que mais te surpreende na atualidade?
É preciso que tentemos não nos surpreendermos, pois a surpresa será sempre um sinal de impotência, desconhecimento e até ausência de valor no que não somos capazes de julgar. A humanidade sempre avançou através de processos que nem sempre pareciam à frente do momento anterior.


Quando vista em perspectiva, a sua obra traz que carga particular de orgulho? Com que filmes ficou mais satisfeito?
Tenho muito orgulho de tudo que fiz no cinema. Mas não saberia lhe dizer o que admiro mais nesses 25 filmes e 50 e tantos anos de atividade. Mesmo porque não vejo quase nunca meus filmes antigos, tenho deles uma lembrança de época, que nem sempre é a mais justa.


Ter trabalhado com José Wilker, Marília Pêra, Nelson Pereira, Odete Lara, Jofre Soares e Jeanne Moreau é para poucos. Quando olha para a trajetória desses reais monumentos do cinema, numa arte que teve a sua contribuição, percebe que legado? O resultado tão significativo assegura a permanência da tua arte?
As pessoas que você citou e as outras que eu certamente citaria também, é tudo gente que construiu sua vida com o que decidiram fazer para os outros, uma generosa contribuição a todos nós, como se estivessem nos mostrando trechos do caminho a percorrer. Eles são eternos, porque sobrevivem no que fazemos graças a eles e no que outros farão graças a nós. O importante é não ser inútil, coisa que eles nunca foram, e, por isso mesmo, são nossos heróis.

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