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Correio Braziliense

O retorno: X Câmbio Negro fala sobre Ceilândia e hip-hop ao Correio

Um dos artistas mais relevantes do rap nacional nos anos 1990 dá entrevista exclusiva sobre o retorno ao mundo da música


postado em 09/12/2018 06:00

De terno e gravata, X Câmbio Negro pouco lembra o artista que fundou um dos principais grupos da história do rap nacional no início dos anos 1990(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
De terno e gravata, X Câmbio Negro pouco lembra o artista que fundou um dos principais grupos da história do rap nacional no início dos anos 1990 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)


De terno e gravata, a figura formal que entra na redação do Correio pouco lembra o artista que fundou um dos principais grupos da história do rap nacional no início dos anos 1990. Não fosse o Câmbio Negro tatuado no topo da cabeça, X passaria despercebido. Isso, porém, até o rapper de Ceilândia soltar o verbo com o mesmo discurso firme e direto, que o consagrou em clássicos como Sub-raça, de 1993. Aos 50 anos, X Câmbio Negro garante estar mais sereno  (“A gente aprende com a idade”), mas não se dá o direito de perder a indignação diante de injustiças sociais. O hiato de 18 anos da banda, garante o músico, não arrefeceu o som pesado. Ao contrário. As rimas agressivas estão ainda mais afiadas. “O X não mudou, continua sendo agressivo, mas hoje toca em alguns assuntos que, talvez, não tivesse vivência e maturidade para abordar naquela época”, afirma, referindo-se à morte.


Você está de volta com um disco pesado. Como está sendo esse retorno?
O Câmbio Negro é uma formação nova da banda. Nós voltamos depois de 18 anos. Há uns cinco anos, a gente se juntou para gravar no Teatro Garagem, mas rolaram uns problemas no percurso. Eu não queria mais tocar, porque perdi o prazer, a satisfação. Aquela situação estava me deixando chateado, estressado, várias falcatruas no meio da música, entendeu? E eu não compactuo com isso. Uma série de coisas me levou a deixar os palcos. Aí, teve um festival e fiz um som com o GOG. Comecei a me reapaixonar, digamos assim. Nunca deixei de gostar, mas palco não queria mais. E, aí, o tempo foi passando, surgiu uma parceria com Ralph Sardela, Moisés Pacífico, Denizar e o DJ Beetles.


E a partir daí?
Começamos a ensaiar e eu estava concluindo duas letras. Fiz um clipe e lancei no ano passado, o Ninguém toma. O vídeo está chegando em 10 mil visualizações de forma orgânica. Não tem aquele negócio de pagar, impulsionar. É a galera que vê, que gosta, que curte, que compartilha. É uma coisa mais de verdade. Fizemos um show diferente dos antigos. Na época, não tínhamos os recursos. Hoje, fazemos um show mais pesado, que traz o peso do eletrônico, que a bateria não trazia, porque a gente não tinha recurso.


Muita gente dizia que vocês soavam mais como uma banda de rock...
Exatamente. É justamente pela falta do eletrônico. O cara ouvia o disco e gostava, mas quando ia ao show, ele sentia falta de um peso, de uma porrada. Hoje, a gente tem. Fizemos todo um trabalho de pesquisa. Entra uma música mais agressiva do que antes; um clipe que tem a ver com a agressividade da letra, com vários caras lutando: Muhammad Ali, Mike Tyson, Ernesto Hoost. Além disso, há várias personalidades negras, não apenas cantores e atletas, para sair daquele chavão, mas também neurocientista, escritora, advogado, uma astronauta da Nasa. Vamos mostrar que não é bem isso falam: sub-raça, não. Entendeu?


Em uma das cenas de Ninguém  toma, você aparece recebendo a benção de uma ialorixá. Qual é a importância da fé para você, principalmente, das religiões de matrizes africanas?
Grande, especialmente, nesse retorno. As coisas degringolaram e não foi de uma hora para outra. Eu tenho a plena consciência de que nada melhora rapidamente, é com o tempo, com fé, com espiritualidade. Hoje, me sinto muito bem, me fortalecendo mentalmente e espiritualmente.


O Câmbio Negro marcou a cena de rap na Ceilândia e você é uma das figuras que personificaram esse movimento. Você encara isso mais como um peso ou como uma missão?
Eu encaro com naturalidade, porque foi veio naturalmente. Foi algo que aconteceu aos poucos. Não falei: “Eu vou fazer rap porque eu quero ser famoso, porque eu quero ficar rico, porque eu quero uma carreira”. Eu queria colocar a boca no trombone, falar dos problemas. Mas também encaro isso como uma missão. Eu não sinto como um peso. Eu sinto como uma missão de ser mais um dos porta-vozes que as periferias têm. É na oralidade que vejo nossa missão se fortalecer.


O seu rap teve uma fase da revolta. E ele evoluiu para uma mensagem de conscientização, da união, da forma de ver o mundo. Como era enfrentar esses momentos difíceis?
Não era fácil. Era um som da periferia. Não tocava nas grandes rádios. Fazíamos nossos pequenos shows pela cidade. Aí, eu montei a banda e comecei a fazer show pelo Plano Piloto. As portas começaram a se abrir. Então, isso foi um divisor de águas. Mas, bicho, você sabe que nem todo mundo fica feliz com o seu sucesso. Começaram a dizer que eu era traidor do movimento, que eu virei as costas para Ceilândia, que o Câmbio Negro não era rap.


O que lhe angustia atualmente?
Várias coisas. Todo dia, você vê um caroço de manga aí que precisa roer, entendeu? Nas redes sociais, a questão do racismo. Nessa última campanha, você via os relatos, as afrontas racistas, etc. Reforçando tudo o que eu vinha falando em Sub-raça lá em 1993. Quando saiu, há 25 anos... Faz sentido tocar essa música ainda em 2018? Claro, continuamos sendo chamados de negros imundos, macacos, afrodescendente de 12 arrobas. A indignação continua e são esses motivos que me levam ainda a continuar. A questão da homofobia, da violência contra a mulher, da desigualdade social... Vejo muita gente que é da periferia, que é da Ceilândia, e estuda, batalha, trabalha de dia, estuda à noite. Presta concurso, consegue passar e, a primeira coisa que o cara faz, é ir embora dali, dar as costas.


Esquecer o passado?
Esquecer! Em vez de o cara falar: “Pô bicho, agora tenho mais grana, tenho um pouco mais de condição, vou melhorar o lugar onde eu vivo, vou fazer algo por aqui. Não é pecado ou demérito algum a pessoa ter grana, evoluir, crescer, ser rico, milionário. Eu conheço caras ali na Ceilândia, e eles não sabem a admiração que eu tenho, porque eles fazem a diferença lá. Você começa a inspirar a moçada, os mais jovens.


Há vários rappers excelentes que ficam pelo caminho ou não conseguem viver da música. Quem se sustenta com o rap?
Pouquíssimos se sustentam com o rap. Eu já tive essa ilusão de viver de música. Não tenho mais. Não tenho essa pretensão. Até porque já passei do tamanho, do peso e da idade (risos). Quando você tem 50 anos é outra coisa. Acabamos a banda em 2000, um dos motivos foi esse: era nosso meio de vida, nosso ganha -pão e as contas chegam todo mês. A fama não vai pagar minhas contas. Então, quando o cara opta por viver disso, muitas vezes, ele se vende. Agora, quando nós montamos essa nova formação, foi algo que conversamos. “Se pintar uma oportunidade por ano para fazer um show legal, bacana, que a gente vai gostar, curtir, passar a vibração positiva para a galera e ganhar uma grana honesta, limpa, nós vamos fazer um por ano. Se forem dois por ano, a mesma coisa. Agora, se começar a chover shows e quiserem 10 shows por mês, nós não vamos fazer. No máximo, um show por semana.


Por quê?
Porque nós temos essa visão de que não adianta muita grana e você não ter tempo de usufruir do que ela pode lhe proporcionar, de estar com os amigos, curtir, tomar uma cerveja, estar com a família no fim de semana, e dar uma viajada para curtir uma cachoeira. Então, é um ritmo alucinante que fui vendo depois de muitos anos em que muitos artistas se colocam e penso: “Para que esse dinheiro?”.


Dinheiro não lhe domina?
De forma alguma. Eu estou num trabalho em que estou ganhando três vezes menos do que eu ganhava cinco anos atrás. Foi difícil me adaptar? Foi. Mas, hoje, aprendi a viver com o que eu ganho. E, se daqui para amanhã, eu passar a ganhar cinco vezes o que estou ganhando hoje, eu vou aprender a viver com aquilo que estou ganhando. Ainda não tenho o que eu quero. Ainda tenho sonhos a realizar. Eu não sei o que é dor de cabeça. Raramente eu adoeço. Passei por uns problemas de saúde este ano. Uma coisa pesada e tal. E também vi que estava ligado ao espiritual. Quando você volta, você atrai energias positivas, muita vibração. Mas você atrai muita alma sebosa, muita gente ruim que quer seu fracasso; então, estou me cuidando, mentalmente e espiritualmente, e as coisas estão andando e fluindo.


A cena cultural de Ceilândia é totalmente independente. Qual é o motivo dessa vocação?
Eu acho que o DF todo tem uma vocação cultural, porque nós temos gente do país e do mundo todo. As embaixadas estão todas aqui. Então, é uma mistura muito grande. Mas Ceilândia, pelo fato de ser a cidade mais populosa, apesar de a maioria ser de origem nordestina, a gente tem também tem muita gente de São Paulo, Minas, etc. Então, só aí, você tem vários tipos de culturas, de expressões culturais diferentes. A mistura de sotaques, contatos, conhecimentos, pessoas, de saudades, sentem saudades dos seus lugares e começam a fazer para relembrar, para mostrar para os mais novos como que era. Então acho que é isso. Eu sou apaixonado por Ceilândia, eu sou suspeito para falar.


Na área cultural de Ceilândia, o que você acha que precisa atualmente?
Precisa de muita coisa. Salvo o Sesc ou o shopping ali próximo, não tem um teatro na minha cidade, não temos cinema naquela cidade. Até hoje, não surgiu um empresário de visão que fale: “Bicho, eu vou fazer um cinema em Ceilândia, vou fazer um teatro em Ceilândia”. A Feira de Ceilândia é muito tradicional. Muita gente pode ficar com raiva de mim por causa disso, mas não me interpretem mal: se eu tivesse algum poder, eu demoliria a feira de Ceilândia. Tirava os feirantes, transferia, construía a feira provisória e fazia um mercadão central de Ceilândia, igual tem em São Paulo e em Porto Alegre. Com três andares, com uma claraboia no meio para receber luz o dia inteiro, com energia com placa fotovoltaica, captação de água de chuva, três garagens subterraneas, área de carga e descarga, etc. E trazia todos os comerciantes de volta com uma coisa mais organizada, mais bonita, que todo fim de semana tivessem artistas.


Muita coisa lhe incomoda lá...
Pesquisei por cidades do tamanho de Ceilândia, com a mesma população, 500 ou 600 mil habitantes. E mostrei para o governador eleito, inclusive as fontes que pesquisei. Cidades do tamanho de Ceilândia, com a mesma população, têm cinco, seis hospitais. Nós só temos um que funciona mal e porcamente. Outra coisa, se o nosso hospital é precário e nós mal temos o direito de nascer, também não temos direito de enterrar nossos mortos porque não há cemitério lá. Como é que a RA com a maior população, onde mais nasce gente, não tem um cemitério para enterrar dignamente seus mortos?


Propondo um exercício de futurologia: sobre o que você acha que estará cantando daqui a quatro anos, com base no que se apresenta hoje no cenário político brasileiro?
Tudo vai depender do que  acontecer nesses quatro anos. Mas não me vejo muito diferente, não. No conteúdo ali, o dedo na ferida, não tem muito como mudar.


*Colaborou Robson G. Rodrigues, estagiário sob a supervisão de Igor Silveira.
 
 
 
 

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