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Correio Braziliense

Exposição reúne 300 xilogravuras que vão do popular ao erudito

Mostra com artistas de destaque revela como a técnica se tornou importante nas artes visuais do Brasil


postado em 12/12/2018 06:00 / atualizado em 12/12/2018 07:16

Trabalho do contemporâneo Efraim de Almeida(foto: Efrain Almeida/Divulgação)
Trabalho do contemporâneo Efraim de Almeida (foto: Efrain Almeida/Divulgação)

A história da xilogravura no Brasil tem dois momentos importantes. O primeiro é quando a técnica ganha o mundo graças ao trabalho dos artistas da literatura de cordel. O segundo é quando o mundo das artes plásticas eruditas se apropria da técnica usada no cordel e traz para galerias e museus uma produção cheia de referências populares. Essa trajetória — que é particularmente brasileira, já que a xilogravura é praticada desde a China milenar e não nasceu no século 20 — fica clara na exposição A Xilogravura popular: xilógrafos, poetas e cantadores, em cartaz no Museu Nacional da República.

Com curadoria de Edna Pontes e Fábio Magalhães, a mostra reúne 300 xilogravuras pertencentes ao acervo de Carlos Randolfo, galerista de Recife que, durante os anos 1970, ficou conhecido pela edição de xilos. Durante muito tempo, o nome de Randolfo foi uma referência para os xilogravuristas pernambucanos, até que ele deixou um pouco de lado a comercialização desse tipo de trabalho.

No ano passado, a também colecionadora e pesquisadora Edna Pontes soube que o acervo de Randolfo era vasto e ainda existia. “A partir daí, surgiu a ideia de fazer uma grande exposição”, conta. “É fascinante porque a xilo tem origem no cordel mas, a partir dos anos 1970, ela começa a ter uma vida própria no sentido de ser autônoma, mas com a linguagem e a temática das xilos feitas para o cordel.” Na configuração da mostra no Museu Nacional, ela e Magalhães optaram por dividir as obras em dois lotes.

De um lado, ficaram as xilogravuras de origem popular, assinadas por alguns dos maiores nomes da literatura de cordel no Brasil. Estão lá J. Borges, também personagem de um dos dois filmes exibidos durante a exposição, Dila, um especialista em cangaço e personagens diabólicos, e Mestre Noza, santeiro de Juazeiro do Norte que gostava de misturar os apóstolos e os mitos do Nordeste. Temas como o bem e o mal, os costumes e a religião, assim como personagens clássicos, caso de Lampião e de Padre Cícero, são comuns nessa produção que adora se debruçar sobre a mitologia do sertão nordestino. Nesse campo, Ceará, com Juazeiro do Norte, e Pernambuco se tornaram referências.

Calango na chuva, de J. Borges(foto: J. Borges/Museu Nacional/Divulgação)
Calango na chuva, de J. Borges (foto: J. Borges/Museu Nacional/Divulgação)
De outro lado estão o que Edna e Magalhães chamam de “os eruditos”. São nomes como Samico, que fazia apenas uma xilo por ano, Djanira e Efraim de Almeida, um contemporâneo cuja obra tem muita influência da cultura popular. Nesse lote está também o escritor Ariano Suassuna, com uma série baseada nos Sonetos de Albano Cervonegro.

Para cada um dos 10 poemas da série, o escritor criou uma xilo. “São muito lindas e muito coloridas”, avisa Edna. O pernambucano Gilvan Samico também é um destaque. “É um erudito que bebe na cultura popular. Ele tem uma elaboração e um preciosismo muito grandes no traço e na composição” diz a curadora. “Mas a influência do popular é tão grande que a linguagem é muito parecida.”

Parecida, mas com algumas diferenças. Na análise de Fábio Magalhães, há uma linguagem básica no cordel. “O que une a todos é uma poética que fala dessa questão popular, que são os mitos”, explica. A xilogravura para cordel é, basicamente, a ilustração de uma história, que é a fonte da narrativa. Com o tempo, o cordel passou por modificações e, a partir dos anos 1960 e 1970, a xilogravura começou a entrar em decadência.

Graças ao esforço de galeristas e curadores, a técnica acabou por despertar a atenção do mundo da arte erudita e passou por uma espécie de renascimento. Artistas contemporâneos começaram a se debruçar sobre esse tipo de gravura e, em muitos casos, a absorver elementos de sua origem popular. A produção se descolou do cordel e adquiriu outro tipo de espaço, dentro das galerias, dos museus e dos salões de arte. Na exposição, Fábio Magalhães fez questão de separar essas duas produções. “Para que o público perceba claramente o que é um mundo e o que é outro mundo”, diz.
 
A Xilogravura Popular: Xilógrafos, Poetas e Cantadores
Exposição de xilogravura. Curadoria: Edna Pontes e Fábio Magalhães. Visitação até 10 de fevereiro, de terça a domingo, das 9h às 18h30, no Museu da República 


Narrativas da tradição popular


No som ambiente: baião. O ritmo ajuda o público a mergulhar no universo de A xilogravura popular. Boa parte das obras remetem ao sertão nordestino e a ambientação foi feita de acordo. “Quando eu vejo xilogravura, penso logo no Nordeste (risos)”, confessa a estudante Letícia Rodrigues, 16 anos, nascida em São Luís (MA). “A xilogravura é bastante presente no Maranhão. Vim à exposição por acaso e acabei gostando muito. Fiquei um pouco surpresa, não esperava encontrar algo que é tão forte no Nordeste de cara aqui em Brasília.”

Letícia veio acompanhada pela amiga Agnes Farias, 16 e também maranhense. As duas estão em Brasília para prestar prova do Programa de Avaliação Seriada (PAS) a fim de concorrer às vagas da Universidade de Brasília (UnB).

“Existe uma desvalorização da arte em geral, mas sinto que isso é mais grave com a xilogravura”, lamenta Agnes. “É uma técnica pouco conhecida. Deveria receber mais atenção, porque representa muito bem a arte nordestina.”

Letícia Rodrigues em visita a exposição 'A xilogravura popular', no Museu da República(foto: Robson G. Rodrigues/Esp. CB/D.A Press)
Letícia Rodrigues em visita a exposição 'A xilogravura popular', no Museu da República (foto: Robson G. Rodrigues/Esp. CB/D.A Press)


Enquanto Agnes e Letícia estão bem familiarizadas com o estilo narrativo do cordel, o colombiano Daniel Valencia, 29, nunca tinha visto arte similar. “Parece um carimbo”, arrisca-se, acertadamente, ao observar as ferramentas utilizadas para prensar as gravuras.

Daniel nasceu em Medellín e faz doutorado em engenharia ambiental na UnB. Ele conta que não conhecia a técnica e que conseguiu se aprofundar melhor na cultura brasileira ao visitar a exposição. “Pelo que conheço da cultura brasileira, os quadros logo me remeteram ao Nordeste. Aos estados do semiárido, mais agreste”, comenta o estudante. “Quando li rapidamente a respeito, pensei que se tratava de arte mais abstrata. Agora vejo que as figuras contam histórias”, completa.

De acordo com o caderno de assinaturas, mais de 3 mil pessoas visitaram a exposição em menos de duas semanas em cartaz.

* Estagiário sob supervisão de Nahima Maciel

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