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Correio Braziliense

Entenda o movimento griô e a importância da ancestralidade na cultura

O movimento griô transmite ensinamentos, de geração em geração, por meio da oralidade


postado em 12/12/2018 07:10 / atualizado em 12/12/2018 10:29

Movimento griô se dedica a estudar e transmitir os ensinamentos da cultura afro-indígena brasileira(foto: Nara Oliveira/Divulgação)
Movimento griô se dedica a estudar e transmitir os ensinamentos da cultura afro-indígena brasileira (foto: Nara Oliveira/Divulgação)


“A tradição faz de nós aquilo que somos”. Albert Einstein ficou famoso nos estudos da física por teorias tão futuristas, que até hoje são difíceis de provar. Mesmo assim, a célebre frase deixa claro o quanto o alemão dava extrema importância à ancestralidade. Tendo como objetivo olhar para o passado como uma fonte de ensinamentos e cultura, o movimento de estudos de tradição griô joga uma luz na pouca representatividade acadêmica que a herança popular e afro-indígena sofre no Brasil, e especialmente em como mudar tal panorama.

O griô se baseia na tradição oral para a transmissão de vivências e saberes culturais de uma comunidade. O mestre griô é reconhecido por, coletivamente, transmitir ensinamentos de geração em geração, com  uma identidade própria de um povo, e inclusive com  uma potência expressiva  pedagógica em tais ensinamentos. “Quando dizem que você é um griô, significa que você se comprometeu a guardar as histórias, a guardar uma genealogia, e viver como um registro vivo, com instrumentos, elementos e rituais de iniciação. É como um historiador que trabalha com o canto e a memória”, explica Luciana Meireles, estudiosa acadêmica de vertente desta tradição oral, e membro da Casa Moringa, que realiza atividades e cursos sobre a pedagogia griô.

Na capital não é tão raro encontrar eventos, reuniões e atividades culturais que buscam debater, e especialmente, transmitir um pouco mais sobre a importância da tradição oral griô e como ela pode ajudar a contemporaneidade a resolver problemas olhando para o passado. De acordo com Luciana, usar da transmissão oral é um fenômeno mundial, mas que no contexto brasileiro guarda singularidades fundamentais: “O que existe aqui é a tradição do griô africano, que veio do Mali. É uma tradição de contação de história, que é passada de geração do pai pro filho. A pedagogia griô, criada na Bahia, se baseia no fato de que essa contação de história tem uma proposta pedagógica, na valorização da vivência das comunidades tradicionais, na tradição oral. E o griô é uma forma de organizar esse conhecimento, como se fosse uma biblioteca viva”.

Griô na academia

Se a tradição oral já tem importante espaço em comunidades específicas, o grande desafio agora é levar o griô à academia. Luciana explica que já existem projetos que buscam o estudo da tradição griô, como o programa Cultura Viva, centro de referência na Bahia que introduziu a estudante a tradição oral: “Em todo esse processo da diáspora africana, a figura griô se misturou  com as nossas tradições, temos muitas influências, mas ainda sem muitos registros, e essa ação está tentando fortalecer essa tradição ligando à educação, com a escola. Foi a partir dai que eu conheci essa rede e me identifiquei  muito”.
 
Mãe Cicera defende a tradição como uma forma de ensinamento (foto: Flavia Aguiar/Divulgação)
Mãe Cicera defende a tradição como uma forma de ensinamento (foto: Flavia Aguiar/Divulgação)
 

Luciana ainda completa sobre como a pedagogia griô é outra importante forma de sistematizar essa ancestralidade, dessa vez ensinando ao clássico sistema educacional racional e teórico: “A proposta da pedagogia é fazer uma ponte entre o conhecimento acadêmico e a tradição oral das comunidades brasileiras, dentro de um terreiro, na capoeira, em comunidades indígenas. E a pedagogia estuda como esses conhecimentos podem ser valorizados e reconhecidos, e que um complemente o outro e não para que a tradição oral seja superior, ou nada desse tipo. A escrita precisa da vivência, a escrita é o registro do que se viu. Você precisa viver para depois escrever, é o contrário do comum da escola, e a pedagogia reflete essa contradição”.

Colocar a tradição griô em foco também faz parte de uma quebra de preconceitos fortes da sociedade brasileira, segundo Luciana: “A gente vive um processo no nosso país de desqualificação do conhecimento oral, que é racista, que classifica isso como folclore, que diz que ‘é coisa do povo’ e inferioriza esses saberes. O trabalho que a gente faz busca esse reconhecimento, a gente não está falando de minorias, a cultura afro-indígena brasileira é maioria. A pedagogia griô se desafia a buscar na academia a desconstrução desses preconceitos. É perceber que a racionalidade precisa dessa reconexão com a ancestralidade na busca de novas respostas e soluções a desafios que a contemporaneidade colocou para a gente”.

Em busca de maior representação, o grupo organiza reuniões e debates(foto: Nara Oliveira/Divulgação)
Em busca de maior representação, o grupo organiza reuniões e debates (foto: Nara Oliveira/Divulgação)


Na prática

O Correio bateu um papo com mestres griôs para tentar entender como a atividade funciona na prática. Com 55 anos, a Mãe Cícera, moradora de Samambaia Sul, é uma delas. Umbandista, a mulher explica que a ação griô é composta por vários elementos, mas extremamente gratificante: “Nós temos a responsabilidade de manter viva a os ensinamentos da nossa ancestralidade. É muito difícil, porque a sociedade moderna sempre tentar excluir essa expressão. No dia a dia como griô eu sou benzedeira, ensino como tratar naturalmente algumas doenças de tempo, com banhos e orientações”.

Mãe também aponta como essa tradição oral faz parte da vida de muitos, mesmo que imperceptível: “Algumas coisas aqui no Brasil têm muita dessa ancestralidade, toda vez que alguém fala ‘vá tomar um chá com três ramos’, ou alguma coisa desse tipo. Isso já vem de um ensinamento antepassado, isso faz parte da vida do brasileiro, mas o que a gente busca é uma oficialização dessa cultura, queremos que isso entre nas escolas, que faça parte de um contato mais estreito com a sociedade, não queremos enfiar nada garganta abaixo de ninguém, queremos ensinar, conversar sobre o poder da informação dos nossos antepassados”.

Dona Santina ressaltou as amizades com outros mestres griôs (foto: Flavia Aguiar/Divulgação)
Dona Santina ressaltou as amizades com outros mestres griôs (foto: Flavia Aguiar/Divulgação)
 

Dona Santina, 58 anos, moradora de São Sebastião, também é uma mestre griô, e aponta  que a convivência entre os responsáveis pela tradição oral é importante ponto de formação  cultural: “Acho que já me reúno com mestres há mais de 12 anos. Na primeira vez foi em um viagem para Limoeiro do Norte (CE) e encontrei outros mestres. Acrescenta muito essa amizade, sabe? Aprendemos muito com os outros, aprendemos inclusive a como ensinar, como falar e fazer nossa contação de história, como ser griô”.

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