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Correio Braziliense

Quasar traz a Brasília espetáculo inspirado na bossa nova

Projeto é pontual e só foi possível graças a patrocínio


postado em 13/12/2018 06:30 / atualizado em 13/12/2018 08:02

Clássicos da bossa nova compõem a trilha sonora de 'O que ainda guardo'(foto: João Gabriel Hidalgo/Divulgacao)
Clássicos da bossa nova compõem a trilha sonora de 'O que ainda guardo' (foto: João Gabriel Hidalgo/Divulgacao)

 

Quando começou a pensar em um espetáculo inspirado em clássicos da bossa nova, o coreógrafo Henrique Rodovalho se animou. O movimento celebrou, em julho, o aniversário de 60 anos, e a Quasar foi fundada pelo coreógrafo há 30 anos. Enquanto pensava nos movimentos e na trilha sonora, Rodovalho se deu conta de outro detalhe: o Brasil passava por uma crise social e política séria, um clima muito diferente daquele vivido durante a bossa nova. Da combinação dessas reflexões nasceu O que ainda guardo…, em cartaz a partir de amanhã na Caixa Cultural.

No palco, 10 bailarinos se dividem entre movimentos nascidos dessas duas ideias de Brasil. Rodovalho embarcou no projeto a convite da Vivara, fabricante de joias que tem uma coleção inspirada no movimento. “Quando me convidaram, fiquei um pouco apreensivo. O país estava e está conturbado. Fiquei pensando: a bossa nova tem todo um estilo no sentido de uma leveza, traduziu muito uma época, o Rio de Janeiro da década de 1960. Mas depois percebi que, de alguma forma, com esse espetáculo eu poderia trazer uma leveza ou, de repente, um frescor, e me deu até certa alegria”, diz o coreógrafo.

A trilha sonora combina clássicos de Tom Jobim, João Gilberto, Vinicius de Moraes e outros. Estão lá Wave, Garota de Ipanema, Corcovado, Águas de março, Samba do avião, tocados sem pausa e dançados como se fossem histórias, narrativas. “São quase personagens, uma situação, uma ação, e passa mesmo por momentos completamente coreografados, de muitos movimentos, assim como coisas mais gestuais, e todos com características que trazem uma leveza”, avisa Rodovalho.


Movido pela observação e pela constatação do que se tornou o Rio de Janeiro, o coreógrafo altera a narrativa e insere, ao final, sequências mais enérgicas. A violência e o caos passam a encontrar lugar na combinação de movimentos mais tensos. Até então, os gestos estavam enraizados na vontade e no desejo. “Nesse momento, começam a surgir camadas de tensão, às vezes até no sentido de medo, os movimentos são um pouco mais densos e se percebe os bailarinos assustados, indignados”, explica o coreógrafo. “A gente brinca que forma um bolo e os movimentos começam a se modificar, ficam apreensivos, como se estivessem recebendo informações externas que vão moldando a forma. O movimento vai perdendo uma certa grandiosidade e passa para um estado de tensão e de apreensão.”

O que ainda guardo… é um projeto pontual na trajetória da Quasar Cia. de Dança. Em 2016, Henrique Rodovalho anunciou a suspensão dos trabalhos do grupo por falta de verbas. Durante quase três décadas, a Quasar funcionou como uma companhia de repertório contínuo e estruturado, com bailarinos contratados e sede fixa. No entanto, a falta de patrocínio levou a companhia a encerrar as atividades. Agora, o coreógrafo se dedica a montar os espetáculos em forma de projetos, quando encontra patrocínio. Foi o caso de O que ainda guardo…., que já passou por Rio de Janeiro, São Paulo, Palmas e Goiânia. Dos bailarinos de 2016, apenas uma está na apresentação deste fim de semana.

Rodovalho levou dois anos para aceitar o convite da Vivara. Tinha esperança de que a companhia se reestruturasse e que pudesse contratar novos bailarinos, mas acabou por mergulhar no projeto antes que isso acontecesse. Como forma de relembrar a trajetória do grupo, ele inseriu vários trechos de espetáculos anteriores. É uma maneira de manter a companhia viva. Rodovalho está inseguro quanto ao futuro da dança no país. “Não é uma das artes mais vistas, mas é uma das mais executadas, porque se dança em todos os lugares. O que eu vejo é que o momento da dança é de tentar se impor mais”, diz. “É um momento de até tentar mesmo. A dança é uma das linguagens que arrisca muito, temos artistas que estão no limite da provocação do que é arte, do que é dança, e isso é necessário. Enriquece a arte, a nossa cultura. Não podemos nos diminuir, ou amedrontar, temos que aproveitar isso com força para ver se essa demonização das artes que tem havido diminui.”



O que ainda guardo...

Da Quasar Cia. de Dança. Hoje e amanhã, às 20h, e domingo, às 19h, no Teatro da Caixa Cultural (SBS lotes 3 e 4). Ingressos: R$30,00 e R$15,00 (meia) 

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