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Correio Braziliense

Murilo Benício investe como diretor e intensifica relação com os fãs

Com 25 anos de experiência no audiovisual, o ator Murilo Benício anuncia os filmes 'O Beijo no asfalto' e 'Pérola


postado em 15/12/2018 07:30

Murilo Benício em cena do filme 'O animal cordial'(foto: Reprodução/Internet)
Murilo Benício em cena do filme 'O animal cordial' (foto: Reprodução/Internet)
O persistente sonho de estrear no cinema como diretor de uma adaptação de Nelson Rodrigues finalmente se concretizou para o ator Murilo Benício, que há três anos filmou O Beijo no asfalto. Com o filme nos cinemas, aos 46 anos, já engrena a segunda investida como cineasta, com Pérola (antigo sucesso de Mauro Rasi, nos palcos). Agitado, 2018 ainda foi o ano em que o carioca teve, como ator, outro trabalho nas telas da tevê: Se eu fechar os olhos agora, disponível para assinantes do Globo Play, serviço sob demanda da Globo e ainda inédito na tevê aberta. 

“Eu ainda não pude ver a série. Faço o papel do prefeito de uma pequena cidade, numa adaptação de livro do Edney Silvestre. É a história de um corpo achado, nos anos 1950, por dois meninos. Toda trama vem das circunstâncias dessa morte. Há todo um tom de suspense: ‘qual é a sociedade que forma aquele lugar?’”

Em tempos de definições e mudanças para o Brasil, Murilo joga luz sobre um autor que traz instabilidade e coloca em xeque acontecimentos nunca completamente digeridos pela nossa sociedade. Em primeiro plano, valores familiares, questionamentos de homossexualidade e uma saraivada de notícias falsas na imprensa. “Todo mundo ali (no enredo do filme) contribuiu de uma certa forma para o assassinato do protagonista. Há destruição de toda uma família — até o Arandir (papel central da fita) duvida dele mesmo”, avalia.

Em frente à carreira como um todo, Murilo também engasga em dúvidas. “Coleciono gente e períodos importantes na minha carreira desde o período em que fazia apenas teatro. Em vários momentos, fui feliz. Há sempre pessoas iluminadas que aparecem. Não saberia precisar nomes nem atuações específicas”, desconversa. Murilo se diz impressionado pela lembrança das pessoas de papéis como os de A favorita, Pé na jaca, Irmãos Coragem e das novelas da Glória Perez (O Clone e América). “Lançando o filme, volto a lidar com meu público direto. Houve quem lembrasse de personagens que até eu tinha esquecido. Isso dá uma medida de equilíbrio na minha carreira”, celebra.

Como vê o impacto da avaliação das pessoas sobre algo que você criou?
Claro que há expectativa em relação ao público, a como receberão o filme (O beijo no asfalto). Um artista não é esse cara tão autocentrado a ponto de fazer uma coisa só para ele mesmo. A gente faz uma obra de arte ou um longa cinematográfico ou uma peça teatral para tocar o espectador. Se não existe isso, a obra está errada. Eu faço o que me toca, esperando que isso toque as outras pessoas. Eu não quero vender para o espectador uma coisa que fiz porque acredito que aquilo vai ser sucesso, pelo dinheiro ou por achar que renderá espectadores. O caminho para o sucesso — que na maioria das vezes nem vem — num atalho, é o de expressar verdade.

O que o motivou a adaptar Nelson Rodrigues?
Há importância na adaptação. Vivemos num país em que os grandes não são lembrados. No resto do mundo, os grandes são cultivados e permanecem vivos. A gente vive uma sociedade que nada contra essa maré. Hoje você pode perguntar para o jovem na rua quem é Nelson Rodrigues? Tenho certeza de que, quem souber, de alguma forma, está ligado à cultura. Fora do universo das artes, não há noção de quem seja, mesmo sendo este cara importantíssimo pra gente. Minha motivação era manter um artista vivo, valorizar o que temos de bom. Como diretor estreante escolhi um filme que homenageia o ofício do ator. Quero que se entenda que ator é um cara que trabalha de verdade. Não dá para confundir: achar que ator é um cara que pega um papel com um monte de fala, decora e sai falando. Isso é uma profissão desvirtuada. O ofício do ator, nos últimos anos, ficou muito mais bagunçado. Antigamente existia um nível, um patamar que hoje não temos. Hoje, acham que qualquer um pode ser ator: mas não é! Vendo o Amir Haddad, numa mesa, com um texto do Nelson, tirando tudo o que há: suado, lendo, conversando com os atores, se tem entendimento de qual seja nosso ofício.

Atores preparados como a Fernanda Montenegro o deixam à vontade para  interferir nas interpretações?
Eu acho que Woody Allen fala uma coisa maravilhosa: há todo o mito ao redor do Woody Allen que ele não dirige os atores... Numa resposta, Allen falou: “Eu chamo atores maravilhosos para eu não precisar dirigir. É menos um trabalho que eu estou tendo” (risos). O diretor tem a função de direcionar: vou contar a história desta forma. Dá aos atores a atmosfera da trama e a proposta. É como numa música: os atores vão e criam sozinhos o personagem. Cada um dentro da música. Não interfiro em nada no processo de cada ator. Pra mim o processo é sagrado. O trabalho final é de cada um.

Cena do filme 'O Beijo no Asfalto'(foto: ArtHouse/Divulgação)
Cena do filme 'O Beijo no Asfalto' (foto: ArtHouse/Divulgação)


É perversão maior fazer um texto do Nelson sem apelar para a nudez (risos)?
É verdade (risos). Tinha até uma cena que há certa indicação de que a personagem Dália estaria sem camisa. As atrizes fizeram teste sabendo disso. Durante o processo das filmagens, achamos que seria desnecessária a nudez.

Você parece mais maduro do que anos atrás. A segurança limou até a sua gagueira?
Não. Uma coisa é fato: eu sou gago. O que acontece é o seguinte: existe uma timidez, né... A gente aprende a lidar com isso. Não é uma coisa que vai embora. Sabe que é muito interessante essa história de gagueira, né: é cem por cento de fundo emocional. É tudo emocional. E eu posso até dizer que hoje eu não sou mais gago. Agora, com a minha família... Eu sou completamente gago.

Incomoda a constante exposição necessária aos atores que mergulham numa imprensa marrom?
Eu sempre encarei a indústria dos paparazzi, da foto roubada da intimidade, sempre notei ela muito agressiva e muito má. O paparazzi tira 16 fotos suas e pode ter certeza de que ele vai escolher a pior para botar na revista. Então, é quase que um ódio que não me interessa. Meu desrespeito é absoluto em relação a essa classe. Por isso que às vezes eu posto em Instagram, porque eu acho que o Instagram é o fim dos paparazzi. Se eu posso tirar uma foto íntima minha, no meu quarto, que paparazzi vai ter essa proeza? Só eu mesmo. E eu posto para os meus fãs, eu posto para as pessoas. Acho legal o momento que a gente chegou, em que, pode, sim, matar a vontade ou curiosidade dos fãs. Saber onde a gente está passando umas férias, como foi o nosso Natal: que a gente faça de uma forma direta, sem intermediação de quinta categoria.

As pessoas cultivam uma expectativa em relação a tua imagem de bom moço, ou não?
Nas escolhas de personagens eu não posso ser confundido: há quem eu seja e há os personagens. Há sempre a divisão. Minhas ações e como eu sou com as pessoas e meu caráter —  nada disso tem a ver com a escolha de meus personagens. Eu tento me diversificar o máximo possível. Depois de 25 anos, parece que você já fez quase tudo, de tudo quanto é jeito. Como continuar se renovando? Você entra em projetos que nunca fez, com personagens interessantes. Não tenho a preocupação do que o meu público vai pensar por eu estar fazendo este filme ou aquela peça. Tenho é que fazer com verdade: entregar um trabalho de qualidade.

Como se relaciona com Brasília e como vê o poder?
A maior relação que tenho com Brasília está nas bandas dos anos 1980. Foi uma curiosidade gerada pela capital que tivemos. Ver as bandas chegarem, com sucesso. Eu tenho expectativa, antes de mais nada, de ser surpreendido. De uma forma boa, já que não se espera uma coisa boa para a cultura. As pessoas acham que cultura é supérfluo. Mas, um povo sem cultura é um povo sem identidade. A gente vai viver do quê? Da cultura dos outros? A gente vai viver de filme americano? A gente vai viver de manifestações da cultura de outros países? Para um país, cultura é tão importante quanto educação e saúde. O movimento grande de oposição ao Bolsonaro está no fato de ele parecer a pessoa que não dá valor à cultura.

O que acha do novo governo?
Quero, de coração, ser surpreendido pelo Bolsonaro. Nunca fui, não sou PT, não gosto do PT, mas votei no PT por não acreditar no Bolsonaro. Mas mudamos o momento, principalmente depois das eleições lamentáveis que a gente teve, de ódio, dessa coisa absurda que vivemos. Não lembro de ver uma outra eleição desse jeito, em que pessoas da própria família brigavam. Quero que o Bolsonaro venha com uma coisa diferente, que ele prove que a gente estava errado. Toda luta contra ele, era o medo de se perder a cultura. Não é nem muito governo, negócios, a economia. Estávamos muito preocupados do que será feito com a cultura. Já não se cuida dela, normalmente, pelos mais baixos orçamentos reservados ao setor. A gente tem que pensar agora que o Bolsonaro é um cara que joga no nosso time. Ele é o presidente do meu país. Sinceramente, vou torcer para que dê certo. A gente tem que pensar num todo. Eu não penso particularmente só em mim. Penso em quem estuda pra caramba — penso na dureza que é viver de cultura neste país.

Em que mais investe quando o assunto é a educação dos seus  filhos, Antonio e Pietro? 
Educação se dá em casa. A gente lembra muito ou imita de forma inconsciente atos e pensamentos dos nossos pais. São figuras importantes na nossa vida e há muito dito em casa. Nossos comportamentos indicam para nossos filhos o que pensamos das coisas. Crio meus filhos da melhor forma possível e até acho que recebi uma educação muito machista. A gente regride, regride, regride e dá de cara com uma sociedade completamente machista... Comecei a estudar teatro aos 11 anos de idade. Muito cedo tive contato com a diversidade: vi classes sociais diferentes, cores diferentes, gente de gosto diferente. Comecei a achar aquilo um barato. Conheci todos estes doidos, desde pequeno, então abri muito minha cabeça para o mundo. Questionei sempre muita coisa, inclusive a minha educação. Valorizo tudo de bom dos meus pais, especialmente o amor — e meu pai é insuperável nisso; e o que a gente não quer mais, a gente recicla.

Como são os bastidores dos atores Murilo e Débora Falabella, na vida real?
Por incrível que pareça a gente eleva muito o trabalho um do outro. A gente pensa igual, de forma diferente. Isso aconteceu no Nada será como antes e em Avenida Brasil. A gente estuda junto. Estou terminando de montar meu segundo longa, Pérola, e a Débora vê todos os frames. Sonho em apresentar esse filme no dia das mães. É baseado em peça do Mauro Rasi, que foi um marco no teatro dos anos 1990, com muito sucesso. Já vamos para um segundo corte, para corrigir o que eventualmente não estiver funcionando. Depois será trilha sonora, virá a mixagem e lançaremos o filme.

O que espera da fusão de vitrines para o audiovisual?
Rapaz, você sabe o que é um tsunami? Não sabemos o que ficará de pé quando o primeiro momento passar. É uma revolução que não aponta direito para onde vamos. Sabemos que o espectador não é mais comandado pela tevê. Ele determina o programa e a hora em que pretende ver algo. Resta saber como as coisas serão assistidas.

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