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Correio Braziliense

José Alvarenga Jr aposta no cinema autoral e na reflexão

Em cartaz com Intimidade entre estranhos, o cineasta fala ao Correio sobre a busca pela profundidade


postado em 16/12/2018 07:00 / atualizado em 16/12/2018 09:31

A brasiliense Rafaela Mandelli é um dos destaques de 'Intimidade entre estranhos'(foto: Migdal Filmes/Divulgação)
A brasiliense Rafaela Mandelli é um dos destaques de 'Intimidade entre estranhos' (foto: Migdal Filmes/Divulgação)

 

Há 30 anos embrenhado no segmento audiovisual, o diretor José Alvarenga Jr. —  conhecido por programas de tevê, como Os normais, e por filmes de Os Trapalhões —  não tem dúvidas: cada projeto tem um tamanho de público. “Cada produto encontra seu público. Não há tática a ser seguida na criação; a gente intui. A gente (na tevê) não tem acesso à informação do que pensa ‘a massa’. Isso é uma grande invenção. Nunca sabemos o que o público quer”, dispara, sob qualquer especulação quanto aos seus objetivos.

 

Na mira para cinema, com  Intimidade entre estranhos valem as mesmas regras — “pensei nas minhas inquietações e nas pessoas do meu círculo; a gente nunca sabe para que lado a moeda vai cair, na receptividade pelo público”, diz. Feito em 18 dias, mas idealizado há 10 anos, o filme surfa na carga autoral e no espírito de curta-metragem, com riscos assumidos. A ideia era acessar “corações e mentes dos outros”.

 

Simbolicamente, uma caixa de proteção, que serve como redoma para o personagem de Gabriel Contente, Horácio, fez parte da vida do diretor. Separações e traições abastecem Intimidade entre estranhos. No roteiro entraram muitas histórias pessoais dele, do corroteirista brasiliense Matheus Souza e dos atores, entre os quais a brasiliense Rafaela Mandelli e Milhem Cortaz. “Rude e ríspido, Horácio propõe o conflito para a vizinha Maria (Mandelli) porque, ao ouvir as músicas dele, ela recebe estímulos inesperados. A música tem função narrativa: Frejat e Leone escreveram oito músicas para o filme, e o Gabriel Contente canta quatro delas com o coração”, explica o cineasta.

 

A percepção do conservadorismo atual, na maneira de encarar a vida, fortalece a proposição de mudança apregoada no texto de Intimidade entre estranhos. “A vida é diversa, plural, tensa, feita de muitas dores e de alegrias. Em currais, que estabelecemos como defesas, ficamos protegidos até decidirmos nossos próximos passos. O problema está nas pessoas que têm fugido dos passos. Nunca estará bom do jeito que está hoje: nossos desejos são inconstantes e soberanos, são imperiosos, assustadores. Entretanto, insistimos no sonho burro de não viver os desesperos que os desejos trazem”, comenta o diretor. Por sorte, o cinema traz a espécie de abandono do mundo que Alvarenga valoriza: “o cinema leva você para o encontro de outro mundo. Ele nos aproxima da fogueira que pede escolhas, exige da gente um olhar focado”.

 

 

 

Trancados no passado, com ideias sólidas, os personagens do filme revelam ganhos do mundo bagunçado, estabelecido no contato com o outro. “Na situação do filme, personagens saem do prumo, do pré-concebido que tanto parece nos favorecer. Não acho interessantes pessoas de desejos pequenos e aguados. No filme, aparecem os desejos livres e a perda de controle. O encontro com a diferença é o que estabelece o repertório de histórias futuras, para contarmos. Assim, nossas vidas ficam interessantes. Sou da geração dos anos 1970 que se encaminhou para isso. Acho, por exemplo, uma loucura, na atualidade, discutirmos políticas sobre o que ensinar em sala de aula. Impedir a reflexão não faz sentido num mundo que não para de correr”, avalia José Alvarenga Jr.

 

Profundidade

 

Um filme fundamental para a geração de Alvarenga, Verão de 42 deu referência para o atual longa nacional presente nas telas. “Vi em 1972, em Petrópolis, no cinema Mirage. Com 12 anos, achei tudo muito marcado, pela tensão sexual apresentada: numa casa de veraneio, uma mulher linda e inatingível (Jennifer O´Neill) se vê desamparada com a morte do marido. O rapaz do filme (Gary Grimes), longe do esperado, perde a virgindade com ela, ao som de uma música inesquecível do Michel Legrand. A vida tem umas incoerências que podem ser favoráveis com alguns”, observa o diretor de Intimidade entre estranhos. Ganhador do Oscar de melhor música, o filme Apenas uma vez (2007), pequena realização entre músicos na Irlanda, támbém nutriu o longa nacional, pela inclusão de histórias pessoais dos realizadores e do elenco, num filme feito de interação entre a equipe e de “trocas sinceras”.

 

Pai de quatro filhos, Alvarenga Jr. preza o fato de curtir a natureza, ora surfando com os filhos, ora caminhando por trilhas ou colhendo frutos da fazenda. São vivências fundamentais que recolocam Intimidade entre estranhos novamente na berlinda. “O isolamento é uma tendência das grandes cidades. Andar pelas ruas de uma cidade como o Rio de Janeiro que tem uma natureza exuberante, ter acesso a praias e florestas — tudo muito perto —, e você vendo as pessoas de cabeça baixa, imersas no mundo do seu celular?! Apesar de dentro do celular você ter coletividade, com laços de amizade, ter oportunidades de trabalho — me impressiona ver como a vastidão do mundo parece não ser notada pelas pessoas. A realidade fora do celular, fora da bolha, sempre propõe uma troca e o inesperado. A falta de controle faz a gente se entender e criar uma reflexão — de o que a gente é ante o outro e vice-versa. Quando você se atém ao isolamento, você fica muito aquém dos seus sentimentos”, conclui.

 

 

 

A carreira sob ótica de Alvarenga Jr.

 

Mulher (1998)

"Foi uma espécie de pré-Sob pressão, em que as mazelas das classes altas e baixas se encontravam num ambulatório"

 

Os aspones (2004)

"Foi iconoclasta no retrato de funcionalismo público ineficiente. Não mostrei os funcionários empenhados, mas aqueles dos gabinetes criados em Brasília, para estarem em berço esplêndido. Tudo em favor de governos com interesses imediatos que ajudam amigos”

 

A diarista (2004)

"O público comprou e se identificou com a produção, centrada nas empregadas domésticas, e que foi feita com respeito e sem muita caricatura. A gente pesquisou muito entre os roteiristas. Deixávamos claro como se formava a reprodução da casa grande e da senzala no Brasil”

 

Força-tarefa (2009)

"Criticava a polícia, com enredos de crimes maquinados até por policiais"

 

Divã (2009)

"Foi uma comédia romântica com drama, a famosa dramédia”

 

10 segundos para vencer (2018)

"Concentramos, na obra de cinema, nas nuances da relação pai e filho do Éder Jofre e do pai dele. Tem questões de se repassar o bastão, da proteção, da reverência e do rigor do pai dele. Ainda lidamos com o gênero do filme de boxe, com obras referenciais e energia potente. Será uma série da Globo, mostrada a partir de 8 de janeiro. Público é um sujeito, na exibição em cinema, ele tem que vencer obstáculos para entrar numa sala de cinema. Na tevê, talvez tenhamos um resultado como o de Entre irmãs (2017), um épico muito bom do Breno Siveira que, nos cinemas fez 50 mil, na tevê atingiu 70 milhões de pessoas”

 


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