Publicidade

Correio Braziliense

Trio sergipano The Baggios investe em originalidade, com novo disco

Vulcão traz tempero a mais no caldeirão de blues, rock e música nordestina que já é conhecido entre as criações do trio The Baggios, que concorreu ao Grammy Latino


postado em 18/12/2018 06:46

O trio The Baggios(foto: Antonio Portugal/ Divulgação)
O trio The Baggios (foto: Antonio Portugal/ Divulgação)
 
 
Inquieto assumido, o guitarrista Julio Andrade buscou por um “tempero a mais” para o novo disco do The Baggios, Vulcão. Ao som do trio sergipano, marcado por blues, rock e música nordestina, foram incluídas referências da música feita no norte da África e em parte do oriente. Dois expoentes da música brasileira contemporânea entraram para a mistura : Baianasystem e Céu colaboram em duas das 11 faixas do novo trabalho. O lançamento sucede, com dois anos de diferença, o disco Brutown, indicado ao Grammy Latino em 2017 na categoria melhor disco de rock ou música alternativa.

Julio Andrade conta que passou por longa pesquisa para compor as faixas de Vulcão, quarto disco de estúdio do grupo. Durante os três últimos anos, ele estudou o blues feito no deserto do Saara e o rock psicodélico da Turquia, sem deixar de se aprofundar na música nordestina, que toma como principal referência.

“As músicas têm batidas muito definidas pelo desert blues (ritmo desenvolvido no norte da África), assim como uma pegada árabe, que tem muito a ver com as escalas usadas nas violas caipiras, nas violas sertanejas e na música nordestina também. O disco acaba fazendo a mistura desses elementos, sempre mesclados com coisas mais nossas”, explica o guitarrista, fisgado para o desert blues ao se deparar com músicos como Bombino, influente guitarrista e compositor tuaregue. “Essa turma me mostrou uma outra forma de tocar guitarra que lentamente estou aplicando na música. Nesse disco, aparecem algumas coisas, junto a sons árabes.”

A mistura parte da vontade de inovar do músico. “A cada disco, a gente tenta se reinventar, sair da zona de conforto”, conta. “Brutown deu certo, todo mundo curtiu, ganhou indicação ao Grammy e a outros prêmios, mas não é por isso que vamos nos prender àquela fórmula do disco. Para mim, não faz sentido eu me repetir, estar me copiando. O que mais me dá tesão na música é a imensidão de possibilidades que ela me traz”.

Ele cita como influências a fase psicodélica de Rita Lee junto ao Tutti Frutti, Zé Ramalho e Jorge Ben, entre outras, que, para ele, seguem sem par de igualdade. “Até hoje ninguém fez nada igual ao que eles fizeram e isso me instiga a seguir esse caminho. Não que eu me sinta à altura de fazer algo extremamente novo, mas quero trazer uma novidade, alguma coisa relevante para somar à música brasileira.”

Para a canção Deserto, muito inspirada pelos músicos africanos, ele convidou o grupo Baianasystem. A canção faz referência direta ao blues do deserto, ritmo de “batidas frenéticas, som dançante, mais umas guitarras sempre passeando e dando a malemolência da música”. O grupo baiano fez inserções nas músicas. “Vieram só a somar, com a linguagem eletrônica ali no meio e a letra que o Russo Passapusso escreveu”, diz.

A afinidade com Baianasystem não era novidade. A parceria com Céu, por outro lado, foi uma surpresa. Andrade conheceu Céu, de quem ganhou elogios, em um show. Tempos depois, ele apresentou   à cantora a canção Bem-te-vi, pensada, desde o início, para um vocal feminino. “Ela disse, ‘cara, essa música eu tô ouvindo o tempo todo’, acho muito linda. Aí a convidei para participar. Ela topou e fez bonito pra caramba”, relata.


* Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco 

Duas perguntas / Júlio Andrade

O público ainda tem resistência com o rock nordestino?
A música, em geral, vive constante mudança. Acho que algumas bandas do Nordeste estão saindo daquela fórmula engessada do rock, ganhando uma notoriedade em espaços que não estavam sendo preenchidos na música brasileira. Não vejo a Baggios como uma banda de rock simplesmente. Acho que a gente tem uma essência rock e blues, pra caramba. O Nordeste tem um mercado um pouco mais fechado nesse sentido, apesar de ter vários ótimos festivais. Se pensar em circulação o ano inteiro, você não consegue se manter no Nordeste. 

Como foi essa parceria com Céu e Baianasystem?
Nesse disco, eu me desprendi totalmente de uma fórmula. Para mim, quando o disco tem linguagens, ritmos, atmosferas diferentes, é que eu mais piro. Então, para cada música, procurei fazer um ambiente, o que tornou algumas músicas um pouco diferentes das do Baggios. Entre elas, Bem-te-vi, que compus tentando criar algo mais suave. O resultado me lembrou muito a voz da Céu. O convite surgiu depois de pronta, mas era uma música em que eu imaginava a participação de uma mulher.
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade