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Correio Braziliense

Professores e alunos estão confiantes com a nova gestão do Dulcina

Recuperação da instituição é lenta, mas já é visível


postado em 24/12/2018 06:30 / atualizado em 06/02/2019 19:47

 

Fernando Guimarães (centro), professor e diretor do teatro, está confiante na nova gestão da faculdade (foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)
Fernando Guimarães (centro), professor e diretor do teatro, está confiante na nova gestão da faculdade (foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)
 

 Treze de dezembro, quinta-feira, encerramento da 28° edição da Mostra Dulcina — projeto que apresenta ao público os trabalhos de conclusão de curso dos alunos de teatro da Faculdade Dulcina de Moraes.  “Concentração, gente!”, diz o professor de artes cênicas Fernando Guimarães aos estudantes eufóricos durante o ensaio de um espetáculo que vai ser apresentado naquela noite.


Todo o prédio do império de Dulcina de Moraes parece ser um local sagrado para quem trabalha e estuda lá. E, depois que uma nova gestão começou a tomar conta de todo o complexo cultural — que inclui a Faculdade de Artes, o Teatro Dulcina e a Fundação Brasileira de Teatro —, os alunos e funcionários ajudam na manutenção do espaço e fazem um grande esforço para que a mudança que a nova gestão trouxe, não seja algo passageiro.

Desde 1996 como professor da faculdade, Fernando Guimarães pode dizer que vê uma diferença muito grande em todo o ambiente.“É uma gestão que está muito preocupada e com muita vontade que isso aqui dê certo. A faculdade está limpíssima e pintada. É um lugar que hoje dá gosto de entrar”, elogia.

É notável o clima de esperança entre os funcionários e os alunos. No entanto, ainda que o avanço nas condições de trabalho seja um fato e o funcionamento da instituição esteja melhor, o cenário ainda não é o ideal. Com uma dívida atual de mais de 20 milhões e com o risco de ter as portas fechadas, a Faculdade Dulcina de Moraes conseguiu se reerguer, mas a passos pequenos.

Em 22 de janeiro, Christiane Ramirez assumiu o posto de secretária executiva da instituição e, desde então, cuida de toda a parte de extensão, eventos e gestão administrativa, o que inclui setores como financeiro, recursos humanos e infraestrutura do local. “Eu nunca tinha pegado um  lugar com tantos problemas. Nós temos problemas tributários, fiscais, administrativos, de condução e trabalhistas. Nunca foi feita a divisão do complexo cultural e da faculdade, por exemplo”, explica Chris, como é conhecida por todos.

Localizada no Setor de Diversões Sul, no Conic, todo o complexo cultural de Dulcina de Moraes  passa por dificuldades financeiras e negligências há anos. “Eu acho que quem esteve aqui antes não contava com a nossa força para continuar. E eu acho que eles deixaram isso aqui pronto para fechar mesmo. Eles queimaram completamente o CNPJ da instituição, receberam recursos públicos, mas não prestaram contas ou, quando prestaram, elas não foram aprovadas”, afirma Chris.


R$20 milhões
Valor atual da dívida da Faculdade Dulcina de Moraes


"Eu acho que quem esteve aqui antes não contava com a nossa força para continuar. E eu acho que eles deixaram isso aqui pronto para fechar mesmo”


Christiane Ramirez, 

secretária-executiva do Teatro e Fundação Dulcina


"É uma gestão que está muito preocupada e com muita vontade que isso aqui dê certo. 
A faculdade está limpíssima e pintada. É um lugar que hoje dá gosto de entrar”


Fernando Guimarães,
professor da Faculdade Dulcina

 

Fazer o mínino é um grande avanço  

 

Com a entrada da nova gestão, o complexo Dulcina passou por diversas mudanças no decorrer de 2018, incluindo pintura, limpeza, revitalização das cadeiras do teatro e dos quadros brancos nas salas de aula. “O primeiro semestre foi para retirar lixo, organizar seguranças, deixar o lugar em  condições de trabalho para os professores e para os alunos. A gente conseguiu fazer em dois meses. Sem dinheiro, juntando os cacos e a força de trabalho mesmo”, conta a secretaria executiva.


Para o estudante de artes cênicas Logan Dias, as mudanças deste ano foram as mais radicais desde que chegou à Faculdade, em 2015. “Quando eu cheguei, via a instituição muito bagunçada, entrava no prédio quem quisesse. Agora, tudo está sendo bem mais rígido e isso é ótimo. O teatro está bem mais limpo, as salas pintadas, a nova gestão trabalhou muito nesse sentido”, relata o estudante.

Chris Ramirez explica que a prioridade era reorganizar a faculdade. Primeiro, porque é a fonte principal dos recursos graças às mensalidades pagas pelos alunos. A partir de abril, foi a hora de reorganizar todo o complexo cultural para começar a alugar o Teatro Dulcina e receber mais verbas. Os valores obtidos dos espetáculos e eventos são destinados para a manutenção do prédio de cinco andares e dois subsolos. “Estava praticamente abandonado”, revela Chris.

E, mais que isso, o pagamento dos funcionários começou a ser realizado dignamente com o tempo. “A faculdade estava, praticamente, há seis anos sem pagar os funcionários. Eles faziam assim: entrava uma grana e dividia R$ 300 reais para cada um, o que é completamente fora de qualquer processo legal”, lamenta Chris.

Além do físico

O estudante Logan explica que, há três anos, quando entrou na Faculdade de Artes, a família não o levava a sério e, às vezes, nem ele mesmo acreditava muito em um avanço profissional.  “Agora, dá uma esperança de ter uma carreira, que eu não sei se não tinha antes. E eu acredito que, no âmbito profissional, já está ajudando, já que a gente trabalha na produção das peças que, além de trazer um aprendizado muito importante, acabam fazendo com que alguns diretores te reconheçam”, conta Logan.

Para Adair Oliveira, ex-aluno e agora professor de artes visuais e cênicas da Faculdade, a grande mudança na gestão é a preocupação em transformar o espaço em local de produção de cultura e geração de pensamento estético. “Eu vejo que querem tornar e levar isso como um produto cultural: é arte, mas é um produto. E, além disso, deixar esse espaço com uma identidade de Brasília”, afirma Adair.

Segundo o professor, além de ser uma união de forças físicas para não deixar o prédio desabar, o significado imaterial que o complexo Dulcina tem para todos os envolvidos é o que fez a mudança acontecer. “Acho que todo mundo teve a coragem de dizer ‘vamos dar as mãos e vamos mudar isso aqui juntos’”, relata Adair Oliveira.

O professor Fernando Guimarães se diz esperançoso para o próximo ano letivo. “Eu acho que 2019 vai ser um ano bom, mesmo com todas essas questões com os novos governos. Tem uma corrente muito positiva nossa aqui e eu acho que isso significa muito”, acredita.

 

 

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