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Correio Braziliense

Filme com Paulo Gustavo e Mônica Martelli estreia nas telonas

Longa Minha vida em Marte brinca com a audácia das mulheres de quebrar paradigmas. Confira entrevista exclusiva


postado em 25/12/2018 07:12

(foto: Ique Esteves/Downtown Filmes - 17/6/18 )
(foto: Ique Esteves/Downtown Filmes - 17/6/18 )
 
 
São Paulo (SP) — A ruptura de um casamento é apenas uma das frentes de temas propostos no longa-metragem Minha vida em Marte, que chega aos cinemas, hoje, com ênfase em temas pertinentes para as mulheres da contemporaneidade. “Romper casamento é algo muito importante de ser falado, poque, dentro de uma sociedade machista, como a em que vivemos, uma mulher separada, depois dos 40 anos, vai ficando invisível”, observa a atriz e roteirista Mônica Martelli, autora do monólogo que foi adaptado para a telona. Mônica, ao lado do ator Paulo Gustavo — um verdadeiro ímã de público para as comédias nacionais — é a razão de ser do filme. “Ela é uma comediante e das bem-humoradas, para tudo na vida. Não teria como contarmos histórias, a não ser trazendo muito humor”, endossa a diretora do filme, Susana Garcia, irmã da atriz.

Aos 50 anos, Mônica tem pontos francamente associados à protagonista do filme, Fernanda, que resolve colocar na balança aspectos da relação junto ao marido Tom (Marcos Palmeira). Entre análises introspectivas e vivências agitadas, Fernanda projeta questionamentos brotados na maturidade de Martelli. “A parte cruel (de envelhecer) é a de vivermos numa sociedade extremamente machista. No Brasil, temos uma adoração, uma veneração pela juventude: você vê criança de nove anos e velhas de 70 anos se vestindo que nem adolescente — todo mundo com a mesma roupa (risos). É uma busca eterna pela juventude. Uma mulher na nossa sociedade machista, sem um homem ao lado, é desvalorizada. Para ficar solteira, aos 45 anos, tem que ser uma feminista. Uma mulher que não tenha medo de romper e ficar sozinha. E é inspirada em mim que eu sou esta pessoa”, diverte-se.

Na opinião da diretora de Minha vida em Marte, um dos componentes para o sucesso de Martelli e de Paulo Gustavo — que, em três filmes do passado, já somaram quase 16 milhões de público — está na relação equilibrada e na cumplicidade estabelecida por ambos. “Não existe competitividade. Isso, nem na vida, nem quando estão em set de filmagens. É uma coisa difícil, principalmente quando você tem dois protagonistas juntos no cinema”, enfatiza Susana.

A amizade despontou há 13 anos, desde a estreia da peça Os homens são de Marte (no Teatro Cândido Mendes). “O Paulo me viu no palco quatro vezes, chegou e disse: ‘Meu nome é Paulo Gustavo, queria te mostrar um projeto que vou fazer: é uma peça chamada Minha mãe é uma peça’. Nós temos uma trajetória muito parecida. Somos autorais e obtivemos nosso reconhecimento profissional por meio das nossas peças. Fomos para canais de tevê, mas, a cabo, com nossos projetos. A gente tem enorme afinidade. É uma trajetória off: a gente se fez pela gente. Isso nos aproximou muito. O que você é em cena, no novo filme, é o que a gente é na vida”, comenta Mônica Martelli.

Para a atriz, o humor resulta da forma como encara a própria trajetória. “Passo por coisas na vida que, depois de um distanciamento — quando olho para trás — naturalmente, conto essas experiências de forma engraçada”, diz. Nos textos das peças, prevalece sempre o humor de situação. “No filme, a gente  conta muitas piadas, mas que vêm contextualizadas. Sempre tudo está a serviço de uma história. Acho que piada ruim é aquela que a gente não acha engraçada (riso). Forçar a piada é uma coisa péssima”, avalia Martelli. Numa velocidade de timing coordenado, ela explicita a naturalidade de uma piada: “‘Cê tava onde Aníbal (o personagem de Paulo Gustavo)? — Tava na Gucci; mas fazer o que na Gucci, se você não tem dinheiro?! Sim, mas eu tava lá olhando — que nem se fosse museu’”.

Parece improviso

“Flui tão natural o que a Mônica e o Paulo fazem juntos, que parece ser tudo improvisação, e não é!”, explica a cineasta Susana Garcia. Para as peças de Martelli, por exemplo, a dedicação é de oito horas de ensaio diário, ao longo de quatro meses. “Até na posição de um braço, no palco, há estudo da Mônica”, diz Susana. A diretora adorou a experiência das filmagens em Nova York propiciadas pelo filme. “Foi maravilhoso. Primeiro, porque, no contexto do filme, já há uma situação superinteressante: o Aníbal resolve levar a amiga que está solteira pra se distrair. Então, já de cara, joguei os personagens na Times Square”, conta a diretora. “Foi uma diversão só! Me senti no Sex and the city, me senti a Sarah Jessica Parker. Até na rua em que elas gravaram a série, a gente gravou”, conta a roteirista.

Reforçando o fato de Fernanda (Martelli) contribuir para o cenário das mulheres independentes, com a liberdade de amar quem venha a escolher, a atriz reforça a postura de marcar terreno. “Com a era Bolsonaro, precisamos estar atentos para não regredir em nenhum dos nossos avanços sociais. Uma regressão nisso é o pânico da maioria das pessoas. Tivemos avanços no feminismo que não têm mais volta. Existe uma tomada de consciência da maioria da população dos direitos da mulher. Com todas as hashtags e movimentos, não há volta. Em campanhas, várias lutas vão se encontrando. Delas, não haverá volta. Se alguém está pensando que terá volta; já está o nervoso aqui dentro (por mais luta)”, conclui.

O repórter viajou a convite da Downtown Filmes
 

Entrevista /Paulo Gustavo, ator

A franja do teu personagem é quase um coadjuvante na nova comédia: como interagiu com ela, e acha que a aparência ainda tem um peso forte em toda e qualquer conquista?
A minha franja é uma loucura — botava ela pra frente, caía pra trás. Deitei e rolei com aquela franja. Eu tenho uma intimidade grande com peruca, porque me adapto e me aproprio da peruca. Fica parecendo que o cabelo é meu. Divirto-me muito, porque peruca ajuda a gente a construir personagem. Tem personagens que, primeiro, vem a peruca, e depois, o personagem. Quanto à primeira coisa que desperta um tesão na gente, é o visual, né? Claro que, às vezes, depois, o visual não se sustenta. Se a pessoa não tiver um a mais, uma inteligência. Se não for sedutora, sensual, carismática, se não for legal e espirituosa, a gente desanima. A beleza só, em si, não sustenta um relacionamento. Tem relacionamento que começa com a inteligência: às vezes, a pessoa nem é tão bonita, mas fica linda por ser muito inteligente. A pessoa pode ser linda de cara, padrão, mas depois a gente enjoa. Beleza, recorrendo ao clichê mesmo, é beleza interior — é a melhor que há. A gente, aliás, tem quebrado padrão. O que é bonito? É ter um cabelo liso, é ter enrolado; é ser gordo é ser magro; é ter olho azul, é ter olho verde; é falar grosso, fino? Bonito, hoje em dia, é você ser quem você é. Aceitar ser quem você é, ser divertido e saber lidar com as diferenças. A pessoa mais bonita incorpora tudo isso em si. Linda é a pessoa que vem com este combo: sem preconceitos, uma pessoa aberta a conhecer novos caminhos. A pessoa menos óbvia é a mais bonita.

Algo mudou, com a chegada aos 40 anos? Como está a disposição para “sair, beber e azarar”, como comentam os personagens do filme?
O que mudou nos meus 40 anos foi a minha maturidade. Já passei muita coisa na vida e hoje em dia tenho uma compreensão maior das coisas; sei mais o que eu não quero, sei o que tenho que fazer na estrada em que a gente vive e aprende. Com 40 anos, a gente tende a ser maduro. Com relação a beber, curtir e azarar: azarar, não azaro mais — tô quietinho, porque sou casadinho, bonitinho em casa e superfiel. Só azaro o Thales (marido) mesmo; então não preciso sair de casa: azaro na cozinha, posso azarar na sala, eu posso azarar ele na casa inteira (risos). Sair pra beber já não é a mesma coisa, desde os 35. Quando bebo, no outro dia, quando acordo, já não tô zero bala. Quando bebo, fica um dia meio dengue. Um corpo meio H1N1 (risos).

Morando em Nova York, percebe  que o furor brasileiro das compras desenfreadas tenha passado?
Amo Nova York. Tenho uma relação muito estrita com esta cidade. Parece que já morei por lá em outras vidas. Como em qualquer viagem, a gente tende a sair, a aproveitar para compras. Viagem é sinônimo de empolgação e de gasto: estamos noutra temperatura, noutra atmosfera. Agora, com o dólar a R$ 4, a cotação freia a gente. É difícil: o país em crise, quebrado — várias pessoas desempregadas, as lojas fechando. A gente fica meio assim: tem que guardar dinheiro, né? Não dá pra ficar desembestado, gastando muito. Eu já fui mais consumista, mas acho que hoje estou mais maduro com relação a isto. Hoje em dia minhas prioridades são outras. Claro que, sendo artista, vivo também da minha aparência — apareço nos programas, estou nos tapetes (de premiações). Existe sempre uma cobrança de ter que usar uma roupa mais bonita, mais transada. Com o país em crise, acho que é chiquérrimo repetir roupa — é modernésimo.

Na convivência com os americanos, sente que eles sejam mais resolvidos com relação à sexualidade alheia?
Nova York fica sendo o centro do mundo: se vê pessoas de tudo que é lugar, então elas estão mais atentas a outras coisas — com olhar e percepção não voltados à sexualidade em si. Nova York é mais relaxada e antenada neste sentido. Para um casal de homens dando as mãos para passear as pessoas olham menos do que quando, aqui, você dá mão para um namorado em Ipanema. A gente está evoluindo, acho que caminhamos para isso. Quanto ao caráter do hétero, o mundo tem evoluído. A nova geração está vindo mais fluida, as pessoas não são nada — elas estão sendo. Podem mudar, a qualquer momento. Sou megaconfiante que caminhamos para um mundo melhor: a cada dia que passa, a gente sobe um degrau.

O que te mantém tão amigo do grande público e da Mônica Martelli?
O que me deixa tão amigo do público é que sou muito fiel nos meus personagens. Gosto sempre de contar a vida real. Isso me aproxima cada vez mais do público. Eu também sou público. Meu público e eu somos uma coisa só: por isso a gente se identifica tanto. Com a Mônica, acontece o mesmo — somos pessoas parecidas. Temos meta e olhar para o mundo muito similares. A gente divide uma amizade que é emocionante. Sou muito fã dela, não só como artista, mas como ser humano. Estou sempre atento ao que ela precisa. Sou um amigo muito parceiro. Estou sempre muito perto dela. Temos uma generosidade: posso contar com ela e vice-versa. Hoje, sou praticamente um irmão da Mônica.

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