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Correio Braziliense

Ao Correio, escritor Lourenço Cazarré fala sobre paixão pela literatura

Cazarré conta histórias, processo de criação e Brasília. E dá uma receita irreverente para ganhar prêmios


postado em 29/12/2018 07:00

"Tornei-me um leitor compulsivo aos nove anos de idade, quando passei a frequentar a Seção Infantil e Juvenil da Biblioteca Pública de Pelotas" (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
O escritor e jornalista gaúcho/brasiliense Lourenço Cazarré é um colecionador de prêmios. Em 2018, ampliou o acervo com mais três: venceu o Prêmio Literário Biblioteca Nacional, na categoria juvenil, com a novela Os filhos do deserto combatem na solidão (Companhia Editora Pernambuco). No Prêmio Literário Cidade de Manaus, o jornalista pelotense saiu vencedor na categoria teatro adulto, com Teatro da Bolsa: Valores.

E, mais recentemente, arrebatou o Prêmio Paraná de Literatura com Kzar Alexander, o louco de Pelotas, narrativa sobre um sujeito alucinado pelas letras. O próprio Cazarré não se considera isento da loucura literária. Certa vez, quase caiu de um ônibus em movimento ao mergulhar fascinado na leitura de O chamado da selva, de Jack London. Nesta entrevista, Cazarré conta histórias de paixão pela literatura, processo de criação e Brasília. E dá uma receita irreverente para ganhar prêmios: “Ter a sorte que o conjunto de jurados, na sua maioria, goste de tipo de coisa que você escreve. Nunca vence o melhor”.

"Tornei-me um leitor compulsivo aos nove anos de idade, quando passei a frequentar a Seção Infantil e Juvenil da Biblioteca Pública de Pelotas" (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)

Fale sobre o livro que ganhou o prêmio. A paixão pela literatura é uma forma de loucura? E tem cura?
Kzar Alexander, o louco de Pelotas trata da paixão alucinada de um homem pela literatura. Sim, a loucura literária existe. Alguns escritores evitam a loucura escrevendo. Outros caem nela justamente porque só pensam em escrever. O problema é que quase sempre os escritores não se contentam com o chamado mundo real. Preferem criar mundinhos à parte. Neste livro, que escrevi com a mais ampla liberdade, brinco com a figura do narrador, faço o elogio do conto e arremato com uma trama policial.

Você mesmo é um louco pela literatura?
Tornei-me um leitor compulsivo aos nove anos de idade, quando passei a frequentar a Seção Infantil e Juvenil da Biblioteca Pública de Pelotas. Lá pelos 13 anos, fui promovido à Biblioteca propriamente dita, dos adultos. Sou leitor de cair de ônibus em movimento porque estava entretido com a leitura de um livro (O chamado da selva, de Jack London).

Como foi a sua chegada a Brasília? Qual a imagem marcante? Na condição de gaúcho, que dificuldades enfrentou para se adaptar à aridez do cerrado?
Cheguei a Brasília em novembro de 1977. Durante os três primeiros meses, não desmanchei a mala. Tirava a roupa que ia usar no dia. Depois, me envolvi com o trabalho e fui ficando. Acho que me descobri brasiliense quando, em viagem ao Sul, sonhava que estava dirigindo na W3. A minha estranheza inicial era a de todos os forasteiros: a falta de um centro palpitante de pessoas batendo cabeça. O mais parecido com isso que tínhamos, na época, era o Setor Comercial Sul.

Como se deu a sua iniciação à literatura? 
Comecei a escrever literatura em 1976, depois de formado em jornalismo. Durante oito anos (1968-1975), trabalhando como bancário, estudei à noite. Fui do quarto ano do ginásio ao fim da faculdade. Quando comecei a trabalhar como jornalista, sobrou-me a noite. Comecei a escrever contos. Cinco anos depois, publiquei meu primeiro livro.

Que autores te impactaram?
Na minha geração de escritores gaúchos, escrevíamos todos à sombra do grande Érico Veríssimo. Depois, fui me apaixonando por outros brasileiros e estrangeiros. Segue a lista, por língua: alemão (Thomas Mann e Kafka), inglês (Herman Melville), francês (Merrimée), russo (Tolstói, Gógol, Tchecov e Nabokov), italiano (Lampedusa) e espanhol (Borges). Todos esses caras estão no Kzar Alexandre. Dos brasileiros, fico com três: Simões Lopes, Graciliano e Euclides da Cunha.

É verdade que você ganhou tantos prêmios que alguns autores se recusaram a participar de concursos quando sabiam que você participaria?
Ganhei alguns. Na maioria, de contos, porque os editores odeiam publicar contistas. Tanto quanto odeiam os poetas. Como não gosto de causar prejuízos aos editores, me inscrevi em concursos que previam a impressão do livro vencedor. Com os concursos, socializei e privatizei os danos que meus livros causariam certamente a um pobre editor comercial.

O que é preciso para ganhar tantos prêmios?
Ter a sorte que o conjunto de jurados, na sua maioria, goste do tipo de coisa que você escreve. Nunca vence o melhor. Vence apenas aquele sujeito que o tal grupo de jurados — por uma série aleatória de fatores — acredita que está fazendo a literatura necessária naquele determinado momento histórico.

Você é um contador de histórias. O que é preciso para contar uma boa história?
É um negócio demorado e complicado arranjar uma ideia que nos leve a aceitar a loucura que é escrever um livro. Às vezes, trabalha-se por sete, 10 anos em um livro até que, ao final, percebemos que aquela maçaroca toda já era. Não merece o sacrifício de uma só árvore. Tenho dois romances desses (50 mil palavras cada um) pegando mofo.

Como é que nasce uma boa história? 
Quando se lê uma frase estimulante em um livro, quando se vê uma cena marcante na rua, quando se escuta uma boa história numa mesa de bar.

Como é o seu processo de produção?
Geralmente, escrevo as minhas histórias num surto mediúnico. O caboclo dita, e eu escrevo. Tudo muito rápido, sem acabamento. Faço o que, no jornalismo, se chama “copião”. Depois, começo a trabalhar esse bloco de argila. Defino melhor os personagens. Trabalho o coloquial dos diálogos. Burilo as peripécias. Depois, vem o mais gostoso, que é a revisão. Na verdade, dezenas de revisões. Ao final, temos um objeto literário. Nem sempre publicável.

E Brasília? Qual a influência da cidade em seu trabalho?
Botei Brasília como cenário de vários dos meus livros. O mais recente é A fabulosa morte do professor de português (Autêntica, 2013), estrelado por um conhecido jornalista candango, que se desenrola na Esquina da Palavra (livraria que funcionou na 406 Norte). Nadando contra a morte (Formato, 1998: Prêmio Jabuti 1999) tem como palco a ponte do Bragheto. Isso não é um filme americano (Ática 2002) mostra a cidade toda em uma perseguição policial. A cidade dos ratos: uma ópera roque (Formato, 1993) tem um título autoexplicativo. Devezenquandário de Leila Rosa Canguçu (Saraiva, 2012) foi construído com crônicas publicadas no Correio Braziliense. Tenho um romance policial que se passa no Brasília Palace: A misteriosa morte de Miguela de Alcazar (Bertrand, 2009). Escrevi ainda um livro de não ficção de que me orgulho muito: Longe do litoral, no coração do Cerrado (Sinduscon, 2014), que reúne depoimento de engenheiros e arquitetos que construíram a cidade.

O jornalismo atrapalha ou ajuda a ficção e o escritor?
Eu não me queixo, mas a maioria dos escritores reclama do jornalismo. Porque é uma profissão muito envolvente, que tira o tempo que a pessoa teria para escrever. Esta é sempre uma questão central para os escritores: como arranjar um basquete que, além de pagar as contas, nos dê uma folguinha de tempo para poder rabiscar umas abobrinhas literárias? O jornalista puro sangue não se interessa tanto por literatura porque, para ele, a luta diária com os fatos lhe preenche o espírito.

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