Publicidade

Correio Braziliense

Presidente do Ilê Aiyê, Vovô defende que, pela música, o negro se reafirme

Ilê Aiyê se apresenta no réveillon de Brasília, trazendo a energia baiana para a capital federal


postado em 30/12/2018 06:45

Vovô, presidente do Ilê Aiyê:
Vovô, presidente do Ilê Aiyê: "Espero que possamos continuar desenvolvendo nosso trabalho ligado à música e à poesia, visando o resgate da autoestima do povo negro brasileiro" (foto: Arquivo Pessoal)

 
Um dos momentos mais aguardados do carnaval de Salvador é a saída do Ilê Aiyê, ao subir a ladeira do Curuzu, no bairro da Liberdade, abrindo caminho para o desfile no Campo Grande. Chamado de "o mais belo dos belos", o tradicional bloco, ao longo de quatro décadas de existência, tem dado importante contribuição para o empoderamento da cultura negra no país.

Destaque da programação comemorativa do ano-novo em Brasília, organizada pela Secretaria de cultura do Distrito Federal, o Ilê se apresenta de segunda-feira para terça, à 0h30, na Prainha dos Orixás, ponto próximo à Ponte das Garças, no Lago Sul. A celebrada instituição baiana vai ser representada com 15 integrantes: 10 músicos, um cantor, uma cantora e três dançarinas.

Ao surgir na década de 1970, no bairro do Curuzu, o bloco foi acusado de ter “inconcebíveis intenções subversivas”, porque os fundadores pretendiam nomeá-lo como Poder Negro. À época, o registro foi impedido pela Polícia Federal Baiana. Ao desfilar pela primeira vez na folia soteropolitana, em fevereiro de 1975, já era chamado de Ilê Aiyê (Terra da Vida, no dialeto africano).

Hoje, considerado patrimônio da cultura baiana, o Ilê, uma entidade com mais de três mil associados, é visto como marco no processo de reafricanização do carnaval da Bahia. O bloco é conhecido pela militância ao desenvolver ações de valorização da cultura negra e de combate ao racismo e por manter escolas para crianças carentes em Salvador.

Ponto alto do trabalho que o bloco desenvolve, a música é calcada no batuque dos tambores e na potência das vozes. Com vários discos gravados, emplacou sucessos como Charme da liberdade, Depois que o Ilê passar, Deusa do Ébano, Que bloco é esse? e Negrume da noite. Chama a atenção também a riqueza plástica exibida por seus integrantes, expressada pelo figurino e pela coreografia. Tudo isso, o Ilê mostra nas frequentes apresentações que faz no Brasil e no exterior.

Memória afetiva
 
Ilê Aiyê tem convite para se apresentar nos EUA no início do ano: à espera de patrocínio(foto: Arquivo Pessoal)
Ilê Aiyê tem convite para se apresentar nos EUA no início do ano: à espera de patrocínio (foto: Arquivo Pessoal)
 

Nomes consagrados da MPB têm reverenciado o Ilê por meio de canções que hoje fazem parte da memória afetiva de muita gente. Caetano Veloso compôs com o filho Moreno Veloso Um canto de afoxé para o bloco do Ilê, gravado originalmente no LP Cores, Nomes, de 1982; e regravado no álbum Ofertório, ao lado dos filhos Moreno, Zeca e Tom, lançado neste ano. Trecho da letra diz: “Ilê Aiyê, como você é bonito de se ver/ Ilê Aiyê, que beleza mais bonita de se ter/ Ilê Aiyê, sua beleza se transforma em você/ Ilê Aiyê, que maneira mais feliz de viver”.

Gilberto Gil, cinco anos antes, havia registrado no LP Refavela, Que bloco é esse?, de Paulinho Camafeu. O tropicalista cantava assim: “Que bloco é esse? Eu quero saber/ É o mundo negro que viemos mostrar pra você...”. No Canto da cidade, disco de Daniela Mercury que a lançou no estrelato, uma das faixas de destaque foi O mais belo dos belos (Adailton Poesia, Guiguio e Valter Farias), com versos como “Quem é que sobe a ladeira do Curuzu?/ É a coisa mais linda de se ver/ É o Ilê Aiê/ O mais belo dos belos/ Sou eu, sou eu/ Bate no peito mais forte/ E diga: Eu sou Ilê..”. A música, recentemente, ganhou nova versão na interpretação de Alcione, incluída na trilha sonora da novela Segundo sol.

Com diversos prêmios conquistados, na categoria melhor bloco afro do carnaval baiano, o Ilê teve, como guardiã de fé, durante várias décadas, Mãe Hilda Jitolú, nascida em 6 de janeiro de 1923, falecida em 19 de setembro de 2009, aos 86 anos. A Ialorixá e líder espiritual comandava a cerimônia religiosa que antecedia o desfile do bloco, que culminava pela soltura de pombos brancos por todos os diretores e pela rainha, chamada de Deusa de Ébano. Ela deixou cinco filhos e um deles é Antônio Carlos dos Santos, o Vovô do Ilê, um dos fundadores do bloco, do qual é o atual presidente.


SERVIÇO
Ilê Aiyê
Show do tradicional bloco carnavalesco de Salvador. Segunda-feira, à 0h30, na Prainha dos Orixás (próxima à Ponte das Garças, no Lago Sul), como parte das comemorações do ano novo. Da programção, há a participação de artistas brasilienses. A entrada é franca. Classificação indicativa livre.



Entrevista / Vovô do Ilê, presidente do Ilê Aiyê


Como tem sido a trajetória do Ilê Aiyê, patrimônio da cultura popular da Bahia? 
O Ilê foi fundado em 1º de novembro de 1974 por mim e por Apolônio de Jesus, no bairro do Curuzu, vizinho da Liberdade, como um grupo cultural que tinha como proposta básica promover a expansão da cultura de origem africana na Bahia, a partir de um bloco carnavalesco. A primeira apresentação foi no carnaval de 1975. Desde sempre desenvolvemos um tema e, em festival interno, escolhemos a música-tema. A primeira foi Que bloco é esse?. Em nosso primeiro desfile, havia pouco mais de 100 associados. Atualmente, temos reunido mais de 3 mil participantes. Todos negros.


Qual vai ser o tema do carnaval de 2019?
No próximo ano, para comemorar os 45 anos do Ilê, vamos fazer uma retrospectiva. Que bloco é esse?, a música do primeiro desfile, agora foi escolhida para ser o tema.


A promoção da cultura africana é o pressuposto básico do bloco?
O nosso objetivo, como entidade, é preservar, valorizar e difundir a cultura afro-brasileira. Temos homenageado as culturas e nações africanas, que contribuíram para o processo de fortalecimento da identidade étnica e da autoestima do negro brasileiro, por meio da música e da estética. Anualmente, fazemos concurso para a escolha da rainha do bloco, chamada de Deusa do Ébano, que visa valorizar a beleza da mulher negra.


O Ilê tem levado o seu trabalho ao exterior. Como tem sido a acolhida do público em outros países?
O Ilê tem ido com alguma frequência a vários continentes. Já foi aos Estados Unidos, Europa, China, América Latina, Caribe, mas foi na África onde mais esteve. Lá, já se apresentou em Angola, Benim, Costa do Marfim, Senegal. Em todos os lugares, a acolhida é bastante calorosa.


Alguma nova viagem à vista?
Fomos convidados para participar do 50º Festival de Jazz de New Orleans (EUA), em janeiro. Ainda não confirmamos a presença, pois nos faltam recursos para adquirir 15 passagens. Estamos na expectativa de conseguir patrocínio.


O que espera dos novos tempos que o país passa a viver a partir de 1º de janeiro?
Espero que possamos continuar desenvolvendo nosso trabalho ligado à música e à poesia, visando o resgate da autoestima do povo negro brasileiro, sem nos preocuparmos com retaliação ou coisas do gênero. Nossa meta para 2020 é elegermos um prefeito da raça negra em Salvador, ou seja, a chegada do negro ao poder.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade