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Correio Braziliense

Cinema para ler: Conheça quatro livros que estudam o audiovisual no mundo

Textos sobre direção, circulação de filmes em mercados internacionais e pesquisas fazem mapeamento do audiovisual


postado em 31/12/2018 06:10 / atualizado em 31/12/2018 10:11

(foto: Franklin Maimone/Divulgação)
(foto: Franklin Maimone/Divulgação)

Instrumento de poesia, como descrito pelo diretor espanhol Luis Buñuel, no livro A experiência do cinema (organizado por Ismail Xavier, e revisto para edição de 2018), a chamada sétima arte, ainda nas palavras dele, expressam o “inconformismo com a estreita sociedade que nos cerca”. Há 60 anos, quando o famoso diretor de A bela da tarde (1967) se aterrorizava com a vocação do cinema de imitar romances e teatros e com a tendência de repetir enredos.

Exaltando o potencial “quase hipnótico” do cinema, Buñuel louva o tratamento de enredos fantásticos e misteriosos, no texto extraído de uma conferência. Junto com ele, no livro, se alinham pensadores que sistematizam elementos de construção da narrativa em cinema (caso de André Bazin e Edgar Morin) e os que desautorizam o cinema comercial (vertente do francês Christian Metz), dando ênfase à análise teórica do conteúdo dos filmes.

Tema para controvérsia e divergentes abordagens, as reflexões práticas do cinema encorajaram edições recentes. Nova história do cinema brasileiro, por exemplo, tem dois volumes: o primeiro, parte do cinema mudo e alcança tópicos como a chanchada e o despontar dos estúdios a serviço da companhia Vera Cruz, além de registrar filmes dominantes no período do governo de Getúlio Vargas; o segundo , abraça ousadias do cinema marginal e a crise que freiou criações nos anos de 1990, entre diversos temas que desembocam na contemporaneidade.

O autor no cinema ganha revisão de conteúdo, originalmente escrito pelo ensaísta e professor da ECA-USP Jean-Claude Bernardet. Agora, a obra tem adendos do “mau aluno” dele, Francis Vogner dos Reis (mestre em meios audiovisuais), que assumidamente dá vazão a ideias do “professor rebelde” (Bernardet). A obra avança até mesmo para instâncias do cinema resultante do declínio do autor no cinema.

Mercado


Uma das fortalezas no impulso da dispendiosa arte do cinema, o sistema de coproduções — que envolvem recursos estrangeiros — está dissecado em um dos títulos de cinema, lançados recentemente: Coprodução de cinema com a França, resultado de ampla pesquisa de Belisa Figueiró. Entender até que ponto um coprodutor foi determinante para abrir novos mercados para os filmes brasileiros e para as salas da França; estudar o contexto da aproximação cinematográfica entre os dois países, num período de 16 anos e modelos de distribuição e receptividade estiveram entre as prioridades de Belisa.

“O lucro, em última análise, não deve ser o objetivo principal de quem tem interesse em fazer uma coprodução. As possibilidades de acesso a verbas aumentam, mas o orçamento da produção também fica bem mais caro. Grosso modo, o que fica bipartido é a venda do filme para os demais países”, comenta a autora.

A ponte com a França se beneficia dos agentes de vendas internacionais franceses, capacitados em escoar a circulação internacional dos filmes. “Há ainda os agentes de vendas que trabalham a difusão dos filmes junto aos curadores de festivais de peso mundial. Sendo assim, em um primeiro momento, a parceria é mais vantajosa, em termos culturais, facilitando a visibilidade de filmes em festivais”, avalia a autora de Coprodução de cinema.

Recorrentes entre as finalistas do Oscar, coproduções latino-americanas, asiáticas e africanas não necessariamente exigem criação de personagem estrangeiro ou filmagem no exterior. “Central do Brasil ou Madame Satã não têm nada disso e são coproduções que dialogam com plateias internacionais, contando histórias muito brasileiras, com um roteiro e uma linguagem cinematográfica universais”, explica Belisa Figueiró.

Distribuidores e gestores do CNC (a autoridade cinematográfica francesa), porém, veem os projetos brasileiros como “pouco exportáveis”. Para a autora, um desafio está formulado: “talvez deixar de fazer projetos extremamente locais e pensar em obras que circulem melhor não apenas nas telas dos festivais, mas sobretudo nos circuitos comerciais de cinema”.
 
 
Francis Vogner dos Reis, pesquisador e professor de cinema(foto: Arquivo Pessoal)
Francis Vogner dos Reis, pesquisador e professor de cinema (foto: Arquivo Pessoal)
 

Três perguntas // Francis Vogner dos Reis, escritor 

Como e por qual motivo crê que o Bernardet tenha "te escolhido" para rever O autor no cinema e que responsabilidade teve estar no livro?
 
O Bernardet me escolheu para fazer uma espécie de texto de atualização do livro, que virou três (um pra cada capítulo). A colaboração inicial, virou — a pedido dele — uma coautoria. É generosidade, mas também perspicácia. Um livro que questiona a existência do “sujeito autor” reafirmar o seu autor original seria contraditório. Ele preferia uma coautoria, que na verdade seria uma “autoria em diálogo”, sem um gênio dominante. E por que eu? Porque temos um diálogo, temos pontos de vista diferentes (conflitantes e convergentes), respeito e admiração mútuas.Vemos a crítica como um modo de intervenção efetiva e política no campo cultural como um todo e do cinema em particular. A crítica é um desses meios, existem outros: fazer um filme, uma programação de sala ou festival, dar aulas.

Acha que pode estimular leitores a perpetuar valores esquecidos, em termos de abordagem crítica?
 
Acho que, na verdade, vai colocar questões e interrogações aos leitores, vai discutir o “autor” sob um ponto de vista não idealista, mas, ao mesmo tempo, sem prescindir dele. A gente discute conceitos e critérios acerca da questão da autoria, nos distintos recortes francês e brasileiro. Fazemos as distinções necessárias e seus desdobramentos particulares e complexos. O termo “autor” está esvaziado e a realidade que fez do conceito de autor um cavalo de batalha da crítica e do cinema moderno mudou. Por outro lado, na aproximação analítica de uma obra, a ideia de autoria tem uma função, mas é preciso redimensioná-la. O livro vai por esse caminho.

O Bernadet mudou muito, desde a primeira edição? Como você percebeu a interferência dele: está mais incisivo, menos tolerante?
 
Eu não sei o que ele pensa sobre o que ele escreveu no passado. As notas desse edição respondem mais ao que eu escrevi do que ao que ele escreveu outrora. O Jean-Claude não tem muito interesse em revisitar seus textos escritos em outro momento. Não lhe interessa a perenidade de uma “verdade”, o canônico, a erudição imobilista e esterilizante, lhe interessa mais as implicações atuais do assunto, a maneira como seu texto é lido e compreendido hoje a partir de outras articulações. Creio que, para ele, se afirmar como “sujeito autor” especificamente nessa publicação seria uma contradição. É esse desapego e vitalidade intelectual que me surpreende.
 
Fernão Ramos Pessoa, pesquisador e professor de cinema(foto: Arquivo Pessoal)
Fernão Ramos Pessoa, pesquisador e professor de cinema (foto: Arquivo Pessoal)
 
 
 
Quatro perguntas // Fernão Pessoa Ramos, pesquisador 

Quanto tempo levou a organização de Nova história do cinema brasileiro, e ainda sente lacunas no cuidado com nossa história do cinema?

A última fase do projeto tomou cerca de cinco anos. As tentativas iniciais de atualizar a primeira edição do História do cinema brasileiro (1987) datam do final dos anos 1990. O livro atual foi completamente refeito. Hoje, a história do cinema brasileiro está relativamente bem coberta. Um novo perfil de estudioso, com origem acadêmica, descobre novas feições, personalidades e fatos, explorando arquivos inéditos antes desconhecidos.

Houve grandes surpresas, ao vasculhar escritos dos colegas?

O livro expressa um novo patamar na pesquisa historiográfico sobre o cinema brasileiro. Convidamos especialistas de cada período, colegas que já trabalhavam com o tema há anos. O texto do livro expressa o resultado de pesquisas de longo prazo.

O cinema atual dialoga mais fluidamente com o público do que no passado?

O cinema brasileiro sempre teve um diálogo próximo com seu público. Paulo Emílio Salles Gomes dizia que o mais difícil do cinema brasileiro, para o brasileiro, era se ver no espelho. Em função da fala, da língua, das expressões, da temática, da proximidade do cotidiano político e social, a relação com o cinema brasileiro traz uma espécie de sensação de promiscuidade, que não encontramos em outras cinematografias.

Qual o rendimento e os desafios dos órgãos públicos que lidam com nosso cinema?

O momento atual é bom, com todos os problemas que enfrentamos. Estamos com mais de 150 longas sendo produzidos por ano. Situação inimaginável alguns anos atrás. Permanecem sérios problemas de distribuição, com parcela pequena deste total chegando ao mercado. Dominamos cerca de 15% do mercado exibidor, patamar que não é ruim e equivale a outras cinematografias fortes (argentina, alemã, francesa). Temos, no entanto, de prestar atenção às transformações e investir forte no streaming. É a nova janela de exibição para o cinema e o audiovisual. 

 

Nova história do cinema brasileiro — Volumes I e II 
Organização de Fernão Pessoa Ramos e Sheila Schvarzman. Edições Sesc; 528 páginas (Volume I) e 600 páginas (Volume II). Preço: R$ 92 (cada volume).

O autor no cinema 
De Jean-Claude Bernardet, com a colaboração de Francis Vogner dos Reis. Edições Sesc; 270 páginas. Preço: R$ 62.

A experiência do cinema — Antologia 
Organização de Ismail Xavier. Paz & Terra; 390 páginas. Preço: R$ 59.

Coprodução de cinema com a França 
De Belisa Figueiró. Edições Senac; 280 páginas. Preço: R$ 58.

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