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Correio Braziliense

Com 'Roma' de Alfonso Cuáron, Netflix abre debate sobre o fazer cinema hoje

Com Roma, vencedor em Veneza e indicado ao Globo de Ouro, o serviço pode levar o primeiro Oscar para uma ficção original


postado em 01/01/2019 07:13 / atualizado em 01/01/2019 11:28

Alfonso Cuarón: reconhecimento e peso na indústria hollywoodiana(foto: David Livingstone/ Divulgação)
Alfonso Cuarón: reconhecimento e peso na indústria hollywoodiana (foto: David Livingstone/ Divulgação)
“Como para qualquer outro humano, fazer um filme pode ser uma experiência transformadora, e para muitas pessoas envolvidas nesse filme foi algo de fato transformador. O ruim é que enquanto eles ganharam mais sabedoria, eu ganhei uma nova cor de cabelo.” Quando fez o irreverente discurso agradecimento  pelo Oscar de melhor diretor pelo filme Gravidade, em 2014, o mexicano Alfonso Cuarón não imaginava, mas as “transformações” estavam longe de terminar. Cuarón pode se tornar o grande responsável por um feito que a Netflix almeja há alguns anos: um grande prêmio para conteúdo original em longa-metragem de ficção.

Cuarón foi o responsável pela direção da quase autobiografia Roma, produção que estreou no streaming da Netflix, em 14 de dezembro e está cotado para figurar entre as indicações do Oscar, que serão anunciadas em 22 de janeiro. Isso tendo em vista o caminho que a produção traçou até agora, com a vitória do Leão de Ouro no Festival de Veneza e as três indicações no Globo de Ouro — melhor direção, melhor roteiro e melhor filme em língua estrangeira —, todas nas categorias de cinema e não de tevê.

No enredo, o público acompanha a história crua — quase cruel — de Cleo (Yalitza Aparicio), empregada doméstica que trabalha na casa de uma família de classe média na Colonia Roma, bairro da Cidade do México onde Cuarón foi criado. Tendo de lidar com uma gravidez indesejada e com a criação dos filhos da patroa, Cleo leva a Roma uma marca de Cuarón nos cinemas: um mergulho na subjetiva natureza das emoções humanas, de forma profunda e latente.


Dever de casa

Na prática, a Netflix seguiu à risca tudo que precisava fazer para que a produção entrasse no tapete vermelho do Oscar. Disponibilizou Roma em salas selecionadas nos cinemas norte-americanos antes da estreia no streaming —  durante sete dias seguidos, com três sessões diárias, em cidades-chave, como Los Angeles. “Desde o contrato, tratei de me assegurar de que Roma teria lançamento simultâneo em salas de cinema. Tem gente que acha que fiz isso somente de olho no Oscar, mas como, se era um projeto tão arriscado que eu não tinha distanciamento de pensar sequer como poderia sair, se é que ia sair? Depois da repercussão em Veneza, a Netflix chegou a ampliar as salas. Fiquei muito feliz”, afirmou Cuarón em entrevista ao Estado de São Paulo. Mas será que isso será o suficiente para agradar à academia norte-americana?

Uma das maiores expectativas em relação à premiação da Netflix em um longa-metragem de ficção tem ligação com tudo que a empresa passou no festival de Cannes. Em 2017, após estrear Okja (de Bong Jooh-ho) e The Meyerowitz stories (de Noah Baumbach) on-line e levar as produções ao festival, a empresa de streaming sofreu duras críticas —  inclusive de nomes de peso, como Pedro Almodóvar e Steven Spielberg.

Em 2018, a Netflix concordou com as exibições prévias nos cinemas franceses, entretanto, a regra de Cannes que previa a necessidade de aguardar 36 meses até a chegada no streaming foi a gota d’água para a empresa. Na ocasião, Ted Sarandos, diretor de conteúdos da empresa, decidiu por retirar a Netflix da mostra competitiva e, ao portal Variety, lamentou: “O festival optou por celebrar a distribuição, em vez de celebrar a arte do cinema. Estamos 100% com a arte do cinema. E aliás, todos os outros festivais do mundo também”.



Para Ciro Marcondes, professor do Departamento de Comunicação da Universidade Católica, essa expectativa não faz parte só do momento de ascensão do streaming, mas também de todo um contexto histórico do cinema: “Eu acho que esse tipo de crise expõe um problema que atinge o cinema há tempos. Desde que o cinema saiu da sala escura e chegou a ser gravado com as Super 8, ainda nos anos 1960, depois com a reprodução em fita K7, até agora as opções digitais. O que acontece é uma mudança de espectro no problema. Agora existe uma bifurcação dessa crise. Pensar que ele deve ou não ser julgado pela plataforma, ou pelo conteúdo”.

Documentários

A Netflix não encarou só problemas em premiações internacionais. A empresa já faturou uma estatueta de melhor documentário em longa-metragem neste ano, com Ícaro, de Bryan Fogel. Além disso, o streaming conta com várias indicações, desde 2014, com documentários originais. “A grande discussão é que existem os que defendem que cinema é a linguagem, mas há outros que defendem que o cinema passa pela experiência. Eu particularmente acho que a tradição da sala de cinema não impõe o que é o cinema, há muito tempo essa plataforma de projeção não era o cinema. Agora, a gente não pode prendê-lo nisso. O que sobreviveu foi a linguagem; então, para mim, isso é o que caracteriza, esse aspecto mais abstrato do que está na tela, e não o que a tela em si”, argumenta Marcondes.

Para Pablo Gonçalo, professor do Departamento de Audiovisual da Universidade de Brasília, a discussão em torno do assunto vai além do que é cinema e abrange o contexto econômico: “A Netflix ainda não faz parte de Hollywood. Existe muito mais do que uma briga por princípios sobre o que é filme. A briga é muito mais mercadológica —  eles colocam essa necessidade de exibição em cinemas como reflexo de uma vertente econômica. Essa questão não é trivial. A gente esquece isso e só discute narrativa, mas é uma arte veiculada ao comércio de forma muito forte, que está quase no DNA dessa indústria”.

Quanto mais, melhor

Adriana Vasconcelos trabalha com cinema há mais de 20 anos e, atualmente, batalha para levar o filme Mãe aos cinemas. De acordo com a cineasta, mesmo “com elenco da Globo”, não é fácil chegar às salas e, com “frequência ascendente, as alternativas” ganham espaço para quem trabalha com a sétima arte. “Percebo que quanto mais formas de exibição, melhor. Entendo os argumentos dos dois lados. Sei que existe um desejo de preservar o cinema, mas a sala de cinema não vai acabar por conta disso. As pessoas saem de casa pra ver um show, para ver uma peça. Por que você não vai ver um filme?”, defende.

Felipe Gontijo também trabalha com cinema na cidade há 14 anos e tem opinião radical em relação ao assunto: “Primeiro, eu acho que é uma besteira essa questão de prêmio. Ganhar alguma coisa nesse sentido é um reconhecimento, uma consequência e não um objetivo. No fundo, o cara quer que as pessoas vejam o trabalho, independentemente de plataforma”.

Segundo Adriana, ainda é importante colocar em discussão o impacto do streaming no cinema não só lá fora, mas especialmente no Brasil. “Eu entendo o que aconteceu em Cannes —  toda aquela polêmica, mas acho que cada realidade é uma. Aqui no Brasil é muito diferente porque é muito complexo ir ao cinema para a grande maioria da população. Na França, eu entendo porque tem um cinema em cada esquina e em todas as salas há filme franceses, existe uma política de preservação, muito salutar inclusive. Agora aqui é uma realidade diferente. De certa forma, os filmes precisam do streaming para se manter”, explica. 
 
* Estagiário sob a supervisão  de Vinicius Nader
 
Um drama singelo está no centro do filme de Cuarón(foto: Netflix/ Divugação)
Um drama singelo está no centro do filme de Cuarón (foto: Netflix/ Divugação)
 
 
Crítica // Roma ####
 
A bela complexidade do simples
 
Vinícius Nader 

Enquanto a polêmica da indicação (ou não) ao Oscar não termina, vamos ao que realmente interessa: Roma é, independentemente de qualquer questão, um grande filme. Sensível, belo e, ao mesmo tempo, corajoso e pungente, agrada desde o roteiro à fotografia. Nem a duração de mais de 2 horas é um empecilho. Roma é daqueles dramas em que a gente não vê o tempo passar.

Ao contrário do que se possa pensar, Roma não se passa na capital italiana, mas, sim, no bairro mexicano homônimo, familiar ao próprio Cuarón, nascido e criado nas redondezas. Filmado em preto e branco, o filme se passa em 1970, ano em que o México enfrentava, tenso, um regime ditatorial, com direito a protestos pela liberdade e tanques de guerra nas ruas.

Mas esse não é um filme sobre política, tão explicitamente assim —  os conflitos estão ali, mas como pano de fundo. A discussão aqui é social — e assustadoramente atual. Presente em mais de 90% das cenas, Cleo (a sensacional Yalitza Aparicio) trabalha como empregada doméstica na casa de Sofia (Marina de Tavira) e Antonio (Diego Cortina Autrey), casal de classe média que tem quatro filhos.

Mais do que trabalhar na casa dessa família, Cleo acaba se tornando cúmplice de Sofia na criação dos meninos e no comando da casa. Quando tem dúvidas e precisa de ajuda, é no colo de Sofia que Cleo encontra carinho, ajuda e atenção. O contrário também acontece: é com Cleo que Sofia conta no momento da separação, por exemplo.

Cleo poderia ser uma irmã mexicana de Val, personagem de Regina Casé no brasileiro Que horas ela volta?, mas Cuarón foge do panfletário tom adotado no longa nacional e a humaniza, com defeitos e qualidades. É pela emoção que ele nos pega. Cinema ou não, o filme traz um Cuarón muito mais sensível e maduro.

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