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Correio Braziliense

João Fênix lança o disco 'Minha boca não tem nome', com letras politizadas

Repertório mescla canções autorais com regravações de compositores, como Caetano Veloso e Sergio Sampaio


postado em 03/01/2019 07:15

As influências do novo trabalho de João Fênix passam por Gal Costa e Maria Bethânia, até Natacha Atlas(foto: Leo Aversa/Divulgação)
As influências do novo trabalho de João Fênix passam por Gal Costa e Maria Bethânia, até Natacha Atlas (foto: Leo Aversa/Divulgação)

Em 11 faixas do novo trabalho de estúdio, um dos elementos que mais chama a atenção em Minha boca não tem nome é a potente voz de João Fênix. Entre letras que versam sobre o amor, a política e até mesmo a espiritualidade, o pernambucano mostra o timbre afiado que vem evoluindo ao longo de mais de 25 anos de carreira, e celebra o que julga ser o auge: “Penso humildemente que este é o meu melhor CD, em que discurso, música e imagem resultaram coesos”. O novo álbum está disponível nos principais serviços de streaming do país.

 

“Minha boca não tem nome surgiu do desejo de traçar um panorama do momento que vivo: seja interpretando compositores contemporâneos, seja na busca de uma sonoridade moderna com atenção para não ter soado datado ou conceitual demais. E, por fim, da minha necessidade pessoal de tocar em temas viscerais hoje no meu dia a dia – política, sexualidade e espiritualidade”, explica Fênix.

 

O cantor e compositor também destaca o equilíbrio que sempre buscou ao longo da carreira, alcançado graças a uma produção de peso. “Eu convidei o Jaime Alem (maestro de Maria Bethânia) e o Guilherme Kastrup (produtor dos últimos dois discos da Elza Soares) para produzir. Dois produtores de sonoridades bem distintas. Com disciplina, eu me fiz de 'ponte' entre eles. E tanto ensaiando quanto gravando, estive atento para que esta balança sonora se mantivesse sempre equilibrada. Esta sempre foi minha intenção, desde o meu primeiro CD de 2001. Este equilíbrio entre uma sonoridade mais orgânica com violões, e percussões, e algo mais arrojado quase que sujando isso, com guitarras e texturas. Então tudo confluiu. Discurso, canto, sonoridade. É CD de força com devidas pausas ou pousos, ideológicas, espirituais, sexuais”, analisa.

 

Cabe destacar a liberdade de Fênix, que nem por um momento tem medo de abordar uma androgenia soberana, solta e responsável por explodir paradigmas, algo que não é inédito no alto padrão da música brasileira — com Ney Matogrosso — e atualmente se reinventa de forma acentuada e direta — com Johnny Hooker, Liniker, Jaloo e Linn da quebrada. Em Exercício diário da paixão, Fênix mostra o panorama que lhe circunda sobre o assunto. “Porque antes eu tava sozinho, atrasando o amor”, “Eu vivo sorridente nos teus braços/Não me importa o que essa gente fala/No colégio, no trabalho, na boate, no bar”, versa a letra da faixa.

 

“Não vivemos em tempos de amenidades. Apesar de que quando eu comecei, minha androgenia não problematizava estas questões de gênero, eram apenas expressões artísticas intrínsecas a meu canto e personalidade na época. Acho fundamental nos tempos atuais, a assertividade de artistas que resolvem estabelecer essa bandeira como parte de um trabalho, como é o meu caso”, defende o artista.

 

Outro destaque fica também com as faixas clássicas, que ganharam reinterpretação em Minha boca não tem nome. A começar por Falou amizade, de Caetano Veloso, passando por Roda morta, de Sérgio Sampaio e Sérgio Natureza; Desterro, de Reginaldo Rossi, até Exercício diário da paixão, de Carlos Posada. “As considero pousos sentimentais e sensuais no CD”, explica.

 

Aproveitando para comentar as composições, Fênix não deixa de citar os artistas que lhe serviram de parâmetro: “Gal e Betânia são grandes influências no meu canto. Caetano Veloso e Chico Buarque, sempre. Natacha Atlas, cantora egípcia, toca na minha vitrola até furar dia sim, dia não. Artistas de ruptura sonora seja a partir da novidade seja do seu próprio momento de maturidade sonora, também me atraem bastante. Salvo as devidas proporções, Gal no Recanto e Elza na Mulher do Fim do mundo influenciaram bastante para onde eu gostaria de caminhar neste novo trabalho. Moderno sem ser datado. Ruptura sem ser over”.

 

Impossível não falar da presença política de Minha boca não tem nome. Talvez não tão explícito em letras, a bandeira vem por meio do ritmo, dos agudos, da pressão musical – que se torna uma marca do pernambucano. “Podem matar uma Marielle e surgirão mil Marielles. Podem tentar encurralar um Jean Wyllys, mas surgirão mais mil como ele. Repetindo, não estamos em tempos de amenidades, qualquer discurso em defesa do nosso próprio direito de existir, gays, negros, índios, trans e etc; é bem-vindo. Claro, com devidos pousos, descansos, vitais pra continuarmos nesta batalha”, anuncia.

 

* Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco

 

 

SERVIÇO

 

Minha boca não tem nome

De João Fênix; Gravadora Biscoito fino; 11 faixas

 

 

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