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Correio Braziliense

Produtoras apostam no live-action para repaginar clássicos da animação

Desde o ano passado, o cinema volta a viver um momento em que aposta em remakes em live-actions de animações que se tornaram mitológicas, como Mogli, O rei leão, Pokémon e Aladdin


postado em 05/01/2019 07:00 / atualizado em 05/01/2019 19:18

(foto: Alexandre Schneider/Netflix )
(foto: Alexandre Schneider/Netflix )

 

São Paulo — Criar versões de um clássico é algo comum e recorrente no cinema, no teatro, na televisão e na literatura. De tempos em tempos, o recurso volta com força. Desde o ano passado, o cinema e os serviços de streaming, que já viveram a fase dos heróis e das adaptações de best-sellers, agora estão no momento dos live-actions. Pelo menos esse foi um dos grandes assuntos de 2018 e deve perdurar por 2019 com uma grande leva de estreias nesse formato, que transforma clássicos de animação em versões com atores reais.

Um dos longas-metragens a dar início a essa nova safra de live-actions foi a versão da Netflix de Mogli, animação famosa da Disney de 1967 inspirada na obra O livro da selva (1894), de Rudyard Kipling, lançada em dezembro do ano passado. A produção tem direção de Andy Serkis, conhecido por atuação em captura de movimento e performance em filmes como Planeta dos Macacos, O senhor dos anéis e Star wars.

Projeto iniciado em 2014 por Serkis, a adaptação tem um tom completamente diferente da animação da Disney e também do longa-metragem em live-action do estúdio dirigido por Jon Favreau. O cineasta britânico revelou que isso foi intencional. “Quando li o roteiro, senti pela primeira vez que era uma versão de Mogli que estava próxima do tom do livro e que eu estava realmente concentrado na jornada de Mogli, essa jornada complicada de uma pessoa de fora, de um menino que não pertencia àquele mundo. E isso me tocou. Fiquei apaixonado pela versão”, conta.

Novo formato

Para apresentar um diferencial, Andy Serkis, especialista em captura de movimento e performance, trouxe esse conhecimento para a sua direção e, mais do que escolher atores e atrizes para simplesmente dublar os personagens da selva, ele quis ter um elenco que fosse capaz de colocar a própria emoção nos animais que interagem com Mogli, vivido pelo ator Rohan Chand, que teve a chance de atuar lado a lado com o restante do elenco. “Para mim, estava clara a visão que eu queria para a história e como queria criar os animais, que seria com captura de movimento e atuação e em live-action. Eu queria criar algo muito real, que as emoções parecessem reais”, revela.

Dessa forma, o filme foi gravado com os atores em cena. Depois, eles foram substituídos pelos animais com as emoções expostas com a performance dos atores que foram capturadas com a tecnologia. Até por isso, o projeto que teve início em 2014, só chegou à plataforma da Netflix no ano passado. No elenco, nomes de peso, como Christian Bale, que faz a pantera Bagheera; Cate Blanchett, que vive a cobra Kaa; Benedict Cumberbatch como o leão Shere Khan; e Peter Mullan, o lobo Akeela.

“A primeira pessoa que chamei foi Peter Mullan porque eu não conseguia tirar da minha mente que a voz dele parecia muito de alguém que é o ‘homem do povo’. Busquei a qualidade dos atores. Nós queríamos que Kaa fosse como uma profeta e alguém que estivesse guiando Mogli para ser o protetor da selva. Pensei que Cate era perfeita para isso”, revela Serkis, que viveu o urso Baloo na adaptação.

Sobre esse movimento de live-actions, Andy Serkis analisa, em entrevista ao Correio, ser algo natural: “Estamos num ponto em que é difícil ter materiais originais por dois motivos. O primeiro de que há clássicos com ótimas interpretações. Por exemplo, você vê diferente atores fazendo Hamlet e isso é incrível. Também há o fato de que as pessoas estão acostumadas com isso. Quantos Homem-Aranha tivemos nas últimas décadas? As pessoas estão preparadas para histórias reinventadas e também é importante que as pessoas e as crianças possam aprender com essas histórias mitológicas. Acho que tudo é uma questão de equilíbrio, ainda mais agora com as mudanças por que o cinema passa.”

Outras versões

Logo em fevereiro, o cinema começa a trazer novas versões live-action. A estreia da nova leva de produções no formato em 2019 começa com Alita: Anjo de combate. O longa-metragem é inspirado no mangá homônimo de Yukito Kishiro e mostra a história de uma heroína cyborg. Para retratar a protagonista, a atriz Rosa Salazar fez captura de movimento e performance. O elenco tem ainda Christoph Waltz e Mahershala Ali.

Os clássicos da Disney também irão invadir as telonas. Porém, não em animação, como o público está acostumado, mas em versão com atores reais. A primeira estreia é em 29 de março, com Dumbo. A história do elefante bebê que nasceu em circo e que ficou famosa em desenho animado em 1941 será reinventada na visão de Tim Burton, que já recriou outro clássico no formato, Alice no País das Maravilhas.

Em maio é a vez de Aladdin, animação de 1992, ser adaptada em live-action. Com direção de Guy Ritchie, o filme tem no elenco Mena Massoud no papel do protagonista, Naomi Scott (Power Rangers) como Jasmine e Will Smith interpretando o gênio.

Mais a maior expectativa de adaptação da Disney está nas costas de O rei leão, que chega às telonas em 19 de julho. O teaser lançado em novembro se tornou no segundo mais visto de todos os tempos, ficando atrás apenas do vídeo de Vingadores: Guerra infinita. A ansiedade tem motivo. A produção é dirigida por Jon Favreau, que conseguiu bons números com Mogli: O menino lobo, em 2016, e tem no elenco Donald Glover como Simba, Beyoncé no papel de Nala e James Earl Jones como Mufasa.

Outros dois desenhos animados e sucessos dos videogames estão confirmados para 2019. Em maio, Detetive Pikachu, versão do jogo e da franquia Pokémon, estreia nos cinemas tendo Justice Smith como protagonista e Ryan Reynolds vivendo o pokémon mais conhecido da saga, Pikachu. Em novembro é a vez de Sonic chegar às telas interpretado por Lee Majdoub.

Três perguntas / Andy Serkis

Essa é uma versão mais sombria de Mogli. Como você lidou com isso?

Para mim, era importante porque o filme fala sobre colonialismo de um jeito que os outros filmes não fizeram. Então, a cena em que Mogli aparece com a faca é importante, porque mostra a influência dos homens nele. Também tem a introdução da caça e do homem dentro da selva, uma caça não por comida, mas por esporte. Isso, para mim, era importante mostrar: Mogli sendo corrompido por esse pensamento.


No filme é possível traçar outros paralelos com a sociedade?

Sim. Os macacos representam uma sociedade que é completamente anárquica. Eles não têm lei, não têm estrutura, democracia, ou qualquer forma de governo. Não têm liderança. A alcateia dos lobos é uma estrutura mais organizada, há regras, certamente, é uma sociedade democrática liderada por Akeela, que não é um rei, um monarca, é um líder eleito. Shere Khan, o tigre, é um agente do caos. Ele usa o ódio para ter poder. Ele representa isso. Ele traz o perigo para a selva. Bagheera é um animal que foi feito de “estimação” pelos homens, então representa a jornada oposta a de Mogli, por isso se torna um guia dele. Ele também luta pela própria identidade. Baloo traz essa coisa mais antiga, como um soldado do exército. Ele acredita nas estruturas da selva. Acho que era isso que eu queria mostrar.


Qual é a sua cena favorita de Mogli?

Eu realmente amo a cena da jaula entre Moglie e Bagheera. Há uma versão desse filme só com os atores. E ver Christian (Bale) fazendo aquela atuação tão bonita. Foi a cena mais bonita de gravar e até hoje quando vejo, tantos anos depois, sinto a mesma coisa de que quando gravamos.

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