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Correio Braziliense

Escritora Edna Rezende dá forma ao seu novo livro 'A duras penas '

Edna apresenta um conjunto de personagens que impressiona e configura a realidade humana do mundo


postado em 05/01/2019 06:45

Edna Rezende: narrativa conduzida pelos pássaros para falar do mundo humano(foto: Rafael Ohana/CB/D.A Press)
Edna Rezende: narrativa conduzida pelos pássaros para falar do mundo humano (foto: Rafael Ohana/CB/D.A Press)
A mágica das aves, o desejo de voar e o fascínio pelas asas vêm de longe, bem antes do arquétipo de Ícaro. Na busca de sua sobrevivência, os homens, nos seus primórdios, observavam os pássaros. Eles são encontrados na mitologia grega, nas sagas nórdicas e celtas, no folclore russo e alemão e até mesmo a forma hieroglífica egípcia é chamada de “o alfabeto dos pássaros”.

Mas Edna Rezende não precisou decifrar “la langue des oiseaux” — a língua dos pássaros usada pelos trovadores da França medieval — para dar forma ao seu novo livro, A duras penas, Editora Patuá, 2018.

A autora simplesmente fez dos pássaros, alternando com as pessoas, os narradores de seus 10 contos. Neles, Edna Rezende apresenta um conjunto de personagens que impressiona e configura a realidade humana do mundo.

Faz do universo cotidiano a matéria dos sentidos e determina que o leitor receba essas impressões na orla sensorial. Com sua magia verbal, Edna traduz os sentimentos mais comuns e inclui o seu tecido filosófico nos desfechos incomuns dos contos.

A cacatua afirma que “os humanos desdizem com gestos o sentido das palavras que acabam de pronunciar”. A humanidade vem na voz da Joaninha-de-barro “a incerteza é uma tortura constante, que se projeta no tempo. Muito do que penso se me afigura como encenação, invencionice. Quero adiar a morte contando minha história, preenchendo lacunas verossímeis ou não. Seria eu uma Xerazade de penas?”.

No quinto conto, o coleiro diz que precisa se lembrar de que é um passarinho e, no espetáculo que transcorre em seu quintal, afirma ser maestro e diretor “...ávido daquela estranheza magnífica, que mascara a realidade e me encaminha para o sonho.”

Edna Rezende nos mostra em A duras penas ser fiel à musicalidade das palavras. Elas soam como uma litania, um canto simples e denso, por vezes de uma crueza ímpar, mas sempre sem abrir mão do ritmo e da música.

(foto: Reprodução/Internet )
(foto: Reprodução/Internet )
O gesto básico dos textos da autora articula um questionamento fabricado no simbólico e concluído na nossa visão de mundo. Esse gesto faz a palavra transparente, a palavra como locus do poético, do voo do qual somos todos protagonistas.

Assim, a brevidade da vida, a incompreensão, os equívocos e os desencontros ganham extenso relevo e se fazem reflexão.

O quintal, o voo, o fogão, a mulher, o pássaro, o cobogó, a traição, o tempero — o orgânico e o inorgânico — são imagens naturais das cenas representativas da vida humana. Talvez produto da cumplicidade da autora com as artes cênicas e a dramaturgia.

Mais do que histórias que emocionam, A duras penas traz referências que evidenciam o refinamento cultural de Edna Rezende. O Pássaro de Fogo, de Stravinsky, o mausoléu Taj Mahal, erguido por amor a Mumtaz Mahal, os escritores Allan Poe, Olavo Bilac, Fernando Pessoa, Ivan Turguêniev e o zoólogo Konrad Lorenz passeiam livres pela obra de Edna sem pedantismos e sem embates com sua escrita clara e precisa.

Com um belo projeto gráfico, a Editora Patuá nos presenteia um objeto livro de qualidade. As aquarelas de Leonardo Mathias prescindem de adjetivos, transbordam poesia e promovem uma indiscutível aliança com os contos de Edna Rezende.

Portanto, o leitor terá em mãos um livro de excelência que, certamente, e sem trocadilhos, alçará voos maiores. Lendo-o talvez se tenha a sensação de beber o sangue do dragão Fafnir da ópera Siegfried, de Richard Wagner — e passaremos todos a entender o canto dos pássaros.

Ana Maria Lopes é jornalista e poeta

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