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Correio Braziliense

Globo de ouro abraça a diversidade mas é marcado por "injustiças"

'Bohemian rhapsody', o grande vencedor da noite, recebeu muitas críticas


postado em 08/01/2019 08:23

'Bohemian rhapsody', com Rami Malek (melhor ator), obteve controversa premiação(foto: Tolga Akmen/AFP)
'Bohemian rhapsody', com Rami Malek (melhor ator), obteve controversa premiação (foto: Tolga Akmen/AFP)

Entre a celebração de uma corrente de amor defendida pelo cantor Freddie Mercury, representado no ganhador do Globo de Ouro de melhor filme Bohemian rhapsody, e os bastidores tumultuados de uma produção idolatrada nas bilheterias (que galga lucro de US$ 743 milhões), coube ao produtor do longa-metragem, que presta tributo ao líder da banda Queen, Graham King estar no palco para receber “o espetacular e inesperado” maior prêmio da noite destinado ao cinema. Ele agradeceu a Mercury (morto em 1991): “Obrigado por nos mostrar o poder de abraçar seu verdadeiro eu”.

Defendendo o impacto do prêmio na carreira da fita, Brian May (guitarrista e compositor do Queen), que é produtor musical executivo do longa, aproveitou o pódio para tripudiar a repercussão negativa em grande parte da crítica, em entrevista, disparou: “Para ser honesto, o erro que alguns dos críticos fizeram foi o de recorrer ao trailer e, de lá, tirar conclusões precipitadas. Quando as pessoas reivindicam algo, é difícil que removam a percepção inicial. Alguns críticos assumiram, porém, com leveza: ‘Na verdade, estávamos errados’”.

Ainda nos bastidores da festa, o premiado ator Rami Malek foi categórico, endossando a singularidade de Freddie, e acrescentou que “nada se oporia a nossa vontade (da equipe) de demonstrar amor, de efetivar a celebração pretendida e de ofertar a adulação da qual ele sempre foi merecedor”. A autenticidade do legado de Mercury (ainda que incompleta no transcorrer de Bohemian rhapsody) ancorou os discursos dos premiados.

Os menos de 100 jornalistas internacionais, que votam para o Globo de Ouro, estenderam o tapete vermelho para uma das zebras da noite, que, desde as indicações do prêmio, se delineava: competir longe da categoria de musical (e ladeada pela concorrente Nasce uma estrela) foi mais do que uma glória para Bohemian rhapsody.

A situação abriu frente para injustiçados, no caso os detentores das mensagens progressistas (e de extermínio de racismo) apregoadas pelo cinema de Spike Lee (Infiltrado na Klan), Ryan Coogler (da aventura com estofo Pantera Negra) e Barry Jenkins (de Se a rua Beale falasse). Candidato em apenas duas categorias, revertidas em prêmios, Bohemian rhapsody é um projeto que se arrastava desde 2010, quando do anúncio de produção a ser encabeçada por Sacha Baron Cohen, que abandonou a obra em 2013. Na ocasião, ele disse entender a intenção do Queen de “proteger o legado da banda”.

Escalado para o protagonismo, Rami Malek entrou para o set em 2016, sob o comando de Bryan Singer, diretor que viria a amargar demissão, em 2017, e seria substituído por Dexter Fletcher (do futuro longa Rocketman). Coube ao produtor Graham King defender os prêmios de um filme cujo diretor alegou problemas de saúde estendidos a familiares (e que não teriam tido respaldo do estúdio Fox). Certo é que a imagem de Singer estava maculada, por acusações de conduta sexual inapropriada.

Favorito, o diretor mexicano Alfonso Cuáron conquistou por dois prêmios por 'Roma'(foto: Robyn Beck/AFP)
Favorito, o diretor mexicano Alfonso Cuáron conquistou por dois prêmios por 'Roma' (foto: Robyn Beck/AFP)

Contra preconceitos

O Globo de Ouro, de modo geral, deu recado da existência da diversidade, valorizando personagens vitoriosos na luta contra preconceitos, talentos estrangeiros da indústria do cinema, tipos idosos em enredos comoventes e reforçando a onda forte que renovou os votos do empoderamento feminino. Vencedora como melhor atriz, Glenn Close (de A esposa) ressaltou a importância de as mulheres se permitirem a busca por prazeres que extrapolem o cumprimento dos antiquados deveres associados ao casamento.
 
Versando sobre uma inusitada amizade entre um músico negro e o motorista branco dele, Green Book: O guia foi dos títulos que surpreendeu no Globo de Ouro (levou filme cômico, roteiro e melhor coadjuvante para Mahershala Ali), e trouxe oportunidade para o diretor Peter Farrelly relembrar limitações passadas que ainda ecoam na sociedade que bane a diversidade e prioriza a individualidade. Ele preconizou a necessidade (e a busca das pessoas) por amor e felicidade “que podem ser divididos”, além de ressaltar o poder positivo de as pessoas serem tratadas de forma “igualitária”.

Homem-aranha no aranhaverso, premiado como melhor animação, deu oportunidade para que Peter Ramsey (codiretor) ressaltasse a universalidade do heroísmo em que “qualquer um pode usar a máscara, sendo africano ou porto-riquenho”. Premiado como melhor diretor (por Roma), o mexicano Alfonso Cuarón demonstrou no conteúdo do discurso que a “estranheza da investida em novos mundos (nas narrativas de cinema) ressalta o quanto temos em comum com os outros”.

O “laboratório” para a essência do criador, como ele enfatizou, esteve no México. Sandra Oh, premiada pela série Killing Eve, também saudou a diversidade, no discurso em que agradeceu aos pais coreanos, presentes no evento. Ainda no campo da tevê, os discursos se afunilaram para elevar o mérito da diversidade. Premiado pela melhor série (O assassinato de Gianni Versace: American crime story), o produtor Ryan Murphy convocou os “seres humanos a praticar, diariamente, amor e empatia”. Premiado como melhor ator, nesta produção, Darren Criss destacou o fato de a mãe dele ser uma filipina que incorporou sonhos altos para a vida não apenas dela, mas, de pronto, para ele. Melhor ator coadjuvante, em série de tevê, Ben Wishaw (de A very english scandal), comemorou o destaque para seu personagem, “um ícone da comunidade LGBT”.

Injustiçados

Amy Adams e Lady Gaga foram apontadas na internet como as atrizes mais injustiçadas da edição de 2019 do Globo de Ouro. A primeira estava indicada em duas categorias: melhor atriz de série limitada e telefilme por Objetos cortantes e melhor atriz coadjuvante pelo filme Vice. E não levou nenhuma, perdendo para Patricia Arquette, por Escape at Dannemora, e Regina King, pela atuação em Se a rua Beale falasse.
 
As duas derrotas de Amy na 76ª edição se juntam a outras cinco na carreira da atriz. Desde que foi indicada pela primeira vez, em 2008, ela levou estatuetas do Globo de Ouro em duas oportunidades. Adams também é conhecida por bater sempre na trave no Oscar. Foi indicada cinco vezes e nunca levou.

Já a revolta dos fãs em relação à Lady Gaga se dá ao grande sucesso de Nasce uma estrela tanto com o público quanto da crítica. Mesmo assim, a cantora se saiu bem: pelo menos, foi para casa com um troféu. Apesar de ter perdido o prêmio de melhor atriz, Gaga foi premiada pela música original Shallow.

O diretor Spike Lee foi outro que voltou com as mãos abanando da premiação. Depois de figurar na lista de indicados reparando um erro do prêmio, que só havia indicado o cineasta em outra oportunidade em 1990 por Faça a coisa certa, o Globo de Ouro parece não ter “feito a coisa certa” e Lee perdeu o prêmio de melhor diretor por Infiltrado na Klan para Alfonso Cuáron, que levou a segunda estatueta por Roma.

Em relação às produções, no cinema Nasce uma estrela e na televisão Objetos cortantes, talvez, tenham sido as obras que se tinham mais expectativas que não foram cumpridas. O longa-metragem de Bradley Cooper apareceu em cinco categorias e levou apenas uma. Na televisão, coube o cargo parecido a Objetos cortantes, que foi lembrada em três categorias e também só acabou vencendo uma: o prêmio de melhor atriz coadjuvante em série limitada e telefilme para Patricia Clarkson.

Apesar de perder o prêmio de melhor atriz de drama, Lady Gaga foi para casa com a estatueta de melhor canção original por 'Shallow', de 'Nasce uma estrela'(foto: Frazer Harrison/AFP)
Apesar de perder o prêmio de melhor atriz de drama, Lady Gaga foi para casa com a estatueta de melhor canção original por 'Shallow', de 'Nasce uma estrela' (foto: Frazer Harrison/AFP)

Surpresas na tevê

Não foi apenas Bohemian rhapsody que surpreendeu no Globo de Ouro. As categorias televisivas demonstraram que as apostas da crítica em geral estavam erradas. A primeira surpresa veio com Michael Douglas (O método Kominsky) batendo Bill Hader (Barry). O prêmio já foi um termômetro para a boa noite da comédia da Netflix na premiação, que se sagrou a melhor comédia.

Depois, mais surpresa, inclusive até dos vencedores, com os prêmios de melhor ator em série dramática para Richard Madden, o eterno Robb Stark de Game of thrones, pelo segurança em Bodyguard, e melhor ator coadjuvante em série, minissérie ou telefilme para Ben Whishaw por A very english scandal. Esperavam-se resultados com Jason Bateman (Ozark) ou Matthew Rhys (The americans) na primeira categoria e Edgar Ramirez (O assassinato de Gianni Versace: American crime story) e Henry Winkler (Barry) na segunda.

E teve mais. Patricia Arquette bateu a favorita Amy Adams em melhor atriz em minissérie ou telefilme; O método Kominsky superou a elogiadíssima The marvelous Mrs. Maisel na categoria de melhor comédia/musical; e Sandra Oh conseguiu levar o prêmio de melhor atriz em série dramática por Killing Eve deixando poeira para nomes muito celebrados, como Julia Roberts (Homecoming), Keri Russell (The americans) e Elisabeth Moss (The handmaid’s tale).

Como esperado, a série The americans finalmente foi contemplada com um Globo de Ouro por sua última temporada como melhor série dramática após amargar apenas poucas indicações nos cinco anos de exibição na tevê.

A segunda temporada da antologia American crime story foi para casa com duas estatuetas (melhor minissérie ou telefilme e melhor ator em minissérie ou telefilme) e Rachel Brosnahan ganhou o segundo Globo de Ouro por The marvelous Mrs. Maisel, que se junta ao Emmy conquistado no ano passado pelo papel da atriz de stand-up comedy.

Audiência em queda
O Globo de Ouro marcou o pior índice da premiação desde 2015. Segundo informações do The Hollywood Reporter e do Deadline, a cerimônia marcou 12,7 pontos de audiência para NBC, emissora americana. Em 2018, o número foi de 13,3 pontos. Essa foi a cerimônia menos vista desde 2015, quando o Globo de Ouro teve a dupla de humoristas Amy Poehler e Tina Fey à frente da apresentação. Apesar de o número ser baixo, a queda de audiência do Globo de Ouro se mostrou menor do que do Oscar, do Emmy e do Grammy, que tiveram uma redução de mais de 10% de audiência nas mais recentes edições, enquanto o Globo de Ouro amargou apenas 5% de queda. A premiação, entretanto, esteve nos assuntos mais comentados do mundo no Twitter.

(foto: Twitter/Reprodução)
(foto: Twitter/Reprodução)

A “moça da água”
A modelo Kelleth Cuthbert roubou a cena no tapete vermelho do Globo de Ouro ao aparecer posando em fotos das celebridades da premiação. A jovem viralizou como a “moça ou garota da água” por aparecer repetida vezes ao fundo das fotografias dos famosos sempre com uma bandeja de água e um sorriso estampado no rosto. No Twitter, ela se tornou trending topics e, no dia seguinte, amanheceu com novos seguidores nas redes sociais. Kelleth ficou surpresa com a repercussão e postou no Instagram logo cedo a expressão “morri” sobre o recém-estrelismo.

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