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Correio Braziliense

Ilustrações de Oswaldo Goeldi para livros de Dostoiévski vira exposição

Ao todo, quatro livros do russo ganharam ilustrações feitas por Goeldi. Delas, 96 fazem parte da exposição Goeldi & Dostoievski, a partir de hoje, ao lado dos livros originais na Galeria Vitrine da Caixa Cultural Brasília


postado em 12/01/2019 07:30 / atualizado em 12/01/2019 10:00

As temáticas abordadas por Dostoiévski estavam em consonância com o trabalho de Goeldi(foto: Reprodução)
As temáticas abordadas por Dostoiévski estavam em consonância com o trabalho de Goeldi (foto: Reprodução)

O retrato dos oprimidos que povoam as linhas de Fiódor Dostoiévski ganhou expressão visual na mão de diversos artistas ao longo da história, com diferentes contornos e interpretações. Entre ilustrações que intercalam os textos do grande autor russo, algumas das que mais se destacaram foram feitas pelo carioca Oswaldo Goeldi, que sublinhou toda a angústia e crueza dos personagens de Dostoiévski, considerado o pai do Realismo, por meio de técnica bem conhecida no Brasil, a xilogravura. Em outra obra, utilizou desenhos.

Ao todo, quatro livros do russo ganharam ilustrações feitas por Goeldi. Delas, 96 fazem parte da exposição Goeldi & Dostoievski, a partir de hoje, ao lado dos livros originais na Galeria Vitrine da Caixa Cultural Brasília. Por meio da xilogravura, Goeldi exprimiu o drama de três romances do escritor a pedido da editora José Olympio, entre 1944 e 1953: Humilhados e ofendidos, Memórias do subsolo e Recordações da casa dos mortos. Além das obras originais, a exposição conta com os desenhos que ilustram O idiota e uma carta manuscrita a próprio punho — uma autobiografia que ele escreveu em 1949.

A gravuras são parte do acervo do Projeto Goeldi, extensão da Associação Oswaldo Goeldi, formalizada como instituição no ano 2000, mas que trabalha desde 1975 com a intenção de preservar os trabalhos do artista, além de objetos pessoais, fotografias, entre outras memórias. A sede fica em Taubaté, interior de São Paulo, e guarda mais de 2000 obras de Oswaldo Goeldi.

Lani Goeldi, sobrinha-neta do artista, conta que o ilustrador foi convidado pela editora José Olympio na década de 1940 para ilustrar alguns livros, entre eles os que são tema desta exposição. “A obra do Goeldi ficou tão bem engajada com a obra de Dostoiévski, que posteriormente livros editados na Rússia tiveram artes do Goeldi selecionadas para ilustrar”, relata.

Segundo ela, os temas tratados pelos dois artistas se assemelhavam. “A obra do Goeldi sempre foi humanizada. O foco dele sempre foram os excluídos da sociedade, os oprimidos, os vagabundos, os cachorros abandonados, as pessoas simples. Ele tem essa visão humanista no trabalho dele. Por isso que a obra dele é atemporal. E esse livros que ele ilustrou falam exatamente do exílio”.

Em Humilhados e ofendidos (1861), Dostoiévski fala da exclusão de povos que resistem à opressão motivada pela classe social. A vida nas prisões da Sibéria é tema de Recordação da Casa dos Mortos (1862). Um dos títulos mais aclamados do escritor é O idiota (1869), com o humanista e epilético Píncipe Míchkin no centro da narrativa, que remete a Cristo e a Dom Quixote. Memórias do subsolo (1864), que segue as memórias de um empregado civil em São Petersburgo, é considerada por muitos a primeira obra existencialista escrita.

Contrastes

Nascido no Rio de Janeiro, o artista plástico e professor Oswaldo Goeldi (1895 — 1961) passou a infância em Belém, capital paraense, antes de se mudar para a Suíça, onde morou por 22 anos e montou sua primeira exposição. Em 1922, estaria ao lado dos intelectuais vanguardistas na Semana de Arte Moderna. Um ano depois, aprendeu a xilogravura, a principal técnica da carreira, com Ricardo Bampi. Goeldi foi reconhecido internacionalmente com premiações, como o Prêmio de Gravura da 1ª Bienal de Veneza em 1950 e o Prêmio de Gravura da 1ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1951.

A arte de talhar em matrizes fornece imagens chapadas e com fortes contrastes entre preto e branco — ele também conferiu cores a alguns trabalhos. A predominância do preto combinado com os traços das obras é capaz de transmitir a clausura emocional e a melancolia dos personagens que grava.

“A paixão dele foi a xilogravura. Quando ele se encontrou como xilógrafo, começou a dar aula da técnica na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro. Ele entrou como professor, apesar de se considerar apenas orientador”, conta a curadora da exposição Lani Goeldi. Ela e a família protegem e divulgam a arte de Oswaldo.

A curadora destaca que a mostra é toda acessível para portadores de necessidades especiais. A áudiodescrição das obras e também o conteúdo em libras estarão disponíveis a partir da leitura do QR Code, identificado nas fichas técnicas dispostas das obras, que pode ser feita utilizando aplicativo para celular. Lani Goeldi pretende lançar uma biografia de Oswaldo Goeldi ainda no fim deste ano.

* Estagiário sob a supervisão de Vinicius Nader

Goeldi & Dostoiévski
Caixa Cultural (SBS Q. 4, lt. 3/4). De hoje a 24 de março. De terça a domingo, das 9h às 21h. Entrada franca. Classificação indicativa livre.


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