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Correio Braziliense

Pensar: Albert Camus provoca reflexão sobre a indiferença à dor do outro

'A peste', de Albert Camus, livro já setentão (1947) que, no entanto, conserva o frescor do clássico, cujo interesse é, por isso mesmo, permanente


postado em 12/01/2019 07:15

Albert Camus: o escritor e filósofo provoca uma reflexão em 'A peste'(foto: Stringer/AFP - 3/5/17)
Albert Camus: o escritor e filósofo provoca uma reflexão em 'A peste' (foto: Stringer/AFP - 3/5/17)
Na plataforma da estação do trem começa e termina a bizarra história da peste que, assim como veio, partiu, não se sabe pra onde... Um dia, que seria como outro qualquer em Oran, cidade feia e curiosa, cujos cidadãos tinham certa dificuldade para morrer, apareceu um rato morto na escada do consultório do doutor Bernard Rieux. Depois vieram outros, e mais outros, e muitos, muitos mais... Era só o começo do inferno. Em seguida, as pessoas começaram a morrer também. E foram morrendo, morrendo depressa... Era a peste.

Esse é o tema do romance A peste, de Albert Camus, livro já setentão (1947) que, no entanto, conserva o frescor do clássico, cujo interesse é, por isso mesmo, permanente. Como não gostar de um livro assim? Tudo nele nos instiga e faz refletir: o estranhamento da situação por que passam as personagens, o absurdo que a cidade vive, a dura condição humana, o sofrimento a que todos estão submetidos, o isolamento, a separação, a dor, a morte.

O enredo poderia facilmente nos levar a julgar o livro uma alegoria. Mas não é. Isso seria reduzi-lo. Talvez até fosse se não se tratasse de Camus, filósofo que, com sua visão humanística, aprofundou a análise da peste, doença desconhecida que se abateu sobre a pequena cidade; que coloca na boca da personagem Jean Tarrou, por exemplo, outra ideia da peste: aquela que cada um traz em si, que está incorporada, arraigada na sociedade e é responsável por toda espécie de injustiça, por toda indiferença.

A indiferença é o escândalo, a verdadeira banalização do mal. E a maior desgraça é acostumar-se à desgraça, diz o narrador. Mas há esperança e bondade, pois não foi outra a razão por que durante exatos nove meses — como numa gestação —, as pessoas puderam suportar o pesadelo, a desgraça que caiu como uma noite macabra sobre a gente de Oran.

Foi graças ao trabalho do doutor Bernard Rieux, que não queria ser santo como Tarrou, mas tão somente um homem e compartilhar com seus concidadãos o amor, o sofrimento e o exílio — e seus ajudantes, como o próprio Terrou, homem extraordinário que lutava contra a injustiça da pena de morte; o funcionário municipal Grand, que se dedicou de corpo e alma à luta contra esse mal; e ainda Rambert, jornalista recém-chegado à cidade e já prisioneiro da peste como os demais habitantes.

Esse jornalista, que tentou de tudo para fugir e encontrar a mulher amada e, como Orfeu, gritou seu nome, surpreende o leitor ao desistir do amor, aceitando ficar e ajudar os necessitados, dando um novo sentido à sua existência. Em vez de arriscar a vida fugindo clandestinamente da cidade, optou por arriscá-la por uma razão superior, pela vida do próximo. Abdicou do individual pelo coletivo.

E há também a personagem fundamental para o contraponto da história: o padre Paneloux, cujos sermões soaram como as trombetas do Apocalipse, lembrando a todos que a cidade estava condenada por um crime desconhecido, e que a peste era castigo divino para o pecado dos homens; e depois refletindo, com tristeza, sobre o difícil amor a Deus e o sofrimento imposto a todos naquela cidade.

Entre as ocorrências dos milhares de vítimas da peste, pelo menos uma merece atenção pelo seu simbolismo. Trata-se da morte do ator da companhia da ópera que, impedido de sair da cidade, representava no teatro a mesma peça havia meses: o Orfeu, de Glück. Certa noite, na cena em que Orfeu gritava por Eurídice no Inferno, o ator chegou até o público e desabou. A morte não o deixou resgatar Eurídice.

O grito de Orfeu calou-se ali para sempre. Assim, Rambert gritou o nome da amada no alto da montanha. Assim o doutor Rieux chamou por sua mulher na estação do trem que a levava para uma jornada sem volta... O mito de Orfeu está presente nesse romance, seja pela separação dos amantes, seja pela viagem ao mundo dos mortos, isto é, o inferno em que se transformou Oran.

Mas, como tudo passa, um dia a cidade se viu libertada do anjo exterminador: e foram muitos os abraços, o povo dançou nas praças, os cafés e os bares se encheram de vida, os sinos repicaram anunciando um novo tempo, procurando apagar os vestígios da indesejada das gentes.

Os canhões rebentaram no céu com o seu estrondo. É que a liberdade faz barulho... Mas, em meio ao barulho da festa, insidiosamente, o bacilo da peste, que não morre nem desaparece, esperava nos quartos, nas roupas, nas malas, o dia de acordar os ratos e mandá-los “morrer numa cidade feliz”, vaticina o narrador.

E o incansável doutor Bernard Rieux, médico da esperança, que viveu e testemunhou esses terríveis acontecimentos que ninguém poderia imaginar, que se recusou, como Mitya Karamazov, a ver algum tipo de justiça no sofrimento de uma criança, e que, no fim, foi vencedor na luta pela vida — é, sim, a grande personagem que homenageia os verdadeiros médicos. Talvez tenha sido para ele o que disse um dia o poeta latino Horácio: “Um médico vale por muitos homens”.


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