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Correio Braziliense

Chega às livrarias coletânea com a obra de Lucio Costa

Depois de mais de duas décadas fora de catálogo, chega às livrarias uma nova edição de Registro de uma vivência, coletânea de escritos, croquis, projetos, cartas e aquarelas do inventor de Brasília


postado em 13/01/2019 06:15

Lucio Costa era mais do que um urbanista; escreveu ensaios e estudos sobre arquitetura(foto: Editora 34/Reprodução)
Lucio Costa era mais do que um urbanista; escreveu ensaios e estudos sobre arquitetura (foto: Editora 34/Reprodução)

 
Lucio Costa não era apenas um autor de projetos arquitetônicos ou urbanísticos (dizia que o arquiteto não rabisca, arquiteto risca); era um pensador humanista. O Plano Piloto é um texto fundante de Brasília, a um só tempo, técnico e poético: “Ele colocou o Plano Piloto no Planalto Central com a sabedoria de um arquiteto do cosmos”, afirma o poeta Francisco Alvim. E, de fato, a proximidade com a esfera celeste em Brasília é um dos legados de Lucio Costa aos brasilienses.

Foi ele quem nos colocou pertinho do céu e nos deu a impressão de viver em uma cidade com um mar movendo-se de ponta-cabeça no espaço sideral.

Alvo de críticas de arquitetos e urbanistas nas décadas de 1970 e 1980, o projeto urbanístico do Plano Piloto agrada cada vez mais aos brasilienses moradores das superquadras, que aprenderam a viver as coisas boas que a cidade oferece.

Lucio sempre teve apreço pela palavra escrita. E, logo na epígrafe do livro Registro de uma vivência, ele estabelece uma polêmica elegante com uma máxima inglesa: “Words, words...” (palavras, palavras...): “Discordo do sentido pejorativo dessa sentença inglesa de uma palavra só. Daí a compilação”. Lançado em 1995, o livro estava fora de catálogo desde quando foi esgotada a segunda tiragem de 1997. Registro de uma vivência sai agora em terceira edição revista (Editora 34 e Edições Sesc) com o mesmo projeto gráfico da primeira.
 
Foto da fachada de prédio do Parque Guinle, no Rio de Janeiro: inspiração para os blocos de Brasília(foto: Editora 34/Reprodução)
Foto da fachada de prédio do Parque Guinle, no Rio de Janeiro: inspiração para os blocos de Brasília (foto: Editora 34/Reprodução)
 

Foi o próprio Lucio Costa quem concebeu a coletânea nos mínimos detalhes. A obra não obedece a nenhuma linha cronológica. Ela tem uma estrutura que a arquiteta e filha Maria Elisa Costa chama de cinematográfica: “Meu pai gostava muito de cinema”. A leitura é prazerosa, Lucio escreve muito bem, com rara precisão, fluidez, elegância e senso poético.

Não é apenas um livro teórico. Reúne textos, croquis, aquarelas, fotografias de família, projetos (construídos ou esquecidos), cartas, depoimentos, colaborações, fotos de casas e prédios numa montagem em harmonia e em contraste. Pode ser lido a partir de qualquer ponto. Oscar Niemeyer, Burle Marx, o Plano Piloto, Gustavo Capanema, o Eixo Monumental, Ismael Nery são alguns dos personagens  e temas das 648 páginas do livro.

Em entrevista ao Correio, Maria Elisa Costa fala sobre o gosto do pai pela palavra, a estrutura cinematográfica do livro, o humanismo, a relação com as artes plásticas, o legado do urbanista para Brasília e o futuro da cidade, entre outros temas.


SERVIÇO
Registro de uma vivência
De Lucio Costa. Coedição Editora 34 e Edições Sesc. Número de páginas: 656. Preço médio: R$ 150.


Entrevista// Maria Elisa Costa


Lucio Costa escrevia muito bem e produziu textos sobre arquitetura, urbanismo, artes plásticas. Os textos se tornaram referências sobre os temas que ele aborda. Quais os autores preferidos dele? Qual a relação que ele tinha com a palavra?

Sobre os autores preferidos dele, não sei! Mas sobre a parceria dele com a palavra, era completa: sempre buscou a palavra exata para expressar o que queria dizer. A meu ver, excelente escritor como sempre foi, lidava com a relação palavra-texto como se fosse uma partitura musical.


O livro revela que Lucio Costa não era apenas um arquiteto e urbanista, mas, sim, um pensador humanista. Que aspectos foram importantes na formação do humanista?

Impossível separar as coisas na sua formação! Ele nunca foi “especialista”, e sua liberdade de pensamento o levava a se aprofundar mais naquilo que o seduzisse. Creio que o mais importante na formação do humanista foi sua permanente curiosidade sobre o ser humano.


O livro traz desenhos e textos de Lucio Costa sobre outros artistas. Qual a relevância das artes plásticas na formação como arquiteto e urbanista?

Ele sempre considerou arquitetura como uma das três artes plásticas, como eram ensinadas da Escola de Belas Artes onde estudou — pintura, escultura e arquitetura. Como, desde menino, por iniciativa de seu pai, aprendeu a aquarelar, sua formação profissional sempre incluiu as artes plásticas, com total naturalidade.


A estrutura do livro, concebida por Lucio Costa, não segue uma linha cronológica que, como você escreve no novo prefácio, até hoje surpreende. Como percebe o sentido de uma montagem cinematográfica dos textos?

O Registro não é um livro sobre Lucio Costa, é Lucio Costa “em forma de livro” — ou melhor dizendo... em forma de filme: ele sempre gostou de cinema. A estrutura do seu relato foi concebida como se fosse roteiro de um filme — com ritmo, pausas, surpresas, etc., a meu ver para tornar o livro mais sedutor, exatamente pelo inesperado!


Clarice Lispector escreveu que os arquitetos que inventaram Brasília deixaram “espaço para nuvens”. Como percebe a interação entre arquitetura e natureza, arquitetura e meio ambiente, no projeto urbanístico na evolução da cidade ao longo do tempo?

Primeiro, uma correção: O Plano Piloto de Brasília é de autoria exclusiva de Lucio Costa, ou seja, não cabe o plural relativo a “os arquitetos” que inventaram Brasília. (Oscar Niemeyer projetou os edifícios principais obedecendo à volumetria construtiva determinada pelo projeto urbano). Ao contrário do Rio de Janeiro, onde a presença das montanhas “comanda” a paisagem da cidade, no Planalto Central o céu encosta no chão — onde quer que se esteja. Uma das grandes qualidades do projeto urbano com que Lucio Costa ganhou o concurso para o Plano Piloto da Nova Capital foi ter percebido a necessidade de se criar uma “paisagem construída” visualmente forte, incluindo nela a presença do céu — daí o Eixo Monumental. Paralelamente, para a moradia, propôs a sequência das superquadras, com seus comércios locais e equipamentos complementares ao longo do Eixo Rodoviário, solução aprovada de imediato pelos moradores.


Como explica o fato de que, apesar de o projeto urbanístico de Brasília sofrer críticas, ele ter sido aprovado pelos moradores da cidade?

As críticas foram intelectuais, e a relação dos moradores com a cidade foi real!
 

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