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Correio Braziliense

Sérgio Magalhães lança disco de sambas autorais: 'retribuição a Brasília'

Radicado no DF, o compositor carioca Sérgio Magalhães registra em primeiro CD canções autorais gravadas por nomes como Teresa Lopes, 7 na Roda e Cris Pereira


postado em 13/01/2019 07:00

A inspiração de Magalhães vem, normalmente, no canteiro de obras: Quando estou trabalhando, percebo que a música está rolando(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
A inspiração de Magalhães vem, normalmente, no canteiro de obras: Quando estou trabalhando, percebo que a música está rolando (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

 
Há quase 20 anos, o carioca Sérgio Magalhães arrumou as malas e veio para a capital federal. Mestre de obras, tinha acumulado muito trabalho no Rio de Janeiro e estava precisando de férias. Foi em busca de descanso que Magalhães chegou para uma temporada à casa dos “Guaras”, os primos que moravam em Sobradinho, ao lado do filho que, na época tinha 5 anos, e apenas um item da construção civil, uma espátula. Daquele dia em diante, nunca mais deixou o Distrito Federal.

E o que o manteve aqui? “A tranquilidade, a organização”, explica. Mas, sem dúvidas, foi a música também. Apesar de no Rio de Janeiro ter começado a escrever algumas composições, ter um grupo de “esquina” influenciado pelo Fundo de Quintal e até ter participado de um concurso de samba, foi no quadradinho que entendeu que tinha jeito para a música. “Já acontecia alguma coisa no Rio. Ao vir para Brasília, as coisas foram ficando mais claras. Uma amiga e vizinha pediu para eu fazer uma serenata, lembrei de uma música que tinha feito e ela começou a me incentivar. Mas não levei aquilo muito a sério. Era um período muito complicado”, lembra.

Com o incentivo, participou do concurso Canta Cidade Livre, no Núcleo Bandeirante, e teve um samba entre os 10 primeiros colocados. Lá, conheceu um violonista que o orientou a se inscrever na Escola de Música de Brasília. Inscreveu-se e conquistou uma das seis vagas para o curso de canto e percepção musical. Na escola, conheceu o violonista Jaime Ernest Dias, que mudou a vida dele para sempre. “Ele me colocou na rua, me apresentou todo mundo da cidade e também gente de fora, como Dona Ivone Lara e Nelson Sargento, me mostrou e ensinou várias coisas até me convencer a compor”, revela Sérgio Magalhães.

Essas composições incentivadas por Dias, pelos amigos e pela família integram o primeiro disco do artista lançado no fim do ano passado com ajuda do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) e o axé dos orixás, como ele define. É o álbum Ouro do meu peito, que é formado por 13 faixas, sendo 12 escritas pelo carioca e apenas uma de Magalhães em parceria, a música Guardião, feita com Clodo Ferreira. “Todas essas músicas eu já tinha. Tem composições que foram gravadas por Teresa Lopes, Ana Reis, Cris Pereira e 7 na Roda. Eu não queria gravar, pois não me considero um cantor. Mas o pessoal começou a falar que eu tinha que deixar um registro”, explica o sambista.

Primeiro álbum

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

 

Com produção e direção musical de Fernando César e arranjos de Vinícius Magalhães (o filho de Sérgio que seguiu os passos dele e virou instrumentista), Lucas de Campos, Jaime Ernest Dias e Rafael dos Anjos, o disco traz Sérgio cantando as principais composições, entre elas, algumas bastante autobiográficas, como a faixa-título que surgiu de um pesadelo, que ele acredita ter sido uma metáfora a algo que ele fazia: “A negação ao título de sambista”. Na canção, ele responde: “Não, não me impeça de cantar samba/ Eu não posso resistir/ Em espargir o outro do meu peito/ A inspiração me dá o direito/ Pode até me torturar se quiser/ Nem açoite de feitor, nem mandinga de mulher/ Vai me impedir de cantar samba”.

Outra música que traz as experiências de Magalhães é Todo tempo é pouco, a segunda do álbum, em que o compositor fala sobre a rotina de um trabalhador em uma construção. “Pega e serra o ferro para formar/ Que todo tempo é pouco/ O serviço é de louco/ Vamos piãozada trabalhar”. “Geralmente, a inspiração vem quando eu estou trabalhando no canteiro de obras. Eu não sou de sentar e escrever. Meu processo é natural e espontâneo. Quando estou trabalhando percebo que a música está rolando. Então, eu gravo. Já até escrevi música em saco de cimento”, revela ao explicar por que dedicou uma música ao ofício na construção civil.

Apesar de ter tido uma resistência inicial ao gravar um disco, hoje, Sérgio Magalhães enxerga o trabalho de duas formas. “É um disco de pai para filho”, diz, primeiramente, citando Marcus Vinícius Magalhães, que toca 7 cordas e atualmente se dedica à música no Rio de Janeiro. E depois emenda: “Embora seja singela, essa é uma retribuição a tudo que Brasília me deu”.

Com o disco físico distribuído de mão em mão, disponível nas plataformas digitais e por pressão dos amigos, Sérgio deve fazer um show de lançamento, que ainda não tem data prevista, mas ele almeja subir ao palco do Clube do Choro ou do Feitiço Mineiro, casas que sempre abriram as portas para ele. O compositor também quer outro show. Esse na rua, onde, segundo ele, é o lugar do samba: “O samba se elitizou muito. Ele tem que voltar para a rua, que é o lugar dele”.


SERVIÇO

Ouro do meu peito

De Sérgio Magalhães. Independente, 13 faixas. Disponível nas plataformas digitais.

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