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Correio Braziliense

Cineasta Alfonso Cuarón pode levar produção da Netflix a um Oscar

Diretor mexicano responsável por 'Roma' pode chegar ao pódio central da celebração do cinema em Hollywood


postado em 14/01/2019 08:24

Alfonso Cuarón: partidário do ideal de uma vida próspera(foto: Jon Kopaloff/Getty Images/AFP)
Alfonso Cuarón: partidário do ideal de uma vida próspera (foto: Jon Kopaloff/Getty Images/AFP)


Avesso a ideias de segregação e partidário, por completo, do ideal de uma vida integrada e próspera, o diretor mexicano Alfonso Cuarón, o primeiro diretor latino a ganhar um Oscar (há cinco anos, por Gravidade), não deixa dúvidas de seus princípios igualitários, quando abraça discursos como o de que “a existência de um ser humano precede a entrega de um passaporte”. Foi assim, no palco do recente Globo de Ouro, que ele confirmou o prestígio que pode levá-lo a posição da quebrar barreiras entre o audiovisual produzido para plataformas de streaming e o cinema criado para a telona. À frente de Roma, ele pode levar uma produção da Netflix para o pódio central da celebração do cinema em Hollywood.

“A experiência que completa Roma é inquestionavelmente estendida quando projetado nas salas de cinema”, disse Cuarón, na première do filme em Los Angeles. Noutra vitória recente, o diretor, que investiu num filme em preto e branco e sonda muito do vivido na infância, em meio à família de classe média alta, impediu que o longa (feito em espanhol) chegasse à Espanha, com legendas afuniladas para o castelhano. “Seria muito, muito ridículo — acho até ofensivo para o público”, disse, à imprensa estrangeira. Atento “A textura e a cor de outros sotaques”, o cineasta, aos 57 anos, parece ter alcançado o auge. Em Roma, agrega nostalgia infantil, com releitura da perspectiva de adulto.
 
'Roma': filme da Netflix tem chances de chegar ao Oscar(foto: Netflix/Divulgação)
'Roma': filme da Netflix tem chances de chegar ao Oscar (foto: Netflix/Divulgação)
 
 
Numa palestra para os votantes do Globo de Ouro, ele destacou o embrião do projeto, dedicado a Libo, a babá e o coração palpitante entre as muitas transformações pelas quais a família dele passou. “Libo veio de um povoado do estado de Oaxaca. Ela me contava histórias de sua infância e das dificuldades superadas por familiares; falava do pai que, por exemplo, brincava com um tipo de pelota ancestral que já nem existe mais. Na minha bolha de menino branco, percebia tudo como uma aventura, não notava que Libo era mais do que minha babá, e sim uma mulher com sonhos e problemas a serem resolvidos”.

Roma teve origem no medo do diretor, inserido na indústria estrangeira, perder a essência mexicana. “Tive que me reconectar com o que me levou a fazer cinema; reafirmar a razão pela qual o amo”, disse, em entrevista americana. Já estruturado, entre parte dos 25 anos nos quais Cuarón assumiu o posto de cidadão cosmopolita, o projeto foi atropelado pelo empenho em filmar Gravidade (2013), capaz de render sete prêmios Oscar (Cuarón foi dado como melhor diretor e editor do ano).

Curiosamente, Roma de Cuarón converge (em muito) e diverge, noutro bocado, de um clássico do cinema de Federico Fellini: Roma. Esse último, entretanto, transcorre na Itália, sendo, por igual, autobiográfico e com trama culminada nos anos de 1970; mas, além de agitado, está imerso num colorido exuberante. Numa toada serena, o criador Cuarón (diretor, roteirista, produtor, diretor de fotografia e comontador de Roma) atendeu praticamente a um chamado. “Ao entrar no projeto, sabia da necessidade de estar sozinho. Seria um processo muito íntimo. Teria de fazer algo para mim, e não para os outros. Tem sido muito bonito observar a reação do público nos diversos países em que o filme tem sido apresentado”, comentou, no site da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood.

Discurso atual

Impressiona, na carreira do cineasta de Grandes esperanças (1998) e Gravidade (2013), a atualidade alcançada pela sua produção, que contempla fitas cruas e duras como Filhos da esperança (filme de 2006 que prospecta 2027). Naquele longa se apresentava a descrença na humanidade, num contexto de ruptura do equilíbrio social, assolada por problemas gerados por ondas de imigração. Ganhador do Leão de Ouro (no Festival de Veneza), por Roma, o cineasta zelou pela liberdade criativa, elemento importante para o despontar dele no exterior, numa trajetória içada, por exemplo, por episódio de da série Fallen angels (1993), pela coprodução do longa O labirinto do fauno (2006) e pelo sucesso de E sua mãe também (2001), que levantou indicação ao Oscar de melhor roteiro.

Indicado em sete categorias do Bafta (destacado prêmio britânico), Roma reforça a autonomia de Cuarón que, para o projeto, se desprendeu de parceiros como Emmanuel Lubezki, Guillermo del Toro, Alejandro G. Iñárritu ou mesmo do irmão Carlos, habitual colaborador. Do México, ambiente das “cores específicas” para a formação dele, entretanto, nunca se desprenderá. Com vários “gracias” no palco do Globo de Ouro, Cuarón disse que, para Roma, se limitou a testemunhar e se comprazer com o trabalho das atrizes Yalitza Aparicio e Marina de Tavira, em cena. No mais, agradeceu mesmo ao México, “lugar que afiou minha criatividade”, como ele disse.

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