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Correio Braziliense

Nelson Freire volta a Brasília depois de quase uma década para show

Um dos pianistas mais importantes do mundo na atualidade apresenta concerto com peças de Chopin, Villa-Lobos e outros


postado em 15/01/2019 07:12 / atualizado em 14/01/2019 20:09

Este ano, o pianista Nelson Freire completa 70 anos de carreira. Um dos grandes mestres do piano mundial e talvez o maior pianista brasileiro vivo, Freire, com simplicidade, não esconde: “A cada apresentação sinto o mesmo friozinho na barriga. Seja em Brasília, seja em Berlim”.

Pois, nesta semana, na quinta-feira, será a vez de esse “friozinho na barriga” ser sentido em Brasília. Freire faz concerto no Teatro da Fundação Habitacional do Exército, com programa que inclui Beethoven, Chopin, Villa-Lobos, Scarlatti, Rachmaninoff, Albéniz e Handel.
 
(foto: Benjamim Eolavega/Divulgação)
(foto: Benjamim Eolavega/Divulgação)
 
 
“Chopin é o compositor mais universal, que toca direto no coração das pessoas. Tem um lugar muito especial no meu. Mas, tem todos os gênios, como Mozart, Beethoven, Bach e muitos outros, que enriquecem meu mundo”, afirma Freire, em entrevista ao Correio.

O mineiro Nelson José Pinto Freire se interessou por música clássica desde menino, ainda em Boa Esperança. Teve como mestras a paulista Lúcia Branco e a gaúcha Nise Obino, ao lado de quem chegou a se apresentar em Brasília. Aos 14 anos, Freire já chamava a atenção e era considerado uma virtuose do piano. Quando estreou internacionalmente, aos 23 anos, foi chamado de “o jovem leão do teclado” pela crítica de Londres.

Para Freire, é preciso que jovens tenham acesso à música clássica nas escolas. “Penso que, como nos países adiantados, a música deveria fazer parte da educação infantil”, afirma o pianista. Mas ele faz a ressalva de que isso não significa estudar apenas a teoria e decorar as efemérides acerca de compositores: “Música se aprende a gostar ouvindo os grandes clássicos, assistindo a concertos, ensaios e gravações, quando não há outra possibilidade”.

Professor melhor que Nelson Freire há poucos. Os “alunos” e admiradores terão essa chance no concerto desta semana em Brasília, cidade onde o pianista se apresenta desde a década de 1960, mas da qual estava afastado havia cerca de dez anos.

* Colaborou Vinicius Nader



Nelson Freire
Concerto com o pianista Nelson Freire. Auditório da Fundação Habitacional do  Exército (Setor Militar Urbano, próximo ao Oratório do Soldado). Quinta-feira, às 20h30. Ingressos a R$ 200, R$ 240 e R$ 300, a depender do local. Ponto de venda: Eventim (Brasília Shopping). Não recomendado para menores de 12 anos.


Entrevista / Nelson Freire


A música lhe salvou várias vezes durante a vida. Pode contar qual foi a salvação mais recente que ela lhe proporcionou?
A música representa o que nenhum ser humano sozinho poderia proporcionar. É, ao mesmo tempo uma mãe, uma companheira e uma amante. Mãe porque educa e consola quando precisamos. Companheira porque está sempre presente, tanto nos bons quanto nos maus momentos. Amante porque provoca prazeres que nos mantêm sempre apaixonados. Já tendo vivido experiências trágicas na minha vida, posso afirmar que, se não fosse a música, talvez não tivesse sobrevivido.


Que caminhos o Brasil aindaprecisa percorrer na formação do público de música eruditae de público apreciador do repertório pianístico?
É com muito pesar que sinto que houve um grande retrocesso na situação da música clássica no Brasil. Apesar de existir um público fiel e entusiasta, vejo que cada vez menos o povo tem acesso a concertos. Penso que, como nos países adiantados, a música deveria fazer parte da educação das crianças. Mas não como se fazia no meu tempo de colégio onde havia a matéria, mas o que se estudava eram datas de nascimento e morte de compositores brasileiros (alguns muito obscuros), letras de hino e ditado rítmico. Sobre esse último havia um professor que não era nada preciso quando batia o ritmo. Eu captava suas flutuações e transcrevia exatamente o que ouvia. Levava zero e não adiantava argumentar. Até o dia em que ele viu um concerto meu anunciado no Teatro Municipal. Para mim, música se aprende a gostar ouvindo os grandes clássicos, assistindo a concertos, ensaios e gravações, quando não há outra possibilidade.


O senhor uma vez disse: “Até hoje não me conheço bem. Acho que tem vários Nelsons em mim...”. Qual o Nelson que sobe ao palco?
Disse que há vários Nelson em mim? Qual o que sobe ao palco? O Freire. O outro, José Pinto, anda descalço em casa e se diverte com as coisas simples da vida.


São, praticamente, 70 anos de carreira...
Neste ano de 2019 faz exatamente 70 anos que subi num palco pela primeira vez. Mas a cada apresentação sinto o mesmo friozinho na barriga. Seja em Brasília, seja em Berlim pra ficar só nos Bs! E, por falar nisso, devo dizer que estou ansioso e feliz de retornar a essa cidade de onde tenho boas e antigas lembranças. Afinal meu primeiro recital aí foi em 1963, no Hotel Nacional. Apresentações também na Universidade nos tempos em que minha querida mestre Nise Obino lá lecionava. Na Sala Martins Pena, onde uma vez a grande pianista Magdalena Tagliaferro, tendo ido me prestigiar com sua presença, rodou naquela escadaria abaixo! No dia seguinte levei-lhe flores no hospital.

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