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Correio Braziliense

Paulo Sergio Valle revisita em livro a própria história no mundo da música

A obra 'Contos e letras: Uma passagem pelo tempo' mistura contos, composições e poesias e foi lançada na segunda no Rio


postado em 16/01/2019 06:00

Paulo Sergio Valle no lançamento do livro no Rio de Janeiro(foto: Adriano Ishibashi/Divulgação)
Paulo Sergio Valle no lançamento do livro no Rio de Janeiro (foto: Adriano Ishibashi/Divulgação)
Evidências (Chitãozinho & Xororó), Se eu não te amasse tanto assim (Ivete Sangalo), Preciso aprender a ser só (Elis Regina), Confissão (Roberto Carlos), Cheiro de amor (Maria Bethânia), Samba de verão (Caetano Veloso) e Onde quer que eu vá (Paralamas do Sucesso). Esses são apenas alguns dos sucessos das quase 900 músicas escritas pelo compositor carioca Paulo Sergio Valle nos mais de 50 anos de carreira de letrista. Grande parte delas em parceria com outros compositores, do irmão Marcos Valle ao maestro de Roberto Carlos, Eduardo Lages.

O número, apesar de parecer alto, é visto como natural pelo artista. “Se você pensar que eu comecei a trabalhar relativamente cedo, com 20 e poucos anos, e hoje eu já tenho 78, se você distribuir isso tudo pelo tempo que trabalhei, nem é tanto assim”, diz o compositor, entre risos, em entrevista ao Correio. Fazendo as contas, seria uma média de 16 músicas por ano, levando em consideração os atuais 56 anos de carreira.

Independentemente da matemática, Valle é até hoje considerado um dos grandes nomes da composição brasileira, tendo sido gravado por diferentes artistas — a maior parte da MPB —, e essa trajetória está registrada no livro Contos e letras: Uma passagem pelo tempo, lançado na última segunda-feira pelo compositor na Livraria Travessa, no Leblon, no Rio de Janeiro.

Paulo Sergio Valle como piloto da DC-3(foto: Arquivo pessoal)
Paulo Sergio Valle como piloto da DC-3 (foto: Arquivo pessoal)


A obra, que tem 272 páginas, não é um livro comum. Não é uma simples autobiografia. Na verdade, nem é uma biografia, segundo ele. Tem um quê do formato, mas, na verdade, é uma reunião de memórias em forma de contos sem obedecer cronologia. A “aparente desordem do livro”, como ele mesmo diz, é proposital.

Para compor a obra, Valle foi escrevendo aos poucos o que vinha em sua mente, desde as experiências como piloto de avião, passando por encontros musicais, como com José Augusto, com quem fez parceria na composição de maior sucesso, o sertanejo romântico Evidências, e a tocante amizade com Herbert Vianna, até chegar às engraçadas histórias de jingles que viraram músicas de sucesso da MPB gravadas por nomes como Zizi Possi e até o elenco inteiro da Globo — é dele a música-tema da emissora de fim de ano, Novo tempo.

Em meio aos contos, o carioca intercala letras das principais composições e ainda poesias, essas que escreveu durante o processo e achou por bem incluir no livro. “Escreverei sim, mas será o que vier à cabeça, como o movimento natural desses pássaros e do bichano. Por mais que eu viaje, não sairei dessa sala. E será tudo em forma de contos, poesias e letras de música. Pra mim a vida é um conjunto de contos esparsos, e não um romance inconsútil”, define Valle no primeiro capítulo da obra manuscrita em bloquinhos pelo compositor.

Ao Correio, Paulo Sergio Valle fala da obra, explica a inspiração para compor e revela para qual artista gostaria de continuar compondo nos dias de hoje.
 

Entrevista / Paulo Sergio Valle 


O livro segue uma forma diferente, reunindo contos, composições e poesias. Como o senhor pensou em fazer desse modo?
Eu comecei a escrever as fases que achei interessantes da minha vida. Não é uma autobiografia, são coisas que eu testemunhei, que, de uma certa maneira, vivenciei. Mas não é autobiográfico. Fui escrevendo assim, não tive essa preocupação de ligar um conto ao outro. E muito menos em estabelecer uma cronologia. Fui simplesmente escrevendo. Pensei comigo que, no final, quando estivesse tudo pronto, eu dava um jeito. Quando cheguei ao final (dos contos), achei que podia ficar como estava. No início do livro, esclareço ao possível leitor que é um livro anárquico, que  não obedeci ao tempo, ao rigor das coisas. Mas era fundamental explicar isso, porque se não ficava um troço de doido. E eu explico isso no começo do livro e aí dá um sentido a tudo que vem depois. Porque o que eu quis também, e isso eu acho que é importante, foi organizar como que se a vida fosse uma sucessão de contos e não uma história desde que a gente nasce, vive, até a hora que morre. Como se cada dia fosse um conto. Então, isso também deu sentido ao fato de os contos não terem uma conexão no tempo cronológico.

Como foi escolher as partes da vida do senhor que integrariam a obra?
Eu não tive uma regra para escolher os contos. Acho que deve ter sido coisas que me marcaram e ficaram na minha memória. Quando eu resolvi escrever, essas coisas afloraram, aí eu acho que foi uma coisa de emoção. Talvez uma emoção retida, a emoção que fica na memória. Aí, fui escrevendo as coisas de que eu me lembrava. Quando eu comecei a escrever, eu deixei uns blocos em branco no escritório da minha casa e todos os dias eu ia lá e escrevia um conto. Certamente esses contos afloraram porque me marcaram, foram coisas que me deixaram impressões.

Marcos e Paulo Sérgio Valle na Olimpíada da Canção, em Atenas(foto: Arquivo pessoal)
Marcos e Paulo Sérgio Valle na Olimpíada da Canção, em Atenas (foto: Arquivo pessoal)


São mais de 800 composições. De onde vem tanta inspiração para escrever música?
Você tem que considerar o seguinte: eu tenho quase 900 músicas gravadas, mas se você pensar que eu comecei a trabalhar relativamente cedo, com 20 e poucos anos, e hoje eu já tenho 78, se você distribuir isso tudo pelo tempo que trabalhei, nem é tanto assim. (Risos) É difícil  você saber de onde vem a inspiração, porque, às vezes, a pessoa acha que o compositor está vivendo aquilo que ele escreveu ali naquele momento. E às vezes ele já viveu aquilo, até já esqueceu. De repente aquilo volta quando você vai compor.

Como define as maneiras de compor?
Há duas maneiras de compor. Uma é esperar essa inspiração, essa emoção para compor, que você nem sabe pra quem está fazendo essa música, se algum dia alguém vai gravar. E a outra é você já pensar mais ou menos num cantor para aquela música. Você gosta às vezes de determinado cantor, do estilo dele, e você já faz uma música no estilo dele. Essa é uma outra maneira e exige mais disciplina. E você sempre corre o risco de fazer a música e o cantor não gostar. (Risos) Mas o fundamental de tudo e de ter uma obra bastante grande como a minha é a disciplina. Se você não tem disciplina, sempre fica adiando para o dia seguinte. A disciplina é fundamental.

Até hoje o senhor compõe?
Tenho composto sim, mas o interessante é que hoje as minhas músicas mais tocadas são as mais antigas. Até hoje uma das minhas músicas mais tocadas no Brasil é Evidências. Eu e José Augusto fizemos essa música há mais de 25 anos e a música está estourada e volta e meia estoura outra vez. Aquela Se eu não te amasse tanto assim, que eu fiz com o Herbert Vianna, também é a mesma coisa. A gente fez a música, de repente a Ivete gravou, estourou e volta e meia faz sucesso novamente. O que eu fiz ultimamente não tem tido tanto sucesso quanto essas músicas. Mas eu vou em frente. Hoje em dia eu não estou mais muito preocupado com o sucesso. Também temos que considerar que hoje tudo mudou. Antigamente, você tinha o disco. Hoje, isso não existe mais. Hoje em dia, a pessoa gosta da música e baixa no digital. O público quer é a música, não o disco. Então, mudou também a maneira de compor. Talvez eu ainda não tenha me adaptado bem a esse sistema atual de fazer música.

Evidências é uma música antiga, mas que volta e meia reaparece e na internet tem até gente que pede para que seja o hino do Brasil. Como o senhor vê tudo isso?
(Risos). Olha, foi uma grande surpresa, porque eu nunca achei que ela fosse fazer tanto sucesso. Se você olhar bem a música, ela é grande. A letra é grande. No entanto, o público a canta inteira, de cabo a rabo. Isso é impressionante. Eu acho que nós demos sorte. Escrevemos uma música que se identifica com o sentimento das pessoas. Teve uma pessoa falando sobre Evidências que disse uma vez:  parece que as pessoas já nascem com o DNA dessa música. Eu achei isso espetacular. O que ela quis dizer é que as pessoas se identificam com aquele sentimento, com aquilo que a música passa, que, no fundo, é uma paixão escondida, mas avassaladora. O público gosta de música de amor e sobretudo quando se está apaixonado. E eu também gosto, por isso acho que deu um casamento perfeito.

O senhor também é autor de outra música que todo fim de ano fica na cabeça das pessoas. Como que foi fazer a música-tema do fim de ano da Globo?
Essa música foi feita pelo Nelson Motta e eu. Ela realmente foi feita para ser música de um ano só da Globo. Seria portanto quase que um jingle. Só que a resposta do público foi tão boa, muita gente perguntando lá para a emissora, que aconteceu que a Globo resolveu adotar como tema de fim de ano. Ela faz muito sucesso, mas no fim do ano. Você não pode comparar com Evidências, porque é um sucesso espontâneo. Evidências, o público gostou, e enquanto que o tema da TV Globo, que eu acho bonito e interessante, modéstia à parte, mas aí você tem que ver que tem a emissora por trás. Você vai ouvir constantemente. É diferente.

O senhor teve oportunidade de compor para diferentes artistas e foi gravado por tantos outros. Ainda tem algum artista que o senhor gostaria que tivesse gravado uma música sua ou gostaria de ser gravado por alguém da nova geração?
A música que faz sucesso, não estou falando daquela música que fica meio escondida, mudou. Mudou muito, porque cada geração tem a sua trilha sonora. Isso é fato. Às vezes, as pessoas de uma geração anterior ficam metendo o pau, linchando, falando que é uma porcaria, porque não é da geração dela. Esse tipo de música, esse exatamente que estão fazendo agora, confesso que não sei fazer. Eu, basicamente, sou um compositor romântico. Você pode ver que quase todas as minhas músicas que fizeram sucesso eram românticas, da Alcione, Você me vira a cabeça, do Só Pra Contrariar, Essa tal liberdade. Hoje em dia, se eu pudesse, gostaria muito de estar fazendo outras músicas para o Roberto Carlos. Acho que eu e o Eduardo Lages fizemos umas 18 ou 19 para ele que foram gravadas. Mas hoje até o próprio Roberto mudou o sentido da sua carreira e não está mais fazendo  disco. Eu gostaria de poder fazer algumas músicas românticas para ele. É um cantor que me marcou muito.

Paulo Sergio Valle e o parceiro de composições Eduardo Lages(foto: Adriano Ishibashi/Divulgação)
Paulo Sergio Valle e o parceiro de composições Eduardo Lages (foto: Adriano Ishibashi/Divulgação)


Falando no Roberto Carlos, como foi para o senhor estabelecer essa parceria com o Eduardo Lages?
O Eduardo já era maestro do Roberto há muito tempo, e no fundo ele queria ter uma música gravada pelo Roberto. Mas nunca tinha tido coragem de mostrar nada pra ele. Um certo respeito pelo patrão e aí ele me procurou. Naquela época, era interessante que quando você mostrava a música para um artista, era na fita cassete e, o Roberto, dizem, ouvia tudo que recebia. Fizemos a música, gravamos, apresentamos para o Roberto. Ele gravou e foi a primeira de uma sucessão de músicas. Aquilo era uma tentativa, mas poderia não ter dado certo.
 
Contos e letras: Uma passagem pelo tempo
De Paulo Sergio Valle. Litteris Editora, 272 páginas. Preço médio: R$ 45.

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