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Correio Braziliense

Antologia bilíngue tem a presença marcante dos poetas brasilienses

Indiano Abhay K. é o organizador da obra que reúne 22 escritores de Brasília


postado em 19/01/2019 06:15

Poetas da cidade reunidos durante o lançamento da antologia na Associação Nacional de Escritores (ANE), na Asa Sul(foto: Philippe Calandra/Divulgação)
Poetas da cidade reunidos durante o lançamento da antologia na Associação Nacional de Escritores (ANE), na Asa Sul (foto: Philippe Calandra/Divulgação)

 

“A poesia tem em Brasília um espaço tão importante quanto o rock, o chorinho ou o design”, afirma o poeta e diplomata indiano Abhay K., organizador e tradutor da antologia Novos poemas brasileiros (Ibis Libris). E a capital ocupa lugar de destaque nesta antologia bilíngue (português e inglês). São nada menos que 22 poetas em um total de 60, selecionados em várias regiões no país. De Brasília, participam Francisco Alvim, Ronaldo Costa Fernandes, Nicolas Behr, Turiba, Amneres, Climério, José Carlos Vieira e Noélia Ribeiro, entre outros.

 

A coletânea bilíngue segue a trilha da primeira, editada em 1972, organizada pela poeta inglesa Elizabeth Bishop, que morou durante algum tempo no Brasil. O livro teve como critério a primazia aos poetas brasileiros contemporâneos.

 

Além dos brasilienses, integram a antologia: Adélia Prado, Paulo Leminski, Adriana Lisboa, Affonso Romano de Sant’Anna, Renata Pallotini, Marco Lucchesi, entre outros. A presença maciça dos brasilienses deve-se, em grande parte, ao dinamismo de Abhay K. Ele se mudou para Brasília há três anos, caminhou pela cidade, observou a arquitetura, o céu, as corujas, os monumentos com jeito de espaçonaves, o horizonte aberto e os poetas.

 

Escreveu um livro de poemas sobre Brasília, baseado na contemplação e nas andanças pelas superquadras e eixos. Organizou, na Embaixada da Índia, o evento mensal Chá com Letras, em que os poetas candangos eram convidados a recitar seus versos. O conhecimento haurido nos saraus contribuiu para a escolha dos poetas candangos. E, nesta entrevista, Abhay conta por que concedeu espaço privilegiado à poesia brasiliense.

 

Novos poemas brasileiros

(Ibis Libris)/126 páginas. Onde comprar: Na livraria Sebinho (406 Norte) e pelo site ibislibris.loja2.com.br. 

(foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)

 

 

Entrevista / Abhay K

 

Como surgiu a ideia de incluir muitos poetas brasilienses em uma antologia de poetas do Brasil? 

 Como moro aqui há três anos e organizo o evento literário mensal Chá com Letras, conheci e interagi com vários poetas da cidade e, como resultado, seus poemas encontraram espaço na antologia. Esta antologia bilíngue tem como objetivo levar a nova poesia brasileira ao mundo por meio da tradução em inglês de poemas brasileiros.

 

Existe mesmo uma poesia brasiliense? 

Toda nova poesia deriva da poesia escrita antes, porém os poemas de Nicolas Behr têm características únicas de Brasília na forma como revelam a topografia única, o tecido da cidade. Os poetas trazem o sabor do lugar e da cultura a que pertencem em seus poemas.  A poesia de Brasília é uma soma de poesias de todo o Brasil, pois os poetas que vivem e trabalham aqui vêm de todos os cantos do Brasil.

 

Quais as principais linhas que identifica na poesia brasiliense?

A poesia de Brasília é sobre imigração, deslocamento, nostalgia (saudades) dos lugares onde nasceram e cresceram os poetas, vazio urbano, protesto político, entre outros.

 

Brasília se destacou no rock, no chorinho e no design. Você acha que chegou a hora da poesia?

Eu acho que a poesia tem em Brasília um espaço tão importante quanto o rock, o chorinho ou o design. Brasília celebrou o Festival de Poesia Transepoéticas no ano passado. Foi um grande sucesso. Poetas brasileiros muito talentosos vivem e trabalham aqui.

 

Com a palavra, os poetas

 

 Francisco Alvim

“A relação de minha poesia com Brasília se faz em muitos planos. Está muito presente, mas de uma forma paradoxalmente ausente. Pelo menos para mim. É mais um clima e uma atmosfera. Escrevi um poema sobre a Guapuruvu, uma árvore maravilhosa, que traz diferentes reinos. Lembra a pata do elefante.

 

No topo dela, tem uma folhagem. É uma árvore extraordinária. Fiz outros sobre a luminosidade e sobre uma bicicleta passando. Fica a atmosfera das quadras. Tem o ar de Brasília em todos os livros. Trabalhei na sede do Itamaraty nas décadas de 1970 e 1980.

 

Então, isso afetou os poemas sobre os acontecimentos dos corredores burocráticos. Brasília entra em minha poesia por via direta ou indireta. Na forma lírica, entra mais direta. O corpo a corpo não é tão direto e tão forte quanto existe na poesia do Behr. Sobre a antologia, não posso falar porque ainda não conheço. Mas o Abhay tem esse lado interessante do viajante que se deu ao trabalho de ouvir a poesia do Brasil. É uma coisa muito complexa e difícil ouvir todas essas vozes. A poesia é uma língua cifrada.”

 

 

Poema

Descartável

Vontade de me jogar fora 

 

Ronaldo Costa Fernandes

“Brasília é fundamental em minha poesia. Há duas maneiras de a cidade aparecer nos poemas. A primeira é explícita: o nome da cidade, seus logradouros, sua história e sua conformação. A segunda é imprecisa e indireta. Nesta última, Brasília para mim representa o convívio e o acesso a bens culturais. Ela é parte do meu amadurecimento poético.

 

Devo muito a Brasília tanto do ponto de vista literário quanto humano. As cidades são espectros nos versos de um poeta. A cidade me mostra mais nas entrelinhas, nas imagens, no universo temático, antes que de maneira direta. Ou melhor, para mim, parece que se pode ler Brasília em meus poemas de forma diagonal, embora tenha poemas dedicados a Brasília e o que mais me agrada é sobre o céu da nossa cidade.

 

Os poetas brasilienses nada têm a dever aos poetas exaltados pelo monopólio Rio-São Paulo. A poesia de Brasília é forte, contemporânea, tão vivaz e anárquica quanto qualquer outra, seja brasileira, seja internacional.” 

 

Poema

Ato do fim

Gosto dos parques sem diversão.

As cortinas das minhas pálpebras

cerram a última peça do quebra-cabeça.

Domingo é uma palavra preguiçosa

 

Nicolas Behr

“Brasília, em termos literários, é uma folha em branco. A poesia humaniza a maquete e ajuda a dissociar Brasília da ideia de poder. Minha poesia e a cidade? Bem, Brasília é a minha obsessão poética. Isto é claro, todo poeta tem sua obsessão. A morte, a mulher amada, a pátria, etc. E não existe limite para a criação intelectual. Tenho vários livros a escrever sobre Brasília, tomando o cuidado de não virar cover de mim mesmo. Quando eu começar a me autoplagiar, me autodiluir... Tenho de perceber isso antes dos leitores.”

 

Poema

Candangos

candangos que nunca chegaram

cidade não construída

inauguração que não houve

transferência que não aconteceu

(o cerrado intacto, de pedra, observa)

a cidade que está por vir

saúda o poema inexistente

 

 

Noélia Ribeiro

“Renovando a ideia anterior de Elizabeth Bishop, Abhay K., diplomata e respeitado poeta indiano, organizou e traduziu para o inglês essa bela antologia de importantes poetas brasileiros, em especial de Brasília, que, com certeza, conquistará leitores de diversos países e abrirá novos caminhos para a nossa poesia no exterior. Somos todos muito gratos a Abhay pela oportuna iniciativa.”

 

Poema

Nem tanto assim

Jogo meu corpo

sobre o teu

com os pés

colados no chão

(morro de medo da paixão)

 

Climério Ferreira

“Cheguei a Brasília formado. Levei a Brasília toda a cultura piauiense. Brasília era composta de gente que trazia essas lembranças. Eu participei das colônias mais numerosas do Nordeste em Brasília e continuei ligado a isso. O que não é problema. Tem muitos poetas fazendo uma poesia sobre Brasília com muita propriedade, a partir da geração mimeógrafo de Nicolas Behr.

 

Escrevo muito sobre a cidade. Adoro a cidade que eu inventei para mim, como diria Torquato. A gente observa como é bom viver em Brasília. É uma cidade muito agradável, humana, arborizada, cheia de pássaros. Atrai a reflexão poética. Somos os poetas que vivem sobre os pilotos. Somos os poetas dos pilotis. Essa antologia aproveitou muito dos poetas brasilienses. Estamos muito bem representados.”

 

Poema

Lições marítimas

Esse vento morno

Que dança nas praias nordestinas

Traz em si uma promessa

Uma vaga esperança

De que o meu amor seja imortal

Como o movimento perene

Das palmas

O mar com suas ondas mansas

Segreda a permanência

Das coisas passageiras

 

 

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