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Correio Braziliense

Mostra de Cinema de Tiradentes antecipa discussões da temporada

Festival mineiro estende a reflexão para fora da sala de projeção, colocando a presença física do ser humano e toda sua carga estética e política no centro da reflexão


postado em 19/01/2019 06:30

A atriz, dramaturga e diretora mineira Grace Passô é a homenageada deste ano(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press - 21/9/18)
A atriz, dramaturga e diretora mineira Grace Passô é a homenageada deste ano (foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press - 21/9/18)

 

Tiradentes (MG) —  Como primeiro evento do calendário audiovisual brasileiro, a Mostra de Cinema de Tiradentes sempre se preocupou em apontar caminhos, ou pelo menos tentar antecipar questões e preocupações estéticas e sociais da temporada a sua frente. Este ano, em que sua vigésima segunda edição coincide com um início de um novo governo, o festival mineiro estende a reflexão para fora da sala de projeção, colocando a presença física do ser humano e toda sua carga estética e política no centro da reflexão: “Corpos adiante” é o tema que norteia a programação de filmes, debates e performances, que acontece entre 18 e 26 na cidade histórica mineira.

 

“As questões do corpo, naturais de campos como a medicina e a moda, têm contaminado as artes também nos últimos anos. O corpo sempre foi central no cinema, na figura dos atores, dos personagens. Mas também é preciso pensar em como ele é representado pelo cinema neste momento político pautado pelo controle dos corpos, seja o do índio, o dos sem-teto ou daqueles que lutam pelo reconhecimento de seu gênero”, explica o crítico Cléber Eduardo, coordenador geral da curadoria da Mostra Tiradentes. “Atravessamos um retrocesso nessa regulamentação do corpo, e queremos ecoar essa preocupação”.

 

Por sua abrangência, o conceito de “Corpos Adiante” pode se manifestar de forma distinta em muitos dos 108 títulos da seleção deste ano, distribuídos por diferentes mostras. “Às vezes, ele surge como uma simples questão estética, como o corpo se relaciona com a câmera, com o teatro, por exemplo. Em outras, há uma reação política mais explícita. O filme Trágicas, de Aída Marques, por exemplo, reencena tragédias de mulheres vítimas de violências, desde a época da ditadura militar. Ilha, de Ary rosa e Glenda Nicácio, descreve o sequestro de um cineasta para a realização de um filme sobre um negro, que quase deságua em tragédia”, aponta Cléber.

 

Destaque da programação, a seção Aurora, que reúne trabalhos de realizadores com até três filmes no currículo, é composta por títulos como o documentário A rainha Nzinga chegou, de Julia Torres e Isabel Casimira, que resgata a ancestralidade africana dos baianos, ou o drama Seus ossos e seus olhos, de Caetano Gotardo, sobre as relações afetivas e sexuais de um jovem cineasta. “Sexualidade e questões raciais, assuntos que se destacam no conjunto de filmes selecionados pela Lila Foster e o Victor Guimaraes”, observa o coordenador geral.

 

Os outros cinco candidatos do Aurora, que disputam o prêmio da crítica, são A rosa azul de Novalis (SP), de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro; Tremor iê (CE), de Elena Meirelles e Lívia de Paiva, Vermelha (GO), de Getúlio Ribeiro; Desvio (PB), de Arthur Lins, e Um filme de verão (RJ), de Jo Serfaty. “Destacamos produções que tentam desconstruir os códigos da ficção e do documentário, com dramaturgias que constroem nos espaços entre o passado da ancestralidade, o presente dos conflitos e a incerteza do futuro”, resume Lila Foster.

 

Candango

 

A grande homenageada da Mostra Tiradentes deste ano é a atriz, dramaturga e diretora mineira Grace Passô. Além de exibir, na noite de abertura, o média-metragem Vaga Carne, codirigido por ela e o diretor Ricardo Alves Jr, a partir de um monólogo escrito pela atriz, Grace estará nas telas da cidade nos filmes Temporada, de André Novais Oliveira, com o qual ganhou o Candango de melhor atriz no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro do ano passado, e Elon não acredita na morte, de Alves Jr. A artista também estreará em Tiradentes uma performance teatral inédita, intitulada Grão de imagem, em que descreve cenas reais e cinematográficas.

 

“A escolha da Grace concilia o tema da mostra e o conceito da homenagem anual do festival”, explica Cléber. “O tributo tinha que ir para um ator ou atriz, por causa do moto da programação deste ano, que é o corpo. A Grace tem uma filmografia pequena mas, por sua longa, sólida e premiada carreira no teatro, ela surgiu como um corpo retrospectivo. E tem a ver com o Adiante, porque tem vários projetos de filmes novos engatilhados. A própria Grace achou que não merecia a homenagem, porque está começando no cinema agora. Mas foi convencida com o argumento de que ela é uma aposta no futuro”, conta o curador.

 

 

 

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