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Correio Braziliense

Mestre do samba portelense, Monarco lança disco 'De todos os tempos'

Sambista mor da Portela fala ao Correio sobre o disco que lançará em fevereiro e também destaca momentos marcantes da carreira


postado em 19/01/2019 07:00

Monarco nunca quis compôr um samba-enredo para a Portela(foto: Marcos Hermes/Divulgação)
Monarco nunca quis compôr um samba-enredo para a Portela (foto: Marcos Hermes/Divulgação)

 

No carnaval, são muitas as escolas de samba que fazem do desfile da Marquês de Sapucaí, no centro do Rio de Janeiro, alvo de cobiça de foliões do Brasil e de várias partes do mundo. Mas duas delas têm presença soberana no imaginário de quem é aficionado por essa manifestação da cultura popular brasileira: Mangueira e Portela.

 

Escola originária de Oswaldo Cruz (subúrbio vizinho a Madureira, na Zona Norte do Rio), a Portela tem a história contada — e cantada — por figuras memoráveis, como Paulo da Portela, Seu Natal, Casquinha, Manacéa, Mijinha, Candeia, Argemiro, Jair do Cavaquinho e Zé Keti. Atualmente, Paulinho da Viola e Monarco são dois raros e icônicos remanescentes da detentora do maior número de títulos, conquistados nos desfiles carnavalescos da antiga capital do país.

 

Aos 85 anos, Hildmar Diniz, o Monarco, carioca da Zona Norte, nascido no bairro de Cavalcanti, é ligado ao samba desde a infância. Aos 3 anos foi morar em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense; e se recorda que, ainda criança, ouvia atento no rádio da família músicas de Noel Rosa e de outros compositores, na voz de grandes intérpretes.

 

Monarco— o apelido lhe foi dado por um amigo de Nova Iguaçu – tinha 8 anos quando, demonstrando talento precoce, compôs o primeiro samba, intitulado Criolinho Sabu. Adolescente, mudou-se com os pais para o subúrbio de Oswaldo Cruz, vizinho de Madureira, e logo se ligou à Portela. O ano era 1946 e, desde então, a relação com a azul e branco só fez crescer.

 

Há algum tempo, o mestre está à frente da Velha Guarda da Portela. O grupo esteve em Brasília por duas vezes — uma delas, na década de 1990, com a formação original — para apresentações na Associação Recreativa Unidos do Cruzeiro. Sozinho, diz que perdeu a conta de quantos shows fez na Aruc — escola que tem a Portela como madrinha.

 

Garimpo

 

Com 14 discos lançados e incontáveis sucessos, o compositor e cantor lança Monarco — De todos os tempos, o novo CD, em 14 de fevereiro, no Teatro Bradesco, no Rio. Nesse projeto, produzido pelo filho Mauro Diniz, ele reuniu 18 músicas, criadas em diferentes períodos, que garimpou em seu baú de preciosidades.

 

Há desde Aurora da minha vida, da década de 1950, a Samba pra Maricá, composta mais recentemente. Entre todas, a mais conhecida é Vai vadiar, que, ao lado de Não te perdoei, nem vou perdoar e Meu relógio parou, faz parte do pot-pourri que fecha o repertório. Vai vadiar foi regravada por Zeca Pagodinho no álbum duplo e DVD De Santo Amaro a Xerém, que dividiu com Maria Bethânia.

 

 

Monarco de Todos os Tempos

CD do compositor e cantor carioca com 16 faixas. Lançamento gravadora Biscoito Fino. Preço sugerido: R$ 30,50.

 

 

Entrevista / Monarco

 

 

De que maneira a música chegou à sua vida?

Minha ligação com a música é muito antiga. Nascido em Cavalcanti, subúrbio do Rio, aos 3 anos fui morar com a família em Nova Iguaçu. No rádio da casa dos meus pais, ouvia aqueles sambas de Noel Rosa. Ainda em Nova Iguaçu, com 8 anos, fiz meu primeiro samba, Criolinho Sabu, inspirado num menino de rua meu amigo. Meu pai, José Felipe Diniz, fazia poemas e acho que herdei dele esse dom.

 

 

Quando teve início sua relação com a Portela?

Em 1946, tinha 13 anos quando minha família voltou para o Rio. E, para a minha alegria, fomos morar em Oswaldo Cruz. Logo fui levado por um novo colega para a Portelinha, antiga sede da escola, com a qual me envolvi de imediato. No carnaval do ano seguinte, estava segurando a corda que protegia a escola, no desfile da agremiação na Praça 11. Eu me recordo como se fosse hoje daquele desfile, cujo enredo homenageava Santos Dumont.


Com que idade passou, efetivamente, a integrar a escola?

Não demorou muito, não. Fui chegando aos poucos e tive boa acolhida, principalmente de Alcides Lopes, conhecido como Malandro Histórico. Aos 16 anos, estava ali na Portelinha, lado a lado com ele, Alvaide, Francisco Santana, Manacéa e outros baluartes da escola. O Alcides, que tinha 50 anos, foi meu primeiro parceiro. Mas fiz samba de terreiro também com Alvaiade e Manacéa. Passado de glória, que compus sozinho, me fez ser considerado na ala de compositores da Portela. Esse samba, por muito tempo, serviu para esquentar os desfiles da escola.

 

 

À época, além de compor samba, o que fazia para ganhar algum dinheiro?

Fiz um pouco de tudo. Fui camelô, vendedor de peixe na feira, pau pra toda obra na ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e guardador de carro. Na ABI, costumava escovar a mesa de bilhar para o maestro Villa-Lobos jogar. No estacionamento da antiga sede do Jornal do Brasil, guardava os carros de Armando Nogueira, Carlos Lemos, Sandro Moreyra, Oldemário Toguinhó, Lena Frias, Mary Ventura, todos jornalistas famosos. Foi lá que conheci o poeta Carlos Drummond de Andrade.

 

 

Se tornou amigo de algum deles?

Meu grande amigo foi o Juarez Barroso, que era da equipe do Caderno B. Para ele, mostrei alguns dos meus sambas, ele gostou bastante e me incentivou a gravar.

 

Demorou para que gravasse o primeiro disco?

Meu primeiro LP é de 1976 e saiu pelo selo paulista Eldorado. Antes eu havia emplacado Lenço, parceria com Francisco Santana, e Passado de glória em discos do Paulinho da Viola e de Beth Carvalho; e Tudo menos amor, no Origens, terceiro LP de Martinho da Vila. Este foi o meu primeiro grande sucesso. O Quitandeiro, que havia feito com Paulo da Portela, foi o destaque do meu LP de estreia.

 

Quantos títulos tem sua discografia?

Eu nunca fui de gravar muito. Já fiquei 10 anos sem lançar disco. Devo ter uns oito discos solo, entre LPs e CDs. Há também os que gravei com a Velha Guarda da Portela e as coletâneas. Tem alguns de que gosto mais, como A voz do samba, de 1986, que saiu pela Kuarup, e Passado de glória, comemorativo dos meus 80 anos. Esse agora, o Monarco de todos os tempos, lançamento da Biscoito Fino, é especial, pois me permitiu ir fundo do baú e tirar de lá sambas que compus desde o início da carreira.

 

Entre os nomes consagrados da MPB, quem gravou suas composições?

Muita gente. O saudoso Roberto Ribeiro, por exemplo, gravou 12; a Beth Carvalho, 10. Mas meu maior intérprete é Zeca Pagodinho. Ele grava sambas de minha autoria desde o primeiro disco dele. Creio que já foram uns 20. Mas tenho grande satisfação de fazer parte também do repertório de Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Alcione e Marisa Monte.

 

 

Nunca quis compor samba-enredo?

Até participei de concursos, como em 2007, com meu filho Mauro Diniz, mas minha predileção sempre foi por samba de terreiro, tradição dentro das escolas de samba, em especial na Portela.

 

Há uma nova geração de sambistas na Portela?

Até tem surgido jovens compositores na escola, mas o interesse da grande maioria é por samba-enredo. Um ou outro participa do festival de terreiro.

 

Como vê o Rio de Janeiro de agora, fora do âmbito do samba?

Há uma diferença muito grande do tempo em que eu era jovem, quando as pessoas no subúrbio do Rio podiam colocar cadeira na calçada, à noite, para ficar conversando. Hoje em dia o Rio anda muito violento. Mas não é só aqui, não. A violência se espalhou por todo o país e pelo mundo. Não sei como e quando isso vai parar.

 

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