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Correio Braziliense

Ritmo e teor político do afrobeat mantém difusão após décadas

O ritmo é marcado pela poética social e política do povo africano; confira nossa playlist


postado em 22/01/2019 07:50 / atualizado em 22/01/2019 14:13

As batidas dançantes do afrobeat se espalharam por todos os continentes(foto: Press Pic/Divulgação)
As batidas dançantes do afrobeat se espalharam por todos os continentes (foto: Press Pic/Divulgação)

Uma profusão de ritmos surgidos em países da África Ocidental reencontra o jazz, o soul e o funk norte-americanos quando o nigeriano Fela Kuti viaja aos Estados Unidos no fim dos anos 1960. Em um período marcado por fortes reivindicações pelos direitos civis, sobretudo da população negra estadunidense, Fela Kuti incorporou influências americanas que mais tarde levaria para uma Nigéria colonizada. Matriz para o afrobeat, percussões tradicionais, ritmo dançante, momentos de improvisação e vocais que surgem após vários minutos das longas músicas são algumas das características do gênero cunhado pelo multi-instrumentista nigeriano.

Hoje, o gênero que combina vertentes da música negra de diversas partes influencia todo o mundo, e é frequentemente mesclado a outros estilos. O impacto do Fela Kuti é gigantesco. Influenciou artistas dos mais variados âmbitos e pesos. É admirado por nomes como Ginger Baker, Miles Davis e James Brown. Em 1977, no 2º Festival Mundial de Arte e Cultura Negra, evento cultural em que foram difundidas ideias do pan-africanismo em Lagos, capital nigeriana, Gilberto Gil recebeu experiências que o levariam a gravar Refavela (1977). O músico baiano conheceu Fela Kuti pessoalmente na ocasião.
  
“Além da questão rítmica, sonora, o afrobeat é um estilo de ser, comportamental. Não é só música. O gênero não tem mais a força que tinha nos anos 1970 em questão política. Na música brasileira, o afrobeat foi de grande peso para grupos musicais do país. Esse ritmo evoluiu e contribuiu para a criação de vertentes sonoras”, conta o pesquisador musical , DJ e professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) Victor Valentim, ou Zivitin.
 
 
 
Um dos nomes responsáveis pelo desenvolvimento e popularização do afrobeat desde os anos 1960 é o artista Orlando Julius. Nigeriano também, o músico enfrentou um longo e difícil caminho para conquistar o respeito da cena cultural africana e se tornar uma referência na cidade natal e mundo afora. “Passei a acreditar no afrobeat quando nosso povo se conectou a ele. E o afrobeat ganhou o mundo. Especialmente com os que lutam pela liberdade, com os guerreiros da justiça social. O afrobeat é, para todos, uma mensagem para que reconheçam e respeitem o lugar de onde ele veio”, conta, da França, ao Correio. Julius exaltou o povo brasileiro. “O Brasil está realmente tentando. Os brasileiros, antes de tudo, amam a África, e é por isso que fica fácil para eles assimilarem nossos valores musicais”.

O pesquisador Victor Valentim explica que, “ao lado de Tony Allen (baterista de Fela Kuti no grupo Afrika 70), Orlando Julius é um dos maiores representantes vivos do afrobeat em todo o mundo. Ele viveu aquele momento e mantém o estilo dele até hoje. Preserva a cultura na música dele”.

O coletivo KOKOROKO, proveniente do oeste da África e atualmente instalado em Londres, é um dos que mantêm o legado na Europa. Com participações em grandes festivais, levam a mistura alegre que produzem com voz, instrumentos de sopro e percussão para os palcos do mundo.

Segundo o especialista Valentin, a primeira experiência brasileira mais próxima do afrobeat foi em 1971 com o disco Tribo Massahi, de Embaixador (Sebastião Rosa de Oliveira). Hoje, a banda brasileira do momento é a Bixiga 70. O nome da big band alude diretamente a Fela Kuti, que era acompanhado pelos instrumentistas do Afrika 70 (e também é uma referência ao bairro onde trabalham em São Paulo). Bixiga 70 faz shows pelo mundo com uma mistura sonora arrebatadora. Se apresentaram ao lado de Orlando Julius em várias ocasiões. Em Brasília, dividiram o palco do Festival Instrumenta Brasília com o nigeriano em 2016.

“É uma influência fundamental da nossa música. A gente enxerga o afrobeat como um processo, não como um gênero definido, que tem regra. Assim como outros artistas, misturamos elementos ancestrais, tradicionais com toques urbanos e uma postura social engajada”, relata Maurício Fleury, tecladista do Bixiga 70. Desde 2011 a capital federal celebra o ritmo com a festa Fela Day — o evento ocorre em todo o mundo e em várias partes do Brasil sempre em outubro, mês de aniversário de Fela.

*Estagiários sob a supervisão  de José Carlos Vieira

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