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Correio Braziliense

Mariana Xavier, musa do hit Jenifer, se torna símbolo da quebra de padrões

Ao Correio, a atriz fala sobre o momento de sucesso, empoderamento e projetos futuros


postado em 23/01/2019 06:00

"Estou recebendo muitas mensagens de mulheres dizendo que estão se sentindo representadas", diz Mariana Xavier (foto: Marco H. Carvalho/Divulgação)

O nome dela hoje até pode ser Jenifer, a menina do Tinder que faz sucesso no clipe do cantor Gabriel Diniz. Em outros momentos, foi Marcelina, a filha de Dona Hermínia na franquia cinematográfica Minha mãe é uma peça. Mas o nome dela é mesmo Mariana Xavier, uma atriz que enfrentou barreiras para conseguir aparecer na televisão mesmo com anos de trajetória nos palcos — ela começou no teatro com apenas 9 de anos — por conta do sobrepeso. “Foi bem sofrido no início. Cheguei a ouvir de um agente de atores quando eu tinha 30 kgs a menos do que tenho agora, que eu estava gorda para a televisão”, lembra.

A Mariana de 20 anos atrás, talvez, nunca imaginasse que fosse se tornar a musa do verão mesmo estando fora dos padrões estéticos. Mas tudo isso graças ao protagonismo da atriz no clipe da música Jenifer, de Gabriel Diniz, que se tornou um dos hits do momento no Brasil. “Jamais, nunca em toda a minha existência. Nunca passou pela minha cabeça que pudesse virar um estouro deste tamanho. Eu até sabia que a música anterior de sucesso do Gabriel tinha bastante visualizações no YouTube. Mas nunca imaginei que viraria isso. Para mim, foi só um trabalho como outro qualquer, com o plus da oportunidade de desconstruir mais um pouco esse padrão estético midiático que é enfiado goela abaixo. Só”, afirma.



Superando as expectativas, Jenifer ganhou memes, o título de hit do verão (apesar de ter muito artista querendo derrubar a hegemonia da canção), e tem atualmente mais de 120 milhões de visualizações no YouTube. O refrão chiclete e o sucesso na internet estão entre os aspectos que levaram à música ao sucesso, além da presença de Mariana Xavier na pele da protagonista do videoclipe.

“Para mim, é a coisa mais legal de tudo isso. Já tinha acontecido nesse mercado de videoclipe quando eu fiz o clipe do Dilsinho, Cansei de farra. Já era uma mocinha fora do padrão. Mas não teve esse boom. Acho que essa representatividade acontecendo justamente numa estação tão opressora quanto o verão é muito significativo, porque, normalmente, chega essa época e a única coisa que a gente vê é: “Prepare seu corpo para o verão”, “fique magra para o verão”. Então, o que a gente está acostumado a ver é o tempo inteiro sendo reforçado a sensação de inadequação das mulheres que estão fora desse padrão”, analisa.

(foto: Marco H. Carvalho/Divulgação)
(foto: Marco H. Carvalho/Divulgação)
“Poderia ser uma bobagem e poderia ser só mais um hit vazio, como muitos que a gente já viu, mas está trazendo uma mensagem subliminar, que pode transformar de fato a vida de muitas pessoas. Não é brincadeira, a sensação de inadequação mata as pessoas. Quantas mulheres a gente vê com transtornos alimentares? Ou se submetendo a procedimentos estéticos sem a menor segurança? Porque elas passaram a vida sendo ensinadas de que elas não podem usar um biquíni. Ter um corpo de praia é ter um corpo, ir à praia e ponto. Acho que veio em um momento muito especial porque estou recebendo muitas mensagens de mulheres dizendo que estão se sentindo representadas. Estou achando sensacional”, revela Mariana Xavier.

Consciência


Porém, essa não é a primeira vez que a atriz aborda o tema. Desde novembro de 2016, ela tem um canal no YouTube, o Mundo gordelícia, para falar sobre empoderamento e dividir as vivências de uma mulher acima do peso dentro do mercado audiovisual. Ela também lançou, em 2017, o livro Gordelícias, ao lado de Fabiana Karla, Cacau Protássio e Simone Gutierrez. “Jenifer está sendo muito positiva, porque está trazendo muita gente para o meu canal para ouvir as mensagens que eu já passava. Meu canal fala de empoderamento de uma forma geral. Não só relacionado ao corpo, mas informação também é poder. Eu falo de tudo, eu sou muito militante do respeito a diversidade em todas as suas formas. Não só relacionada ao corpo, mas falando de raça, orientação sexual, de gênero, de tudo. E pretendo continuar a fazer esse trabalho”, garante.



Mariana conta ainda que ter começado a relacionar essas questões ao seu trabalho foi algo natural para uma mulher que enfrentou preconceitos por conta do peso. “Eu sou uma vítima do sistema. Não fui gorda a vida toda, engordei tentando ser magra. Até os 18 anos, meu peso era muito estável e, de repente, começou a dar uma alterada, e por justamente passar a vida sendo ensinada que engordar era a pior coisa que podia acontecer, eu comecei a me entupir de remédio para emagrecer. Eu envenenei muito o meu corpo buscando esse padrão inatingível. Então, me sinto no dever de compartilhar essa experiência para tentar evitar que outras pessoas sofram o que eu sofri, porque a gente é tão mais do que o nosso corpo”, reflete.

Em meio ao sucesso de Jenifer, ainda neste ano, a carioca deve estrear em duas produções no cinema. A primeira é o filme brasiliense Rir pra não chorar, de Cibele Amaral, ao lado de nomes como Rafael Cortez, Fafy Siqueira, Sergio Loroza e Catarina Abdalla. O outro é a terceira sequência de Minha mãe é uma peça. As gravações começam em maio e o longa tem previsão de chegar às telonas em dezembro.

Além disso, Mariana deve voltar em breve aos palcos. Ela está em processo de captação de recursos para uma peça solo. Intitulada Antes do ano que vem, a produção tem texto de Gustavo Pinheiro e terá direção de Lázaro Ramos. “De novo, vou me aventurar a fazer comédia para falar de coisa séria. É uma comédia que fala de solidão, depressão, saúde emocional”, adianta.


Duas perguntas / Mariana Xavier

(foto: Marco H. Carvalho/Divulgação)
(foto: Marco H. Carvalho/Divulgação)

Depois de um clipe de tanto sucesso, qual será o seu próximo?

Esse foi o sexto da minha carreira. Não sei se depois disso vão me chamar para clipe de novo. Mas tomara, porque adorei fazer. É outra linguagem, não tem texto, acaba sendo uma coisa mais lúdica, é tudo muito rápido. Normalmente, você grava num dia, em algumas horas, e é muito gostoso, porque acho que todo mundo, num momento da vida já se imaginou dentro de um videoclipe. A música tem uma magia na nossa vida e mexe com a nossa emoção de uma maneira muito significativa, transporta a gente para lugares, situações e para pessoas. Eu sempre cito a primeira vez que eu fui para Nova York, em 2010, eu estava ouvindo Halo, da Beyoncé, atravessando a Brooklyn Bridge, o vento batendo no cabelo e me imaginando num videoclipe.

O seu início como atriz foi difícil por conta do peso?

Eu faço teatro desde os 9 anos, mas eu tive alguns intervalos e, quando estava justamente retomando a carreira e tentando investir, foi quando comecei a engordar e foi bem sofrido no início. Cheguei a ouvir de um agente de atores, quando eu tinha 30 kg a menos do que tenho agora, que eu estava gorda para a televisão. Por conta disso, continuei tentando fazer dietas malucas e tomando remédios. Até que teve uma produtora de elenco, Malu Fontenelle, que falou para eu parar de lutar contra meu peso, que ele não estava contra mim, mas a meu favor, porque todo mundo buscava o mesmo padrão e quando eles buscam um padrão mais autêntico, não tinha. Ela falou para eu acreditar que tinha espaço para mim.

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