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Correio Braziliense

Relembre a carreira e a obra de Reynaldo Jardim, um poeta além do tempo

Morto em 2011, o jornalista, poeta, escritor e artista plástico fez de Brasília um dos cenários de sua 'ação expansionista poética'


postado em 24/01/2019 07:00

O paulistano Reynaldo é o mais importante jornalista cultural da história da imprensa brasileira(foto: José Varella/CB/D.A Press)
O paulistano Reynaldo é o mais importante jornalista cultural da história da imprensa brasileira (foto: José Varella/CB/D.A Press)

 

Reynaldo Jardim espalhou pequenas revoluções por onde passou ao longo de uma carreira de mais de 60 anos como jornalista e poeta. Os alvos eram jornais, revistas, suplementos, emissoras de rádio e de televisão. Parecia aqueles cientistas excêntricos das histórias em quadrinho, dominados por um instinto indomável e furioso de criação, a desferir relâmpagos. A sua loucura era da espécie criadora e lúcida sem a qual as pessoas, as instituições e as nações adoecem de inércia ou inanição. E quem estava por perto também era atingido pelas chispas do poeta, jornalista, artista gráfico, escultor e desenhista morto em 2011, aos 84 anos.

 

Sem dúvida, o paulistano Reynaldo é o mais importante jornalista cultural da história da imprensa brasileira. Inventou ou reformou os principais jornais e emissoras de rádio do país. Criou o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil e o jornal O Sol; foi editor dos jornais Correio da Manhã e Última Hora; comandou a revista Senhor, onde Guimarães Rosa e Clarice Lispector publicaram os primeiros textos, entre outros; dirigiu a icônica Rádio Mundial. É uma figura inspiradora para as novas gerações.

 

Diferentemente de Nelson Rodrigues, que recomendava “envelheçam, envelheçam”, Reynaldo era um adolescente nato e sempre adorava estar cercado de jovens para trocar energias e estabelecer parcerias. Os mais moços também reverenciavam Reynaldo e o coroavam com o apelido dinástico de “Rey”.

 

Cuidados

Não separava a poesia da vida nem do trabalho. Quando editava O Sol, fez o seguinte título para uma matéria de economia: “FMI é o fim”. E, ao receber a sentença de morte dos médicos convencionais, ao sofrer um AVC em 2006, consultou um amigo médico espírita, recebeu cuidados, foi para casa e comeu uma feijoada. Continuou a viver intensamente.

 

Em 2011, sentiu-se mal e, levado ao hospital, os médicos recomendaram um procedimento cirúrgico delicado. Ele reuniu a família e comunicou: “Vou passar por um procedimento, mas vai dar tudo bem. Se não der, chamem a bateria da Aruc”. Antes, ele havia escrito: “Se por acaso, eu aparentemente morrer, façam uma festa de arromba”. E, de fato, no Sarau de Sétimo Dia, a Aruc apareceu e cantou: “Quero morrer numa batucada de bamba/Na cadência bonita do samba”. Morreu em 2 de fevereiro daquele ano.

 

Nunca ninguém chegou para ele e pediu: “Senhor Reynaldo, por fineza, poderia fazer uma revolução?”. Ele se considerava expansionista. A partir de pequenos espaços, instalava as suas invenções e, quando os patrões se davam conta, só restava celebrar e faturar o sucesso. E foi assim que aconteceu com a criação do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, o mais importante e influente caderno de cultura da história da imprensa brasileira.

 

O Suplemento Dominical não apenas divulgava eventos ou movimentos; ele era, em si mesmo, um acontecimento cultural. Em suas páginas floresceram a poesia concreta, o movimento neoconcreto e o cinema novo, movimentos que alcançaram repercussão internacional. O caderno promoveu uma revisão crítica da cultura brasileira.

 

Energia

 

Reynaldo também fazia um programa de poesia na emissora de rádio do JB e pediu para criar uma coluna na versão do jornal impresso em um caderno de receitas gastronômicas. Ele chegou e logo tomou conta do caderno inteiro: “Eu sou expansionista, transformei energia sonora em energia gráfica”, explicava o jornalista-poeta.

 

E vejam a constelação de cabeças brilhantes que chegaram à cozinha do suplemento: Glauber Rocha, Ferreira Gullar, Oliveira Bastos, Mário Faustino, Mario Pedrosa, Antonio Houaiss, Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Ligia Clark, Sérgio Paulo Rouanet, José Guilherme Merquior, entre outros.

 

Glauber era um jovem de 22 anos e, no entanto, exercia uma liderança intelectual, fazia comícios delirantes e escreveu nas páginas do caderno do JB o primeiro artigo fora da Bahia. O alvo era a soberba do então todo-poderoso crítico teatral Paulo Francis, que detonou como provinciana a experiência de teatro desenvolvida pelo diretor Martim Gonçalves, em Salvador.

 

Nas páginas do caderno, os poetas concretos Augusto de Campos,  Haroldo de Campos e Décio Pignatari travaram polêmicas e lançaram o movimento da poesia concreta. Lá, também, Ferreira Gullar discordou e escreveu o manifesto Neoconcretista, que propunha uma arte de vanguarda sensorial: “Os paulistas eram arranha-céu; nós éramos samba”, explicava Reynaldo.

 

O Sol (durou pouco mais de seis meses) surgiu com a proposta de fazer um jornal inovador com gente jovem no explosivo ano de 1967. Tinha na condição de editores Zuenir Ventura, Otto Maria Carpeaux, Carlos Heitor Cony, Fernando Duarte, entre outros. Reynaldo era o editor-chefe. Durou pouco mais de seis meses, mas marcou a vida de Ruy Castro, Ziraldo, Henfil, Tetê Moraes. Por que O Sol foi tão importante, apesar do curto tempo de vida? “Os mestres (do jornal) eram pessoas de grande qualificação”, arrisca Tetê Moraes, que dirigiu o documentário O Sol, caminhando contra o vento. “Os repórteres estavam escrevendo e Otto Maria Carpeaux passava na mesa deles e corrigia os artigos. Eu trabalhava na diagramação e era orientada por Reynaldo, uma bomba criativa. Inventava o tempo todo. Era uma explosão de criatividade e de ideias para jovens de pouco mais de 20 anos. Foram meses tão intensos que pareceram décadas”.

 

Interesse

O arquivo completo das edições do Suplemento Dominical está na biblioteca do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMa). Em novembro de 2013, o acervo de Reynaldo Jardim, guardado em um sítio próximo ao Plano Piloto, ficou encharcado por um temporal que varreu a região. Milan Hughston, diretor da biblioteca do MoMa, havia manifestado vivo interesse na coleção do SDJB.

 

Elaina Daher, viúva de Reinaldo, se comunicou com Hughston, que, em 72 horas, chegou a Brasília e transportou o material para os EUA: “Embora muitas publicações de ampla circulação nos Estados Unidos cubram as artes, o Suplemento Dominical, editado por Reynaldo Jardim, é único no sentido de que é um trabalho de arte em si mesmo, uma vez que ele dedicou atenção ao layout, ao texto, à imagem e à tipografia”, destacou, à época, Milan Hughston.

 

 

 

Um poeta além do tempo

Brasília é muito importante para a poesia Reynaldo Jardim. Ele chegou à capital, em 1982, para editar o caderno de Cultura do Correio Braziliense. Só ficou dois anos no posto, mas fez intervenções muito inventivas e audaciosas. Saiu para dirigir a Fundação Cultural do DF.

 

O brilho do jornalista quase ofuscou o poeta. Mas, na verdade, a poesia inundava sua vida inteira. Nunca se refugiou em uma torre de marfim para escrever. Era rápido no gatilho, fazia e vivia a poesia em qualquer situação. No Jornal de Vanguarda, da extinta tevê Rio, mantinha um quadro em que criava um poema em cima do fato quente do momento e interpretava na pele de um personagem chamado Barrabás.

 

O maior legado literário que deixou é Sangradas escrituras, um tijolaço de mais de 1.200 páginas, com a síntese do que produziu em 64 anos de poesia. O livro só pôde ser lapidado no silêncio espacial de Brasília.

 

A obra ainda é um território a ser explorado. Reúne as experiências mais contrastantes e resultam do corpo a corpo do espírito anárquico de Reynaldo com a poesia romântica, o modernismo, a poesia engajada e as vanguardas poéticas do século 20. Com senso de humor, o próprio Reynaldo dividiu o livro em dois segmentos: retaguarda e retrovanguarda.

 

É uma síntese original. De maneira semelhante ao poeta paraibano Zé Limeira, Reynaldo era capaz de misturar cinturão com abacate e extrair da química absurda algo precioso. Não se trata de um livro convencional. É um livro-objeto em que a palavra é transpassada pelas artes plásticas e gráficas, em um diálogo cerrado com o concretismo e com as experimentações neoconcretistas.

 

O livro faz uma arqueologia da produção de Reynaldo. Ele começou escrevendo versos apaixonados para uma prima, quando ainda era um garoto. Chegou a preencher um caderno de 360 páginas e colocou, para si mesmo, o desafio de escrever um poema por dia. Quando a inspiração não vinha, apelava para o dicionário e, quase de maneira semelhante aos cantadores de cordel, improvisava versos a partir da palavra sorteada.

 

 

Polonês

Escreveu tantos poemas que, em certo momento, sentiu a mão mecanizada. Com o espírito rebelde, se insurgiu contra si mesmo e inventou uma nova língua em “wrosnk”, pois morava em Curitiba, cidade de forte impacto da migração polonesa. No entanto, precisava justificar a novidade e contou uma história fantástica. Segundo ele, alguns pesquisadores e arqueólogos descobriram uma ossada de hidrossauros, em que estava inscrita a técnica da poesia: “Grinca! Vonsk prodesta inascita/Brita na greta abrupta da caverna/Pedra gravita Dara farta Vronsq”.

 

Reynaldo que sempre usou as páginas dos jornais para fazer poemas-posters, mixar palavras, desenhos, esculturas, códigos, signos, ilustrações, pinturas, objetos, rascunhos e projetos arquitetônicos. Ele realiza uma leitura anárquica, erótica, dionisíaca e crítica da poesia amorosa, do poema de circunstância, da poesia política e das vanguardas. Essas possibilidades ficaram mais claras quando a poesia de Reynaldo ganhou uma versão audiovisual no documentário Profana via-sacra, de Alisson Sbrana. O filme revelou de maneira plena as potencialidades de uma poesia neoconcreta. Enquanto duas belas atrizes se despem, as palavras se colam em seus corpos: “Che passou por aqui. Cristo passou por aqui”.

 

Banheiro

É uma leitura original, porque, apesar do amor pela visualidade (Reynaldo só fazia jornal com uma régua na mão), sempre imaginando a forma gráfica das matérias, ele coloca em primeiro plano a palavra. Ferreira Gullar disse, em entrevista ao Correio, sobre Sangradas escrituras: “O livro é de uma criatividade, de uma lucidez poética incrível.”

 

No livro Mínima grafite, Reynaldo fez uma série de haicais livres para celebrar a beleza e o prazer do corpo feminino: “Côncavo-convexo/ amor/ não tem nexo.” O livro nasceu de uma encomenda que a esposa, Elaine Daher, lhe fez para ilustrar azulejos no banheiro. “O espelho se embaça/Perdi a cabeça/Virei fumaça”. Palavra e imagem se enlaçam eroticamente de maneira indivisível.

 

No universo de Brasília, Reynaldo lapidou, esmerilhou e deu forma mais permanente a seus poemas de circunstância, produzidos à queima-roupa, no calor da hora das redações de jornais, que sempre foram a sua segunda casa. Talvez Sangradas escrituras seja, na verdade, o único livro de poesia neoconcreta subvertida, animado pelo espírito anárquico de Reynaldo, para quem a poesia é sinônimo de liberdade. A poesia sopra onde quer, como diria Murilo Mendes.

 

Depoimentos

Elaina Daher
• “Conheci Reynaldo Jardim no dia 8 de novembro de 1986, em Goiânia, onde ele havia ido lançar seu livro Cantares Prazeres. Eu, repórter do jornal Diário da Manhã, fui entrevista-lo. No final da entrevista, impressionada, declarei: você é a pessoa mais fascinante que já vi. Sua resposta foi imediata: Aproveite que estou solteiro e case-se comigo. Dois meses e cinco encontros depois eu já estava de mudança para Brasília  – em segredo para meus pais, goianos e preconceituosos -  e fomos viver juntos. Mais três meses e casamento no civil e no religioso. Ele, 60 anos. Eu, 23 recém completados. Uma pessoa que nascia a cada manhã, que não carregava o passado nas costas. “Acordo sem mágoas / as marcas do sono”, me disse em um poema quando chegamos da lua-de-mel e eu pedi que ele escrevesse, afinal, quem era. Eu só soube de sua importância na história da imprensa e da cultura brasileira por depoimentos de terceiros. Ele jamais contou nada do que havia feito. Nenhuma falsa modéstia. Apenas não pensava nisso. Estava sempre com a cabeça no que iria fazer, com aqueles olhinhos de menino que está fazendo uma peraltice muito grande.
A beleza de seus olhos não estavam no azul sem igual, mas no sorriso. Eram olhos que sorriam. Marotos. “Nem do que sou/eu me sinto dono”, outro trecho desse mesmo poema. Me ensinou o segredo da felicidade: boa saúde e má memória. Dizia que a memória servia para re-sentir. E que ressentimento era um péssimo sentimento. Se deslumbrava com as pequenas coisas. Contava como pintava o céu a cada por do sol. O trabalho enorme de fazer arco íris. “Paris, Roma, Filipinas/no universo do seu sonho/ e no chão de cada esquina/ o sonho pedindo um dono”. 
Ele saia catando todos esses sonhos, em todas as esquinas, em todos os movimentos de formigas, aranhas, do jabuti que o seguia como se fosse um cachorrinho.
Por 24 anos vivi com Reynaldo. Tanta paixão, tanta briga, tanta luz, tanta sombra. Tivemos três filhos – que fizeram tudo valer a pena. Agora, já são quase oito anos em que ele se foi. Tanto tempo depois, agora eu não mais uma garotinha, mas uma avó madura, que já conheceu o mundo (quando o conheci, nunca havia saído do circuito Goiânia-Brasília. Nem praia conhecia), a cada dia uma certeza se confirma: foi a pessoa mais fascinante que já vi.”


Tetê Moraes, cineasta
• O Reynaldo era um motor de criatividade. Um amigo da Ana Arruda dizia que ele era um macaco inventor. Fosse poesia, desenho, inventar um jornal ou construir uma casa. Não ficava parado. Nos últimos anos de vida, quando morava em Brasília, Reynaldo ia ao Rio de ônibus, pois tinha medo de avião. Sempre ficava em minha casa ou na casa do Ziraldo, que ele dizia serem a mãe e o pai dele quando estava no Rio. Ele saía cedo para comprar pão. Quando voltava, eu já deixava papel, lápis de cor, cola, tesoura e lápis. Coisas para criança brincar. Ele fazia colagens para ilustrar uma coluna que tinha no Jornal do Brasil. Era uma pessoa muito simples, uma criança grande, criativa, que gostava de brincar com coisas e pessoas. Um homem da festa que reformou quase todos os jornais do Brasil. Uma pessoa linda, generosa, uma bomba de criatividade.


Nicolas Behr, poeta
• Reynaldo Jardim é o que podemos chamar de multiartista. Criou para todos os lados. De jornalista a agitador cultural. De programador gráfico a poeta. De radialista a pai. Quando diretor da então Fundação Cultural do Distrito Federal, despachava deitado numa rede. Um paulista com sonhos de ser baiano. Um baiano mais que muitos baianos. No fundo, no fundo, Reynaldo Jardim foi um iconoclasta, um rebelde. Um ser de uma inquietude que era o seu combustível criativo.


Cristina Roberto, amiga
• Hoje, eu acordei pensando no Reynaldo, nas coisas dele que estão comigo. Quando se mudou para Portugal, a Elaine Daher (viúva do Reynaldo) deixou as criações dele para que eu guardasse em minha casa. O acervo tem livros e desenhos, principalmente. Estava em uma chácara, mas tive de alugar e está em minha casa. Estou muito preocupada. As pessoas não têm noção do valor desse material. As esculturas dele estão em outro lugar, me parece que na chácara da família. Esse material necessita ser mais bem-cuidado. Preciso que alguém me ajude a encontrar um lugar onde seja digitalizado e guardado em condições melhores. Os amigos do Reynaldo precisam ajudar. O Reynaldo tinha uma vitalidade, uma disposição para viver fantástica. Era frequentador assíduo do sarau que eu promovia em minha casa. Fizemos uma semana de festa para os 80 anos de Reynaldo Jardim no Teatro Nacional. Quando a festa acabou, tarde da noite, ele olhou para mim e disse: “Já acabou”. Nunca o vi tão feliz. Existia um tema e ele sentava no canto e escrevia o poema em pauta. Quando ia ler, era lindo o que escrevia. Tinha uma capacidade de falar de tudo de forma linda e poética. Certa vez, estava em um Spa e me liga ele: “Doçurinha, vou fazer uma cidade e quero que você vá morar lá”. Era um delirante maravilhoso que estava inventando coisas. Nunca se cansou de inventar. Ele era indissociável do sol, da cor e da luz.


Francisco Alvim, poeta
• Conheço pouco o Reynado do ponto de vista pessoal, mas tenho aquele livro que parece um tijolo, Sangradas escrituras. Acho a poesia dele curiosa e interessante. Nos tempos heroicos do Rio de Janeiro, adorava ler o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, que ele editava. Mas não tinha afinidade com nenhum dos dois grupos dominantes: a Poesia Concreta e a desintegração final de A luta corporal, de Ferreira Gullar. Cláudio de Melo e Souza, personagem das crônicas de Nelson Rodrigues, levou o meu poema Os bichos, para Mário Faustino, poeta cultíssimo, que gostou e publicou na página Poesia Experiência, que publicava no SDJB. Quanto à poesia de Reynaldo, acho muito curiosa e interessante. De vez em quando, dou uma olhada no tijolão. Ao ler o conjunto, percebo que ele tinha uma alma realmente vagabunda, no sentido de errante, instável. Saía de um soneto para a experimentação mais radical de poesia visual. Parece aquelas bolas densas que batem no chão e vão parar no teto. É incrível a inventividade dele.
 

Poemas

 
Se eu quiser falar com Deus (trecho)

"Eu só vou falar com Deus
quando ele matar a fome
dessa criança sem nome
que não para de chorar.
Quando ele descer do céu
e vir que cada menino,
sem presente, sem destino,
precisa de um beijo seu."



Aos surdos (trecho)

"Um coração, urgente,
eu peço agora
para quem o tem de plástico
ou de granito
e que, ouvindo gritar,
se alegra com o grito. (…)
Para quem só se contenta
com a morte em tal proporção
que queima a raiz do céu,
que torra a ave no chão,
não é preciso que seja
o melhor coração do ano.
(O mundo melhor muito
com um coração quase-humano)."


Esplanada (trecho)

"(…) No Congresso e no Palácio
Ninguém olha na janela
Pra ver o povo exigindo
paz e feijão na panela.
Pra haver o povo chorando,
desespero de mulher,
o poder indiferente
não olhar porque não quer
trancados nos gabinetes
só têm tempo para ver
o que se passa lá dentro
nas entranhas do poder.
Enquanto isso lá fora
o povo se desencanta
ou o poder desce à praça,
ou o povo sobe a rampa."


Fábrica de bandido

"Desempregue um pai,
deixe-o na lona.
A mãe abandone
em estado de coma
Jogue na sarjeta
o filho indigente
Será, se viver,
um sobrevivente.
Na rua terá
que buscar sustento,
esmolando o pão,
dormindo ao relento,
até que a miséria
converta o menino
em ladrão safado
em frio assassino."



O que se odeia no índio 

"O que se odeia no índio
não é apenas o ocupado espaço.
O que se odeia no índio
é o puro animal que nele habita,
é a sua cor em bronze arquitetada.
A precisão com que a flecha voa
e abate a caça; o gesto largo
com que abraça o rio; o gosto de
afagar as penas e tecer o cocar;
O que se odeia no índio
é o andar sem ruído; a presteza
segura de cada movimento; a eugenia
nítida do corpo erguido
contra a luz do sol."
 
 
 
 
 
 
  
 
 

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